"Rocha que Voa" abre diálogo entre gerações

E se as imagens elaboradas deRocha Que Voa - tratadas no computador, com alteração decores e texturas - forem o signo de uma estetização não muitodiferente daquela analisada na série de debates Estética XCosmética da Fome, realizada de segunda a quarta desta semana,no Espaço Unibanco de Cinema? Eryk Rocha participou da últimamesa. Após o debate, conversou ali mesmo, no bar do Espaço, coma reportagem. Aceitou a provocação contida na pergunta inicial eexplicou por que fez as alterações nos fragmentos de filmes queusou e também nas imagens, em diferentes suportes, que elepróprio captou. "Os movimentos de vanguarda criaram um temorpela experimentação que se reflete nas novas gerações, como seexperimentar fosse anacrônico. O que precisa ser feito é umareleitura daquela época em linguagem contemporânea."Aquela época: fim dos anos 1960 e início dos 70. O queEryk tenta fazer - o que consegue em Rocha Que Voa -, aopesquisar e discutir as idéias de Glauber a partir do registrode sua passagem por Cuba, é estabelecer um diálogo poético entrea geração de seu pai e a dele. Eryk raramente usa a expressão"meu pai". Refere-se quase sempre a Glauber. Tinha 3 anosquando Glauber morreu. Hoje, aos 24 anos, ele também está naluta por um cinema libertário, que leve adiante a bandeira nãoapenas do pai - "Glauber não foi iluminado sozinho", diz - masa de toda uma geração que acreditava no sonho de unir a AméricaLatina por meio do cinema. Essa busca permanece atual. Erykparticipou na semana passada de um debate no Cinusp Paulo Emílio, na Universidade de São Paulo (USP). O cinema estava emdiscussão, mas também surgiram perguntas e observações sobre acomplexa realidade do continente. Nesse mundo globalizado edividido, Eryk está convencido de que é preciso criar projetosque realmente estimulem a unidade e dêem força cultural eeconômica a esse bloco tão fragmentado, tão "ignorante de simesmo", como informa.O fato de ele ser tão criança quando Glauber morreupermitiu-lhe, ao mesmo tempo, um distanciamento e umaapropriação. Seu interesse ia além do problema da filiação. Comojovem apaixonado pelo cinema, Eryk queria entender a herançacultural de Glauber e sua geração. Queria fazer a ponte para opresente, retomar idéias e sonhos que ainda permanecemirresolvidos. Por isso mesmo, no fim do filme há um vazio, umsilêncio, um espaço para reflexão que tem de ser preenchido peloespectador. Eryk não acredita no documentário didático. Concordaque um documentário que desse tudo mastigado ao espectador,seria uma traição ao objeto de estudo. Rocha Que Voa éintencionalmente fragmentado, um convite ao espectador para queordene as idéias em torno do papel do intelectual e das artes noâmbito social e político dos países latino-americanos. Era osonho de Glauber e sua geração, que Eryk retoma com um conviteao novo, ao ousado, à experimentação. Ele quer discutir ética eestética. Afirma: "A linguagem potencializa a discussão; semlinguagem não há cinema; sem ousadia, não vamos encontrar ocaminho para construir as utopias do nosso tempo."Um filme como esse remexe em camadas de memóriasafetivas, coletivas e individuais. O visual procura expressar omar de idéias de Glauber, o vulcão em erupção que ele era. E háo tema do amor. "A geração de meu pai se interessava tanto pelapolítica que não tinha tempo nem vontade de falar de amor",diz. Talvez tivesse medo de cair no melodramático. Por meio dasocióloga Maria Tereza Sopeña, namorada cubana de Glauber, Erykrevela o lado mais íntimo do pai e faz a ponte entre amor epolítica. Da união entre os dois pode nascer a concretização dosonho que Eryk não persegue sozinho. A acolhida do público àssuas idéias, o companheirismo do diretor de fotografia uruguaioMiguel Vassilskis, jovem como ele - e a seu lado durante aentrevista -, mostra que ainda existem sonhos coletivos. A lutacontinua.Rocha Que Voa. Documentário. Direção de Erik Rocha.Br-Cuba/2002. Duração: 94 minutos. 14 anos.

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