"Robôs" leva às telas a rebelião dos desajustados

Ao som de Tom Waits e Fontains of Wayne, numa locação que lembra uma mistura de Metrópolis, de Fritz Lang, com Blade Runner - O Caçador de Andróides, de Ridley Scott, o mundo das latas, torradeiras e hidrantes velhos ganha vida. Esse é o melhor filme para crianças da temporada. Trata-se de Robôs, que estréia nesta sexta-feira, em todo o Brasil. É co-dirigido pelo brasileiro Carlos Saldanha que renova assim a parceria com o diretor Chris Wedge de A Era do Gelo. Nem sempre o filme que está na frente nas bilheterias é o melhor (vide The Pacifier e Be Cool), mas esse merece o aplauso do público.Um robô adolescente do interior, Rodney Copperbottom, "filho" de um lavador de pratos e uma dona-de-casa, vai para a cidade grande em busca de realizar seu sonho, ser um inventor de sucesso. Lá, ele descobre que a coisa não será fácil - a hipercompetitividade do mundo moderno não é paciente nem misericordiosa com os ingênuos e os pequenos jogadores do sonho robótico. Ele também descobre que seus heróis (que, infelizmente, não morreram de overdose), tornaram-se alienados e irresponsáveis.Só resta ao jovem Copperbottom se aliar aos perdedores, malandros de estação de trem, vagabundos, camelôs, criando um pequeno exército de deserdados. Houve quem enxergasse nisso uma rebelião de fundo marxista. Uau! Aventura humanista protagonizada por máquinas, Robôs é um paradoxo em tempos de advertências contra a supremacia maquinista. Desde os livros de Philip K. Dick, passando pelos clássicos do cinema como 2001 - Uma Odisséia no Espaço e O Exterminador do Futuro, pelas aventuras retrô como Sky Captain, acostumamo-nos a ver a máquina como uma ameaça em potencial. Aos poucos, isso parece que vai mudando, num esforço coordenado da ficção, como aconteceu com o recente Eu, Robô.Com as vozes de Ewan McGregor (Rodney Copperbottom), Halle Berry (Cappy), Robin Williams (Fender) e Mel Brooks (Bigweld), Robôs é um divertido filme para acordar certos adultos da competitiva sociedade moderna, os néo-yuppies, os workaholics, os cybernerds e os window-dependentes. Enfim, todos os homens-máquina.É cheio de boas piadas, paralelos engraçados entre homens e robôs, entre a cidade eletrônica e a real. Além de trazer boas "coreografias" robotizadas, de Dançando na Chuva (no caso, Dançando no Óleo) a uma festa paródica de funk dos anos 70, ao som de James Brown. Há uma locação equivalente ao Inferno, de Dante, uma fornalha na fábrica de reciclagem de peças e robôs, além de relações de fundo psicanalítico entre mãe vilã e filho vilão, e "bailes medievais" com cavaleiros de lata.A moral de Robôs é simples e reta, e não tem nada de marxista (talvez seja apenas um tanto cristã): é preciso ter compreensão e respeito para com aqueles que se tornaram obsoletos. Atenção à lição dos humildes e das pequenas peças que compõem a engrenagem social. Respeito para com os desajustados, porque eles pelo menos não vivem a rotina da previsibilidade.Em Robôs, a máquina é uma metáfora: a sociedade, na sua ânsia de trocar peças, repor incessantemente carros e computadores, acrescentar seios de silicone novos, narizes novos, traseiros novos, está se desumanizando gradativamente. O gênio humano não está mais a serviço da inovação, mas do hedonismo e do consumismo. Mas certos valores, como a amizade, o senso de humor, a lealdade, a ética e a família resistem e se opõem à brutalização. Mesmo que essa família e esses amigos heróis da resistência comam parafusos e pregos e tomem banho de óleo no café da manhã.

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