RoboCop ganha rosto e vence a máquina

José Padilha fez um filme de pancadaria que tem coração e mente

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

24 de fevereiro de 2014 | 17h49

Há um momento chocante no RoboCop de José Padilha. Ele está no laboratório que virou sua casa, o médico remove a armadura e o personagem se vê como foi reduzido, após o atentado de que foi vítima – menos que um tronco, os pulmões expostos. Há outro momento que talvez seja o contraponto desse – é quando o herói dança com a mulher, ao som de Frank Sinatra. O ator Joel Kinnaman que faz o papel é sueco e ficou conhecido graças à série The Killing. A atriz é a australiana Abbie Cornish, que coestrelou O Brilho de Uma Paixão, de Jane Campion.

A dança é um momento singularmente romântico, e o filme de Padilha subverte a tradição hollywoodiana porque também é, ou é, principalmente, um estudo de relação. Kinnaman e a mulher vão para a cama e você sabe que Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallone nunca têm tempo a perder com o sexo. Ficam o tempo todo na pancadaria. Talvez esse interesse pelo sexo, mas não só pelo sexo, pelo romantismo, seja a contribuição brasileira ao novo RoboCop. Nem o diretor original, o holandês Paul Verhoeven, se interessou tanto pelo assunto – naquele filme, porque em outros ele aprofundou/dissecou relações hetero, homossexuais.

Todo mundo só foi perguntar a Verhoeven o que ele achava da ausência de humor no novo RoboCop. É uma diferença essencial, mas se o RoboCop de Padilha não tem tanto humor, ou não tem humor, é porque o diretor está interessado em outra coisa. Você, cinéfilo, sabe como é o diretor do maior sucesso do cinema brasileiro em todos os tempos. Padilha é obcecado pela questão da segurança, que está no centro de Tropa de Elite 1 e 2, mas no segundo a questão do filho e o novo casamento da mulher meio que desestabilizam o Capitão Nascimento (na cena do hospital), quando o garoto está à beira da morte.

Padilha tem feito muito discurso sobre a questão da segurança em RoboCop. Disse que quis levantar, para o americano médio, um tema controverso na geopolítica do país. Os EUA, até com Barack Obama, têm usado os drones – aviões robóticos, não tripulados – para enfrentar situações de risco no exterior. Na ficção do filme, a firma que constrói os tiras cibernéticos quer que eles sejam liberados para uso interno, na ‘América’, mas há uma lei proibindo que isso ocorra. Seria como liberar os drones contra os próprios norte-americanos. A solução – saca o maquiavélico Michael Keaton, que já foi Batman (e Padilha não escolheu o ator por acaso) é colocar um homem dentro da máquina. Kinnaman vira o candidato perfeito, após o seu ‘incidente’. Mas ele não rende como Keaton espera, porque permanece homem, com uma consciência. O resultado é tentar anestesiar essa consciência, e aí entra o cientista (Gary Oldman).

Uma reclamação que tem sido feita a Padilha é que ele quer falar de muita coisa, ao mesmo tempo. Mas já era assim em Tropa de Elite 1 e 2, e até nos documentários que ele fez. O papel da ciência, o controle da mídia, a ação dos marqueteiros, tudo isso aumenta a textura de RoboCop. Mas a chave é a questão do embate entre o homem e a máquina. Michael Keaton está certo de que controla o RoboCop porque ele é máquina, mas não é verdade. O novo RoboCop conta a história de dois homens que venceram a máquina. O personagem, Alex, e o diretor, Padilha (a máquina de Hollywood). Verhoeven, há quase 30 anos (em 1987), também já travara essa batalha. O tira dele era só uma boca numa armadura. Padilha dá um rosto ao RoboCop. Filma seus olhos, espelho da alma. É belíssimo.

ROBOCOP

Direção: José Padilha. Gênero: Ação

(EUA/2013, 118 minutos). Classificação: 14 anos.

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