Robin Williams era um ator completo

Ele sabia fazer o público ir às lágrimas como poucos, mas a plateia sempre preferiu lembrar-se dele pelo riso

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

12 de agosto de 2014 | 10h49

"Bom dia, Vietnã!". Quem viveu os anos 1980 certamente não passou incólume ao bordão que o radialista Adrian Cronauer (Robbin Williams) entoava todos os dias em um dos filmes mais belos e menos reconhecidos da década: Bom dia, Vietnã!. Era com seu humor desconcertante que ele tornava a vida dos soldados americanos mais suportável em plena guerra.

O longa de Barry Levinson apresentava para o mundo um ator baixinho, não muito bonito, que não era galã, mas com um par de olhos azuis sedutores e melancólicos, além de um carisma inabalável. Robin Williams era seu nome. E sua performance foi tão arrebatadora que ele, ainda jovem, foi indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante. Hoje, quando o mundo tenta entender o porquê de sua morte, talvez deva-se pensar que ele merecia, mais do que nunca, aquele prêmio. E foi justamente com um outro drama que marcou a década que o ator ganhou, de vez, seu lugar na calçada da fama: Sociedade dos Poetas Mortos, de 1989, em que o sublime professor John Keating mudou a vida de seus alunos e influenciou toda uma geração. Foi indicado ao Oscar novamente, mas não levou mais uma vez.

Williams, que, até estes dois longas, era mais famoso nos Estados Unidos por seu talento único para o stand up comedy e como o protagonista do seriado Mork & Mindy, alternou tão bem em sua carreira papéis cômicos e dramáticos que, apesar de sua fama de engraçado, é impossível não se lembrar das lágrimas que arrancou das plateias do mundo todo. Mas não deixava de ter seu lado filosófico este humorístico em que o alien Mork, enviado do planeta Ork em missão à Terra para tentar entender os humanos, tinha de passar relatórios semanais sobre este planeta tão belo e contraditório. O seriado estreou em 1978, na ABC, e foi exibido em diversos países, inclusive no Brasil, onde foi ao ar já como programação vintage de 2006 a 2008.

A linha entre a comédia e o drama é tênue para grandes atores como Williams, que, filho de uma ex-modelo e um executivo, preferiu os palcos e holofotes. Ele sabia fazer o público ir às lágrimas como poucos, mas a plateia sempre preferiu lembrar-se dele pelo riso.

Desde seus mais recentes trabalhos, como Uma Noite no Museu e as dublagens de Happy Feet, até seus programas de stand up para a HBO no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, como Off The Wall (1978), An Evening with Robin Williams (1982) e Robin Williams: Live at the Met' (1986), a figura de Williams era sempre marcante, daquelas suficientes para que milhares de fãs apostassem em um filme somente porque ele estava no cartaz. Entre tantos personagens, são inesquecíveis o Peter Pan de Hook - A Volta do Capitão Gancho e Mrs. Doubtfire de Uma Babá Quase Perfeita, de 1993, um dos mais marcantes. No papel do pai que se disfarça de mulher para poder ficar mais próximo dos filhos, há dor e humor que lhe renderam o Globo de Ouro de melhor ator em comédia. E foi na pele (ou na voz) do gênio de Alladin, de 1992, que ele provou que não há nada como a interpretação de um grande ator para atrair milhões para uma sessão de animação da Disney. A onda de celebridades dubladoras começou com ele e até hoje é uma marca das animações.

Apesar de seus papéis irrevogáveis na comédia, como manda a tradição da Academia, foi com um drama que o Oscar finalmente chegou. Com Gênio Indomável, ele levou para casa o Oscar por melhor ator coadjuvante. De lá para cá, alternou bons papéis em sucessos como Patch Adams - O Amor é Contagioso (1998), A.I. - Inteligência Artificial (2001), Retratos de uma Obsessão (2002) e Robôs (2005), mas, ironicamente, foi a partir de seu grande prêmio que nunca mais repetiria papéis tão intensos quanto Cronauer. Por muito tempo, ainda se poderá ouvi-lo entoar: 'Bom dia, Vietnã!'.

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