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Roberto Farias ganha retrospectiva no CCBB

As várias facetas da carreira do diretor estão na mostra que comemora seus 80 anos

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2012 | 19h25

Ao completar 80 anos, Roberto Farias ganha no CCBB uma retrospectiva que faz jus à sua trajetória polivalente. Os Múltiplos Lugares de Roberto Farias - eis aí o título bem apanhado para essa mostra que inclui mais de 20 filmes, entre os quais alguns dos mais importantes da sua carreira de cineasta, como Cidade Ameaçada (1960), Assalto ao Trem Pagador (1962), Selva Trágica (1964) e Pra Frente Brasil (1982).

Os curadores da mostra são João Luiz Vieira e Tunico Amâncio, professores da Universidade Federal Fluminense e com larga vivência na história do cinema brasileiro. Portanto, em excelente posição para compreenderem a importância de Roberto nessa história tão conturbada, cheia de entraves e oscilações.

A mostra inclui também filmes que não levam a assinatura de Roberto como diretor, mas o têm nos créditos, ora como produtor, ora como roteirista ou técnico. Assim, justifica-se a presença de filmes de outros autores, como Os Machões, do seu irmão Reginaldo Faria, As Aventuras com Tio Maneco, de Flávio Migliaccio, e Toda Nudez Será Castigada, de Arnaldo Jabor, entre vários outros.

Como Roberto aprendeu tudo na prática, e vem do tempo da chanchada, filmes como Aviso aos Navegantes (1950) e Rio Fantasia (1956), de Watson Macedo, também estão presentes na mostra. Farias trabalhou com Macedo e J.B. Tanko no início da sua carreira, exercendo várias funções técnicas e aprendendo o métier à moda antiga, de baixo para cima, até se tornar diretor. Estreou com a comédia Rico Ri à Toa, com Zé Trindade no elenco. Quem conversa com Roberto sente o seu orgulho por essa formação prática, que o levou a dominar todas as etapas da “fabricação” de um filme. Uma formação old school, do tempo em que escolas de cinema eram uma quimera e o sujeito aprendia fazendo, puxando cabos e segurando pau de luz.

Roberto também teve atuação de destaque na política cinematográfica, sendo diretor-presidente da Embrafilme durante o período áureo da empresa. Sem modéstia, ele mesmo disse, em depoimento durante o recente Festival de Gramado: “Na nossa gestão o cinema brasileiro teve a melhor ocupação de mercado da sua história”. De fato, chegou a quase 40% daquilo que os entendidos chamam de market share, a fatia da pizza que corresponde à produção nacional, hoje estacionada entre 10% e 15%. Foi um marco histórico, com efeito.

Essa preocupação com o público foi uma constante na carreira de Roberto Farias. Vem de sua origem, a chanchada, que foi também a sua escola. Vem igualmente no interesse pelos filmes policiais, na época de grande apelo popular. Nesse gênero, garimpou, quem sabe, suas melhores pepitas, que de fato conciliavam empenho artístico, consciência social e comunicação fácil com o público. Em coerência com esse desejo de diálogo com a plateia, fez com que dirigisse a sua trilogia com Roberto Carlos, o eterno ídolo das multidões, o rei. Mas Farias também não se omitiu durante a ditadura, lançando seu então polêmico Pra Frente, Brasil, vencedor do Festival de Gramado de 1982 e em seguida ameaçado de interdição pela censura.

Roberto conta que teve de negociar e postergar a estreia do filme para o ano seguinte, pois 1982 era “ano de eleições e Copa do Mundo” e os militares sentiam-se sensíveis em relação a críticas ao regime no filme. Já a ala mais à esquerda do cinema brasileiro entendia que Roberto fizera concessões em sua diatribe contra a tortura e investira numa estética envelhecida para relatar os desmandos do regime.

Roberto minimiza as objeções da crítica e de alguns colegas. “A crítica a Pra Frente, Brasil quem fez foi a ditadura militar, que não gostou nada do filme.”

A verdade é que Roberto já tivera algumas dissensões internas com o pessoal do Cinema Novo, apesar de ter trabalhado com alguns deles, como Luiz Carlos Barreto, e com eles haver fundado a distribuidora Difilm, para muitos o embrião da Embrafilme. Glauber Rocha, em seu livro Revisão Crítica do Cinema Brasileiro se refere a Roberto como competente artesão, alguém com muita noção do fluxo do cinema, do seu ritmo e fatura. Palavras respeitosas, mas que deixam claro que ele não era um deles. Roberto diz que nunca se abalou com isso. “Eu era mais velho e experiente do que todos eles. Nunca me importei com isso; éramos de gerações diferentes.”

Então, quando o Cinema Novo começa, Roberto já tem dez anos de estrada. E, justamente, naquele início dos anos 1960, quando o CN começa a ganhar fama mundial, com seus grandes filmes, Roberto vive também o seu melhor momento. Cidade Ameaçada é já um autêntico policial à brasileira, ainda que se ressinta de diálogos mais naturais. O seguinte seria o melhor de todos. Assalto ao Trem Pagador, baseado em caso real, é, até hoje, o melhor filme policial brasileiro.

Tudo nele funciona de maneira enérgica e inspirada. Da ambientação na favela, e a relação com o comando intelectual (Reginaldo Faria e seus olhos azuis) e os pés rapados do crime, chefiados por Tião Medonho (Eliezer Gomes).

O filme, de base realista, é um estupendo comentário social daquele Brasil de abismos sociais intransponíveis. Conta ainda com a atuação marcante de Grande Otelo, no papel de Cachaça, um dos assaltantes e em estado permanente de embriaguez. É o grande momento do Roberto Farias diretor de cinema, embora Selva Trágica também tenha qualidades.

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