Robert Duvall e o amor por tango e idéias

Pelé, Ronaldo, Lula, Steven Spielberg, Fidel Castro, tango, ditadura militar - nenhum assunto parece intimidar o ator e diretor Robert Duvall. Aos 72 anos, ele se sente à vontade para falar abertamente sobre temas diversos, mesmo que provoque controvérsia. Duvall conversou com o Estado por telefone, de sua casa na Virgínia, Estados Unidos. Mas poderia ser também da região norte de Buenos Aires, na Argentina, onde passa temporadas ao lado de Luciana Pedraza, sua companheira desde 1997. É que Duvall é apaixonado por tango, ritmo que domina plenamente seu mais recente filme, O Tango e o Assassino, em cartaz na cidade. É a respeito do longa, que conta a história de um matador que, em Buenos Aires, descobre e se apaixona pelo tango, que deveria acontecer a entrevista, mas Duvall assume o controle e dispara uma série de perguntas: "Como vai o governo Lula? Só tenho ouvido bons comentários." E: "Quero ver logo o novo filme de Walter Salles, pois fiquei emocionado com Central do Brasil." E ainda: "Você fala de São Paulo? É a cidade próxima de Santos, onde jogou Pelé? Sempre fui apaixonado por futebol e vi imagens fantásticas desse time nos anos 60, uma coisa rara." Mais futebol: "O que realmente aconteceu com Ronaldo na final da Copa da França, em 1998? Sabe que, naquele dia, briguei com um monte de franceses?" O esporte bretão ainda é tema para Duvall confessar seu mais novo projeto: vai interpretar um técnico de futebol de um time de crianças, que deverá ser rodado no México. Astro consagrado, dono do Oscar de melhor ator de 1983 por A Força do Carinho, Duvall pode se dar ao luxo de não corromper suas convicções pessoais em troca de bons papéis. Sustenta, por exemplo, a promessa de não mais trabalhar para a DreamWorks porque um de seus presidentes, o cineasta Steven Spielberg, visitou Cuba e se encontrou com Fidel Castro. "Será que Spielberg, que sempre condenou os crimes de guerra, não sabe que Castro assassinou muitas pessoas?", questiona. Seu papel em O Tango e o Assassino é o de um homem que tanto é um assassino como um devotado pai de família. Como construiu um personagem tão complexo? Robert Duvall - Bom, John J., meu personagem, é o típico homem da máfia do Brooklyn nova-iorquino, ou seja, um assassino profissional. Mas isso não quer dizer que seja um monstro, afinal, muitos assassinos também são chefes de família e eles conseguem separar uma função da outra. Claro que há contradições, mas isso é normal em vidas como essa. Como o senhor descobriu que o tango seria uma boa forma para contar uma história de assassinato? Eu pretendia unir Nova York e Buenos Aires em um filme. Lembrei-me de alguns rapazes que dançam mambo em Nova York e, muitas vezes, diziam dançar também o tango, que é um ritmo comum ao submundo. Assim, descobri que o tango (e, por extensão, o submundo) era a melhor forma de conectar as duas cidades. Daí, criei John J. e eu queria que ele fosse apresentado ao tango na Argentina. A melhor forma, portanto, seria inventar um assassinato e, pelas visitas que já fiz à Argentina, percebi uma certa revolta com alguns militares que comandaram impunemente o país, anos atrás. Era o laço que faltava para amarrar a história. John J. conhece técnicas de assassinato. O senhor fez algum tipo de pesquisa sobre esse tipo de emboscada? Bom, conheço um cara mercenário que lutou na Guerra do Vietnã, onde ensinou os soldados a matarem os inimigos com técnicas especiais. Logo depois de cumprida a obrigação, ele atravessava a rua para tomar um café e observar o resultado: o tumulto, a chegada da polícia. Também conheci outro cara, na Flórida, que andava com uma pequena pistola no bolso. Aliás, ele era procurado pela polícia. Foram essas histórias que venho escutando há anos que inspiraram as características do personagem. O que difere o tango argentino do que é dançado no resto do mundo? A maneira de caminhar é diferente, é difícil explicar, pois é algo único dos argentinos da mesma forma que o futebol brasileiro se distingue dos demais. O curioso é que em um recente campeonato mundial de tango o vencedor foi um alemão (ri). Os argentinos ficaram em segundo lugar, quem poderia imaginar isso? O filme se distingue também pela presença de atores não-profissionais, como sua companheira Luciana Pedraza. Por que essa opção? Pelo simples fato de que era mais fácil encontrar grandes dançarinos que pudessem atuar satisfatoriamente que o contrário. A autenticidade na dança era essencial. Foi esse motivo que o convenceu a rodar quase que inteiramente na Argentina? Sim, e também pelo orçamento do filme. É infinitamente mais barato filmar na América do Sul do que nos Estados Unidos. Por falar nisso, Francis Ford Coppola é um dos produtores do filme e o senhor atuou nos principais longas da carreira dele, como as duas primeiras partes de O Poderoso Chefão, em Apocalipse Now, A Conversação. Como é o relacionamento de vocês? Nós nos conhecemos há vários anos e nos entendemos muito bem. Há alguns anos, ele me disse que deveria escrever alguma trama sobre tango, por isso, ele foi a segunda pessoa para quem mostrei o roteiro, quando ficou pronto. Ele gostou e me disse que sua produtora (American Zoetrope) faria o filme. Coppola é um excelente produtor pois não interfere tanto (risos) e, mesmo quando surge com alguma idéia, sempre é uma boa sugestão. Sabe, sempre acreditei que ele seria apenas um grande produtor, mas, depois de acompanhar as dificuldades enfrentadas em O Poderoso Chefão e observando o resultado final, me convenci de que ele era um autêntico diretor. O senhor ainda pensa em não trabalhar para a DreamWorks? Ah, sim, a história com o Spielberg! Claro, afinal ele disse que não afirmou o que realmente disse, ou seja, que passou maravilhosas sete horas ao lado de Fidel Castro. Sei que, na América Latina, muitos admiram Castro, mas não podemos esquecer que ele é um assassino. Basta ver o filme Antes do Anoitecer (de Julian Schnabel), sobre um escritor cubano (Reinaldo Arenas), vítima da ditadura cubana, para saber do que falo.

Agencia Estado,

20 de janeiro de 2004 | 18h35

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