Rivette faz filme cerebral sobre sentimentos

Jeanne Balibar é o que se pode chamarde antiestrela. O repórter entrevistou-a durante o 5.º Encontrodo Cinema Francês, realizado em Paris, em janeiro. A entrevistafoi feita no mesmo dia de outras com Juliette Binoche eCharlotte Rampling. Juliette, principalmente, tenta ser simples,mas é uma estrela. Tem talento, beleza, glamour. Jeanne não temglamour nenhum e, se tivesse, talvez fizesse questão deescondê-lo. Ela considera a arte uma forma de trabalho. Comoartista, é uma trabalhadora. Jeanne já é conhecida do públicobrasileiro, entre outros filmes, por seu papel em Crônica daInocência, de Raul Ruiz, que acaba de ser lançado em vídeo eDVD. É um belo filme. Jeanne é ótima, mas o filme também temIsabelle Huppert no elenco e é provável que o espectador sótenha olhos para ela.Jeanne também está em Quem Sabe? (Va Savoir), ofilme de Jacques Rivette que estréia amanhã em São Paulo.Rivette é um dos mais desconhecidos entre os grandes diretoresfranceses, pelo menos no Brasil. Podem-se contar nos dedos deuma só mão seus filmes lançados no País. A Religiosa, nosanos 1960, com Anna Karina. Mais recentemente, A BelaIntrigante, com Emmanuelle Béart - é o filme em que elaaparece nua o tempo todo, como esquecer-se? - e ServiçoSecreto.A Religiosa provocou escândalo, na época, por seuenfoque do sexo no quadro das instituições religiosas. Jeanne riao lembrar-se disso: "Hoje em dia é um filme pudico com todasessas denúncias de pedofilia envolvendo os padres católicos nosEUA, principalmente." Jeanne não vacila um momento quando apergunta é sobre Quem Sabe?. O que a atraiu no projeto? Foia personagem?"Quando Jacques (Rivette) me propôs fazer o filme,deu-me uma vaga indicação de que seria sobre um casal, seusrelacionamentos amorosos e profissionais. Teria aceitado nãoimporta que papel. O importante, para mim, é o diretor. Serialouca se dispensasse a oportunidade de filmar com um diretorcomo Jacques."Jeanne cita outro de seus ídolos, Godard. "Jean-Luc dizque o cinema francês tem o péssimo hábito de mostrar personagenssem profissão. As pessoas nunca, ou raramente, são mostradas noseu ambiente de trabalho e o espectador tem de quebrar a cabeçapara descobrir o que elas fazem para viver. Na maior parte dotempo, ficam na cama ou em bares e restaurantes, em longasconversas." Rivette filma seus personagens no trabalho, masocorre de o trabalho deles em Quem Sabe? ser o teatro. Ofilme conta a história de uma trupe italiana que chega a Parispara apresentar a montagem de Come Tu mi Vuoi, de LuigiPirandello. A atriz principal, mulher do diretor, é de origemfrancesa. Teve um grande amor na França, antes de fugir para aItália. Reencontra esse homem, agora casado. O marido tambémestá atrás de um manuscrito e se envolve com outra mulher, porcausa dele. A partir daí, Quem Sabe? trata de arte e vida,mostra uma peça dentro do filme. É um filme sobre formas derepresentação da realidade, formas de representação (e vivência)do amor."Também é sobre isso, mas não estou segura de que sejasó isso. Seria empobrecer uma obra que me parece muito rica",ela explica. Esse é um caso muito curioso. O filme que oespectador brasileiro vai ver tem cerca de duas horas, o temponormal de uma projeção. Na verdade, Rivette fez duas versões deQuem Sabe?. Essa, mais curta, que o público do Brasil vaiver. E outra que tem pelo menos o dobro: quatro horas deduração. A Bela Intrigante também durava tudo isso e Rivettetem em sua carreira filmes que duram muito mais. O curioso,esclarece Jeanne Balibar, é que a versão longa é muito maisfácil de assistir. "As coisas fazem mais sentido, a montagem dePirandello dentro do filme articula-se melhor com os problemasdos personagens. Afinal, era um autor que discute a verdade sobdiferentes pontos de vista e isso é que está em discussão aqui.Acredite: o filme longo é muito mais leve."Por que, então, Rivette aceitou fazer as duas versões?"Porque era uma exigência dos produtores, que só seinteressaram pela versão curta." A longa destina-se aosmercados de vídeo e DVD, ou então aos circuitos de arte eensaio. "Um filme de Jacques nunca é caro, os produtores podematé ganhar dinheiro com ele; com certeza não perdem e por issolhe dão liberdade para fazer o que quer, desde que mantidoscertos compromissos, como esse de fazer a versão curta."E o método de Rivette, como é? "Ele não trabalha comroteiro", vai logo dizendo Jeanne. "Federico Fellini dizia que, para improvisar, é preciso muita preparação. É mais ou menos oque Rivette faz. Ele prescinde de roteiro. Não de um roteirodetalhado, mas de qualquer roteiro, o que não o impede de ter ofilme que pretende fazer de uma forma muito clara e detalhada nacabeça." Comunica-a aos atores, preparando as cenas epermitindo que eles opinem no desenvolvimento dos personagens."Essa é uma ilusão que ele dá para a gente. Faz-nos crer queestávamos inventando o filme com ele, quando o filme já estápronto em sua cabeça", diz a atriz.Arte e vida, trabalho. E amor. "É um filme cerebralsobre sentimentos", define Jeanne. Discute o divórcio que quasesempre há entre o que as pessoas são, ou julgam ser e o que osoutros pensam delas. Nada é o que parece ser e, no fundo, talvezseja. A ciranda de amor termina em morte. Jeanne está orgulhosado seu trabalho. Em 2001, Quem Sabe? integrou a mostracompetitiva do Festival de Cannes. Havia a expectativa de umgrande prêmio, talvez até de uma Palma de Ouro. Quem Sabe?terminou esquecido pelo júri oficial. "Foi decepcionante",admite Jeanne. "Por menos valor que a gente dê a prêmios, elessão sempre uma forma de reconhecimento. A imprensa criou talalarde em torno do filme que era possível acreditar num prêmiopara Rivette ou, mesmo, para Jeanne. Ela confessa que ficoutriste. "Por uma tarde, apenas", diz rindo. Logo retomou avida, o trabalho. Ficou a recordação de uma bela lembrança."Quem Sabe? vai fazer sempre parte das experiências maisimportantes da minha vida como atriz. Espero que também sejaimportante, como experiência, para o público."Quem Sabe? (Va Savoir). Comédia. Direção de JacquesRivette. Fr-It-Ale/2001. Duração: 150 minutos.12 anos.

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