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Rito de passagem em 'Pardais' ganha um panorama desolado

Filme de Rúnar Rúnarsson, sobre crise adolescente, venceu o prêmio Bandeira Paulista e é destaque na repescagem do festival

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2015 | 18h00

Na premiação da 39.ª Mostra ficou claro o acerto de um dos recortes deste ano – o Foco Nórdico, que trouxe ao público cerca de 60 filmes da Suécia, Dinamarca, Islândia, Noruega e Finlândia. Pois não é que Pardais, representante da Islândia, ganhou o Bandeira Paulista, o prêmio máximo do festival?

E com toda justiça deve-se dizer, pois o filme de Rúnar Rúnarsson é um trabalho interessante, na contramão dos clichês ao abordar tema já bastante frequentado pelo cinema – o da passagem da adolescência à vida adulta. Bem, a expressão “temas batidos” é, também, uma espécie de clichê crítico, pois é claro que ritos de passagem interessaram à ficção desde os gregos antigos e continuarão a interessar aos contemporâneos, pois se trata de um período-chave da existência humana. Não está na moda ou deixa de estar. Impõe-se, pura e simplesmente.

Claro, toda a diferença está na maneira como cada ficcionista o interpreta. Nesse ponto, ninguém pode se queixar de falta de originalidade de Rúnarsson. Pelo contrário, ele desvenda personagens e situações com as quais não estamos habituados – pelo menos no contexto em que se situam. O adolescente em questão é Ari, garoto de 16 anos, que mora com a mãe em Reykjavík. Habituado à vida, digamos, civilizada, ele é enviado ao pai, Gunnar, na região remota de Westfjords.

Logo, Ari percebe que a vida pode ser meio áspera. A começar pelo convívio com o pai, um machão alcoólatra, que gosta de caçar e brigar. O relacionamento com as pessoas de sua idade não parece mais simples e Ari deve ainda se confrontar ao surgimento da sexualidade.

O rendimento máximo do filme é obtido pelo jovem ator Atli Oskar Fjalarsson, intérprete de Ari. O diretor Rúnarsson prefere acompanhar de perto a sua saga pessoal, em contato com uma paisagem que tanto tem de deslumbrante, sob um ponto de vista, quanto de árida, por outro. O mar cinzento, o gelo, o branco predominante podem encantar num momento. Mas o convívio habitual com esse postal descolorido acaba por levar à exasperação. Ou, pior, à tristeza, à depressão. A câmera usa essa paisagem natural como elemento de linguagem, colando-a ao estado de ânimo de um garoto que, percebe-se, preferia estar num mundo mais variado, colorido e divertido do que aquele em que se encontra.

Rúnarsson tem a virtude de fazer esse cinema com elementos mínimos e, mesmo assim, prender a atenção do público. Como se cozinhasse em fogo brando a paixão interna do seu personagem e deixasse a emoção surgir apenas em momentos oportunos. Dessa forma, produz mais efeito, em especial a espectadores cansados do exagero do cinema comercial. Aqui, tudo é mínimo. E, portanto, máximo. Belo filme.

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