Ripstein envenena semana de independentes do cinema

Chega a ser divertido: o repórter lamenta que Arturo Ripstein não possa vir a São Paulo para a 3.ª Semana do Cinema: Brasil & Independentes, que começa quinta, para convidados, e sexta, para o público, no Espaço Unibanco. O filme de Ripstein "La Perdición de los Hombres" não apenas integra a programação, como é um dos melhores da semana deste ano, que vai trazer 16 títulos, entre eles "Hora do Show" ("Bamboozled"), de Spike Lee, "Harry Chegou para Ajudar", de Dominik Moll, e o grande sucesso argentino "Nove Rainhas", de Fabián Bielinski. O divertido é que o mais importante diretor do México diz que não foi convidado. "Ninguém falou comigo, propondo uma ida ao Brasil, o que seria atraente." Mas ele admite que, mesmo se o convite fosse feito, teria de dizer não, pelo menos agora. "Estou iniciando os ensaios de uma peça que estréia em agosto; não tenho como deixar a Cidade do México, mesmo que seja por poucos dias, neste momento." Com "La Perdición de los Hombres", literalmente "A Perdição dos Homens", Ripstein ganhou a Concha de Ouro para o melhor filme do Festival de San Sebastián do ano passado. A esse prêmio, foi incorporado outro, igualmente importante - o de melhor roteiro para Paz Alícia Garciadiego. Paz Alícia não é apenas a roteirista preferida de Ripstein. É sua mulher. Falando pelo telefone, de sua casa, ele conta que "La Perdición de los Hombres" nasceu de uma encomenda da TV espanhola. "Pediram-nos um curta-metragem; começamos a trabalhar no projeto, Alícia e eu." Perceberam que um curta era pouco para a história que queriam contar. O roteiro foi ampliado, a produção idem. Não foi difícil captar os recursos. "La Perdición de los Hombres" foi feito com tecnologia digital. O filme anterior de Ripstein, "Así Es la Vida", também foi. Mas a experiência agora é diversa.Tecnologia - Embora feito em digital - tecnologia que não apenas diminui os custos, mas torna a gravação das cenas mais rápidas; o problema, quando existe, é na pós-produção -, "Así Es la Vida" revelava um cuidado com a cor e a cenografia não muito diferente do de outros filmes que Ripstein fez em película, como "O Evangelho das Maravilhas" e "Vermelho Sangue". Fazia sentido: "Así Es la Vida" é a Medéia de Ripstein, que retrabalha, com roteiro de Paz Alícia, os mitos gregos, adaptando-os (muito bem) à realidade mexicana. O primeiro impacto de "La Perdición de los Hombres" é visual. O filme em preto-e-branco abre-se com uma cena que deixa no espectador a sensação de fora de foco. Prossegue em cenários toscos, com uma qualidade de enquadramento e iluminação que parece indigna do cineasta. O repórter arrisca uma interpretação - a elaboração deste filme está toda em sugerir que não houve elaboração nenhuma. "Exato", diz Ripstein, acrescentando que tinha de se policiar para impedir que, de repente, certos cuidados plásticos e cenográficos entrassem na composição das cenas. É um filme, digamos, feio, sobre um universo primitivo de paixões. Logo no começo, um homem é morto e os assassinos carregam o corpo para a casa da vítima. Comem seus restos de comida, desapropriam-no de seus parcos bens - as botas, por exemplo, que mais tarde terão decisiva participação na evolução da trama. Entram em cena as duas viúvas, pois o morto era casado com duas mulheres. Numa cena impressionante, a melhor do filme, elas brigam no necrotério pela posse do cadáver. Uma delas chega a montar no morto e a mordê-lo. Ela também grita que não é para ele ficar com aquela cara. Que cara? A de morto? Descontraia-se e ria, atendendo a um pedido do próprio diretor. Ripstein explica que "La Perdición de los Hombres" pode ser visto e interpretado como uma tragédia, mas, na verdade, para ele e Paz Alícia, é uma comédia - "mesmo que seja uma comédia de humor negro", avisa. Durante boa parte do filme, um dos assassinos canta um bolero que possui o verso que dá título a "La Perdición de los Hombres". "A Perdição dos Homens" são as mulheres. O espectador pode até acreditar, vendo as duas mulheres se estapearem pelo morto, mas lá pelas tantas a narrativa toma outro rumo, volta ao passado, sem ser exatamente por meio de um flash-back, e aí a ironia fica clara. "A Perdição dos Homens", na verdade, é o esporte e não um esporte qualquer. O Deus do rádio - Ripstein conta que Paz Alícia e ele se divertiram bastante imaginando essa história de gente pobre e marginalizada que pratica um esporte de ricos - e de imperialistas, mais ainda, pois o esporte que leva os homens à perdição é o americaníssimo beisebol. É uma das ironias e não a menor de "La Perdición de los Hombres". O repórter comenta que em "Así Es la Vida", Paz Alícia e Ripstein usavam a TV como o coro das tragédias gregas. Um trio de mariachis falava, de dentro do aparelho de televisão, ora com o público, ora com a protagonista, comentando o desenvolvimento da ação. Aqui, o rádio interfere no relato, criando-se, lá pelas tantas, a insólita situação de o apresentador do rádio conversar com os protagonistas da história, seja ele a vítima ou um de seus assassinos. O que representa o rádio em "La Perdición de los Hombres"? "Representa Deus e isso é outra ironia, claro." Dentro da obra de Ripstein, iniciada nos anos 60, é interessante assinalar como um filme sobre mulheres, como "Así Es la Vida", sucede agora um sobre homens. Por mais importantes que sejam as personagens femininas - e a maneira como as duas mulheres do morto expõem seus conflitos e diferenças -, o universo agora é essencialmente masculino. E ambos os filmes foram escritos pela mesma roteirista, premiada, em San Sebastián por seu trabalho em "La Perdición de los Hombres". "Paz Alícia é uma grande escritora de cinema", define Ripstein, acrescentando que é próprio do artista ser transgênero, o que não tem nada a ver com transsexual. "Ela pode falar perfeitamente sobre homens, como eu posso falar sobre mulheres; o que faz o artista é essa capacidade de penetrar na cabeça de outro, de tentar e conseguir expressar esse outro por meio do suporte com o qual trabalha." Ele conta que o trabalho com a mulher é dos mais tranqüilos. "Definimos o tema, a linha mestra da história, ela vai para o canto dela e escreve o primeiro tratamento do roteiro." Nessa fase do trabalho, Ripstein não interfere em nada. É o momento em que Paz Alícia cria sozinha. A partir desse primeiro roteiro, começa o trabalho conjunto. "Discutimos cada cena, cada frase, cada palavra; faço os reparos que acho necessários, discutimos, avaliamos tudo, estabelecemos o que precisa ser mudado e geralmente há o que ser mudado; Alícia vai para o canto dela, mas aí não trabalha mais sozinha; ficamos em sintonia, embora eu nunca vá ao computador para escrever o que quer que seja no roteiro dela." Não é difícil estabelecer, com Ripstein, as coordenadas que o atraíram nessa história, irônica que seja. Ao longo de sua carreira, ele expressa sempre uma preocupação fundamental, que termina definindo seu estilo. Interessam-lhe as atmosferas sobrecarregadas de opressão, há mesmo muita tortura e violência em seu cinema e tudo isso serve à crítica ou denúncia de um tema central: a intolerância. Ele concorda: "Nós, que vivemos nas economias periféricas, sofremos muito com a intolerância das culturas e economias desenvolvidas e também com a nossa intolerância, que nos leva, como o filme deixa claro, a nos matarmos uns aos outros." Um prêmio como o que "La Condición de los Hombres" recebeu em San Sebastián - a Concha de Ouro - não é só um afago no ego, ele diz. Também pode significar o apoio, no país ou no exterior, para o próximo filme que vai querer fazer. Neste quadro, ele se revela bastante entusiasmado com o digital. "Em economias deprimidas como as nossas, pode ser o elemento definidor sobre a feitura, ou não, de um filme." O baixo custo, a rapidez da filmagem, tudo favorece o digital. ""Así Es la Vida" custou a metade do que teria custado, se fosse feito em película, e "La Perdición de los Hombres" custou ainda menos; menos custo representa mais liberdade de ousar; sou 100% a favor do digital." Não lhe faltam projetos para novos filmes. "Alícia escreve outro, neste momento", ele conta, sem entrar em detalhes sobre o que trata. Prefere falar na direção de teatro. "Rafael BuÏuel, filho do maestro, há tempos tentava me cooptar para dirigir um texto dele para o teatro." Aproveitando uma brecha na sua agenda, ele dirige agora "Amor sin Pelo". Não é sua primeira experiência como diretor teatral. Revela o que o atrai nela: "É a possibilidade de desenvolver trabalhos mais viscerais com atores; um filme pode sobreviver, mesmo que a interpretação não seja muito boa; uma peça depende mais da qualidade da interpretação", ele afirma.

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