Rio homenageia cinema político de Francesco Rosi

Ele já recebeu os grandes prêmios dos três maiores festivais de cinema do mundo: Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim por O Bandido Giuliano (em 1962), Leão de Ouro de melhor filme, no Festival de Veneza, por Le Mani sulla Città (em 1963) e a Palma de Ouro de Cannes, também de melhor filme, por O Caso Mattei (que dividiu o troféu com A Classe Operária Vai ao Paraíso, de Elio Petri, em 1972). Mas o próprio Francesco Rosi considera a homenagem que vai receber no dia 26, no Instituto Politécnico de Turim, uma das mais importantes de sua carreira, a láurea ad honorem em Arquitetura (por Le Mani sulla Città). "É uma honraria excepcional", define. Logo em seguida, Rosi embarca para o Brasil, mais exatamente para o Rio, onde recebe nova homenagem, durante a realização do Festival do Rio BR 2001. A mostra carioca, que começa dia 27 e termina no dia 8 de outubro, vai fazer a retrospectiva completa da carreira de Rosi. O que representa isso para ele? "O reconhecimento de uma vida de trabalho, que muito me honra", diz.Rosi faz questão de responder às perguntas por escrito, via fax. "Não manejo muito bem essas coisas de e-mail", explica. No Rio serão exibidos todos os seus filmes, incluindo aqueles que não foram lançados nos cinemas brasileiros: o citado Le Mani sulla Città, obra fundamental do começo dos anos 60, Uomini Contro, poderoso relato de guerra, de 1970, e Cristo si È Fermato a Eboli, de 1978, que se baseia no romance de Carlo Levi, no qual um homem do Norte faz a descoberta da Itália meridional e estabelece a fraternidade que supera toda diferença. "Um filme, como outros que eu fiz, muito atual", ele define. Os inéditos de Rosi despertam interesse especial, mas a retrospectiva traz seus clásssicos, claro. Quando se fala nos clássicos de Rosi o primeiro título que vem é Salvatore Giuliano, que no Brasil se chamou O Bandido Giuliano, obra que influenciou, por exemplo, O Caso dos Irmãos Naves, do brasileiro Luís Sérgio Person. Mudança - Para responder à reportagem, Rosi cita a enciclopédia francesa Bordas, coordenada por Roger Boussinot, que diz: "Alguma coisa mudou no cinema com O Bandido Giuliano, em 1962." E ele acrescenta: "Continuo dizendo que com aquele filme demonstrei que o estudo rigoroso e metódico de um fenômeno histórico e político-social, como a aventura de um jovem bandido em suas relações com a Máfia e o poder, podia conter, em si mesmo, a própria dramaturgia e que o método do documentário reconstituído ("o cinema documentado") podia ir além da imaginação do ficcionista, no rumo do processo de conhecimento da verdade de um filme, rivalizando, quanto à intensidade emotiva, com a tragédia no seu sentido mais tradicional."Para o diretor, aquela análise correspondia perfeitamente ao método e à estrutura narrativa daquele filme, embora ele a tenha aplicado depois, mesmo que de maneira obviamente diferente, a O Caso Mattei e Lucky Luciano. Em Le Mani sulla Città, em vez de procurar uma verdade o diretor diz que partiu da denúncia de uma verdade da qual estava seguro e que queria revelar ao público. "Queria demonstrar através das intrigas e colisões entre poder político corrupto e poder econômico, e até mesmo das ligações de ambos com o crime, que se pode chegar à realização de um projeto imobiliário que atende só aos interesses de alguns, contra o interesse da coletividade."Essa concepção, que diz respeito à maior parte de seus filmes e atravessa também Uomini Contro, Cristo si È Fermato a Eboli, Os Três Irmãos, Cadáveres Ilustres e Armadilhas do Poder, parte do pressuposto de que é possível envolver o público não apenas do ponto de vista emotivo mas também do racional. "Sempre quis que o público dos meus filmes fosse participante, não um espectador passivo mas alguém que pensa e raciocina, até como forma de recuperar sua condição de cidadão."E ele esclarece, mais ainda: "O fio que liga todos os meus filmes, por mais diversos que sejam, é sempre a ligação do homem com o poder, seja esse econômico, político ou criminal. Mas gostaria que ficasse bem claro que sou um narrador, que conto histórias de homens, aventuras humanas feitas de sentimentos, emoções, esperanças, vitórias e derrotas, também. Não sou jornalista nem sociólogo; sou um narrador. É evidente que posso revelar só uma fatia da realidade, mas o importante é colocar dialeticamente em evidência uma verdade que seja alternativa às verdades oficiais." Como exemplo, cita que só o massacre de Portella della Ginestra, em maio de 1947, que está na base de O Bandido Giuliano, teve 16 versões na tela. Rosi gostaria de acreditar que a dele é a mais documentada e a que menos tenta manipular a emoção do espectador.Filho de um fotógrafo que também era caricaturista nos jornais de Nápoles, Rosi diz que herdou do pai a paixão pelo cinema. Chegou a preparar um ensaio para inscrição no Centro Sperimentale di Cinematografia, a mais importante escola de cinema da Itália, que era uma tentativa de adaptação cinematográfica do romance I Malavoglia, de Giovanni Verga. Esse romance foi a base de inspiração para La Terra Trema, de Luchino Visconti. "E uma série de coincidências me levaram a ser assistente de Visconti naquele grande filme do período neo-realista, todo rodado em ambientes naturais, com atores não profissionais e no qual o roteiro era reescrito dia a dia. Foi uma experiência fundamental para mim. Continuei assistente de Visconti em Belíssima e Sedução da Carne (Senso) e no primeiro trabalhei também como roteirista." Testemunha - Antes de virar diretor, Rosi foi roteirista e, durante dois anos, trabalhou no teatro. Aceitou colaborar com Vittorio Gassman, fazendo a direção técnica de Kean, em 1956. Isso lhe abriu as portas da Lux Film e o aproximou do produtor Franco Cristaldi, com quem fez seu primeiro filme: A Provocação (La Sfida), de 1958. Ele ainda fez Renúncia de um Trapaceiro (I Magliari), no ano seguinte, antes de iniciar, com O Bandido Giuliano, de novo com Cristaldi, sua grande fase. "Queria contar a história da Itália e da Sicília naqueles anos. Sempre me considerei uma testemunha do meu tempo e do meu país." Defende, apaixonadamente, um de seus filmes mais discutidos: A Trégua, adaptado do romance de Primo Levi. "O livro me atraiu não só pela possibilidade de fazer um filme sobre não esquecer os horrores dos campos de extermínio, nos quais morreram 6 milhões de hebreus, mas também porque representa, por parte de quem foi vítima de toda aquela brutalidade, o retorno à vida, ao amor, ao sorriso, a poder pensar o mundo novamente." Defende até a imagem mais polêmica do seu cinema: o nazista de joelhos diante dos judeus que voltam para casa, em A Trégua. Não é nenhuma espécie de concessão, mas uma homenagem a Willy Brandt, o chanceler alemão que se ajoelhou no gueto de Varsóvia, num gesto público de reconhecimento e arrependimento pelos horrores perpetrados por seu povo, sob o nazismo. Não há ressentimento de Rosi diante da atual dominação que Hollywood exerce sobre os mercados de todo o mundo. "Nós, europeus e latinos, não soubemos desfrutar melhor do imenso potencial de público dos nossos países, fomos coniventes com essa ocupação de nossos corações e mentes." Mas ele destaca que se fala, nestes últimos anos, de uma nova primavera do cinema italiano. "Estamos voltando até ao interesse por um tipo de cinema comprometido com temas sociais e coletivos." Grande Rosi. Merece, como poucos, a homenagem que lhe presta o Festival do Rio BR 2001.

Agencia Estado,

10 de setembro de 2001 | 10h23

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