Rio abre temporada brasileira de cinema

Em Cannes, é obrigatória a tenue de soirée. Sem estar vestido de longo ou black-tie, ninguém pisa o tapete vermelho que culmina na montée des marches, a subida de escada mais famosa do cinema no mundo, que dá acesso ao palácio do festival em que são exibidos os concorrentes à Palma de Ouro. Em Hollywood, o tuxedo também é obrigatório. Sem ele, a festa do Oscar não seria a mesma coisa. Amanhã à noite, o Rio elegante e das artes se veste de gala para a inauguração do Festival BR 2001 no Cine Odeon. O filme que inaugura o evento patrocinado pela BR Distribuidora é O Xangô de Baker Street, que Miguel Faria Jr. adaptou do best seller de Jô Soares. Estarão presentes o diretor, o produtor Bruno Stroppiana, os atores e técnicos brasileiros e os atores portugueses que interpretam Sherlock Holmes e Sarah Bernhardt, Joaquim de Almeida e Maria de Medeiros. Logo em seguida, e aí sim o longo e o black-tie são indispensáveis, ocorre a grande festa de abertura do Festival do Rio BR 2001, na lendária Ilha Fiscal que abrigou o último baile do Império.Pompa e circunstância amanhã à noite. E, a partir de sexta-feira, uma imensa maratona para o público, que terá de se desdobrar para ver pelo menos uma parcela, já que tudo é impossível, dos mais de 300 programas que serão exibidos em 31 salas, durante 12 dias. Mais de 40 títulos (exatamente 41) são brasileiros. Dez deles integram a programação da Premire Brasil. Disputam, pelo voto popular, os R$ 310 mil que a BR oferece como prêmio de apoio à comercialização: R$ 200 mil para o melhor longa de ficção, R$ 100 mil para o melhor documentário e R$ 10 mil para o melhor curta. O prêmio em dinheiro torna a disputa mais acirrada. E, como se trata de um prêmio de público, cada filme trata de levar às salas o maior número possível de espectadores.Na entrevista que deu à reportagem, anunciando o festival deste ano, Ilda Santiago - que integra o colegiado de organizadores do evento com Valkíria Barbosa e outros - havia destacado a vocação de esquerda do Festival do Rio BR 2001. Os organizadores não queriam apenas colocar o festival sob o signo da política do ponto de vista da programação. Também haviam selecionado convidados para acentuar esse perfil. O mais destacado seria o diretor italiano Francesco Rosi, homenageado com uma retrospectiva que vai trazer ao Rio a íntegra do seu cinema essencialmente político. Seria - Rosi não vem mais. Numa carta à organização do evento, ele se declarou impossibilitado de abandonar a Itália para vir receber uma homenagem no Brasil, neste momento tão grave em que a América, atingida pelo terror, declara guerra ao mundo ("Ou estão conosco ou estão contra nós").Importantes convidados dos EUA também cancelaram sua vinda ao País, mas Ilda tira o ás da manga e oferece algumas alternativas luminosas. Charlotte Rampling, um mito do começo dos anos 70, em filmes de Luchino Visconti (Os Deuses Malditos) e Liliana Cavani (Porteiro da Noite), vem mostrar o novo François Ozon, acompanhada pelo diretor de Gotas D´Água em Pedras Escaldantes. O filme se chama Sur le Sable e o próprio diretor disse à reportagem que escolheu Charlotte porque precisava de uma atriz sessentona que não fosse apenas talentosa, mas também bela e desejável.Filmes e convidados glamourosos. Não filmes quaisquer. O novo Nanni Moretti (La Stanza del Figlio), vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes deste ano, o novo Eric Rohmer (L´Anglaise et le Duc), o novo filme de Mira Nair (Monsoon Wedding), premiado com o Leão de Ouro em Veneza, o primeiro filme do Dogma dirigido por uma mulher (Italiano para Principiantes, de Lone Scherfig), o filme de Jean-Paul Jeunet que faz sensação na França (Amélie), o do espanhol Alejandro Amenábar que Tom Cruise produziu para sua ex-mulher, Nicole Kidman (Os Outros) e um belo David Lynch, que concorreu em Cannes há dois anos e parecia condenado ao ineditismo no País (História Real). São apenas algumas das atrações internacionais do Festival do Rio BR 2001.E existem todas aquelas mostras paralelas que fazem a graça do evento para as diversas tribos que compõem seu público diversificado e eclético. Geração Futura, Midnight Movies, Bonequinho Viu, Mostra Gay. Há filmes de todos os gêneros e estilos, para todos os gostos. Além da retrospectiva dos filmes de Francesco Rosi, haverá outra para comemorar os 40 anos da L.C. Barreto, a empresa de Lucy Barreto e Luiz Carlos Barreto, com a exibição de obras como Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Bruno Barreto, a versão restaurada, com mais cenas de sexo, e o clássico Memórias do Cárcere, que Nelson Pereira dos Santos adaptou de Graciliano Ramos, autor que já lhe fornecera a inspiração para outra obra marcante (Vidas Secas).Mais para o fim do festival, no segundo fim de semana, ocorrerá o lançamento da versão restaurada de um dos grandes clássicos desconhecidos do cinema brasileiro. Tudo Azul, com o sensacional número de Marlene cantando Lata D´Água na Cabeça, vai recolocar no mapa do cinema brasileiro o nome de Moacir Fenelon, devolvendo-lhe a posição de honra que merece e que só críticos renitentes ou mal informados se atrevem a contestar. E haverá toda uma programação de workshops, seminários e debates, pois o festival não é feito só de mundanismo ou bons filmes, mas também de discussões sérias sobre os rumos do audiovisual no Brasil e no mundo.Não é exatamente o festival que Ilda e Valkíria haviam desenhado. A realidade interferiu no cinema. Adaptações e arranjos tiveram de ser feitos. O festival está na rua. O show tem de continuar. O Festival do Rio BR 2001 coloca a Cidade Maravilhosa no mapa do cinema mundial. Logo virá a Mostra Internacional de Cinema São Paulo. A alta temporada do cinema está começando no País. De amanhã a 8 de outubro, o Rio vira a grande vitrine das novas tendências do cinema em todo o mundo.

Agencia Estado,

26 de setembro de 2001 | 20h05

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