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'Rio 2' chega às telas falando de música, diversidade e Copa do Mundo

Animação de Carlos Saldanha tenta repetir, a partir do dia 27, sucesso do primeiro filme

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

23 de março de 2014 | 03h00

Fazer uma animação pode ser complicado, além de caro. Embora os números quase sempre sejam sigilosos para as empresas produtoras, o que se comenta, extraoficialmente, é que são produções na faixa da centena de milhões de dólares. O prazo médio é de três anos. Em compensação, as decisões muitas vezes são rápidas - rapidíssimas. Rio, de Carlos Saldanha, o primeiro, estourou nos cinemas de todo o mundo tão logo foi lançado, em 2011. Em cerca de um mês, a Fox e a empresa produtora Blue Sky já haviam decidido que haveria o 2. O filme estreia na próxima quinta, dia 27, em cópias 2D e 3D. Inicia uma sucessão de lançamentos nos dois formatos.

Na semana seguinte, dia 3 de abril, estará entrando Noé, de Darren Aronofsky, que trouxe ao Brasil, esta semana, o astro Russell Crowe. A Paramount estima um megalançamento de mais de 900 salas para Noé. A questão é - quando salas em 3D, que recém terão começado a exibir Rio 2, estarão disponíveis? Para complicar, no dia 10, entra Capitão América 2 - Soldado Invernal, também nos dois formatos. Os distribuidores queixam-se. O Brasil dispõe de poucas salas 3D. Vai haver uma briga de foice das superproduções de Hollywood, que já têm a preferência no mercado brasileiro.

Na segunda passada, houve a coletiva de lançamento de Rio 2. Onde? No Rio, claro. A Fox conseguiu que o Parque Lage cedesse seu imponente cenário - o prédio e as matas ao redor - para abrigar o evento. Na casa do parque, Glauber Rocha rodou uma cena importante de Terra em Transe. Na piscina, em seu interior, Joaquim Pedro de Andrade localizou a feijoada gigantesca de Macunaíma. A Fox armou uma tenda junto à mata para aproximar os jornalistas do habitat de Rio 2. No segundo episódio das aventuras de Blu e Jade, a ação começa na orla carioca, no tradicional réveillon que lota Copacabana. Não demora muito - na cena seguinte - e a ação desloca-se para a Amazônia, onde o ornitólogo Túlio descobre que Blu não é o último de sua espécie, mas que existe toda uma reserva de araras azuis.

Carlos Saldanha reconhece que Rio 2 é mais infantil do que o primeiro, mas não houve nenhuma pressão para isso. Foi uma opção dele fazer um filme mais simples e direto para os pequeninos. O réveillon como grande explosão carioca meio que predispõe o público a entrar num universo de magia. 

Muitos críticos reclamaram que se trata de obra de propaganda, ‘encomendada’ para vender a sede (uma das) da Copa do Mundo e, depois, em 2016, da Olimpíada. Saldanha ama o Rio. Nega que o Rio que cria em seus filmes seja uma utopia maravilhosa. A cidade está mais para Alemão, o longa de José Eduardo Belmonte, do que para esse paraíso idílico. Mas ele faz a ressalva - “O objetivo nunca foi fazer um documentário. Estou trabalhando no registro de fantasia, mas duvido que possam me acusar de falsificação. O Rio é essa cidade maravilhosa.”

Do Rio, portanto, a trama salta para a Amazônia, mas para chegar lá é preciso atravessar o Brasil. Presentes à coletiva estavam os compositores Sérgio Mendes e Carlinhos Brown, e o ator Rodrigo Santoro, que dubla Túlio, o ornitólogo. Carlinhos dá a sua definição de Rio 2. “O filme, ao atravessar o Brasil, viaja na nossa diversidade. Ela não é apenas de paisagens, de tipos humanos e de arquitetura. É também musical.” Na Amazônia, o filme encontra outro de seus temas - o desmatamento. Há um vilão que está destruindo a rain forest, e numa cena a destruição ameaça substituir a exuberância verde por um deserto vermelho. As máquinas, a destruição da vida e a árvore na qual, em protesto, se alojam os pássaros - tudo isso remete diretamente a Avatar, de James Cameron. Avatar? “Nunca foi uma referência”, avaliza Saldanha. “Está nos seus olhos, nos olhos de quem vê.”

Assim como ‘vende’ o Rio, o filme ‘vende’ a Copa. Apesar dos protestos contra o Mundial, o brasileiro ama futebol. Blu ensaia peladas com os filhos e, no reduto das araras, há uma rivalidade inclusive esportiva - metade da reserva é de araras azuis e a outra metade, de vermelhas. A rivalidade, como um mando de jogo, se transfere não propriamente para o gramado, mas para os ares, quando as aves disputam uma partida decisiva. Réveillon da areia, futebol e, no desfecho, carnaval - um carnaval amazônico. Se o objetivo era, e é, refletir a diversidade brasileira, a narrativa de Rio 2, estruturando-se sobre esse tripé, certamente leva muito a sério a proposição.

Tudo em Rio, o primeiro, virou superlativo - 70 milhões de espectadores em todo o mundo, quase US$ 500 milhões (exatamente US$ 486 milhões) de bilheteria. Não admira que a decisão de produzir o 2 tenha sido tão rápida. E Saldanha conseguiu levar artistas e técnicos brasileiros para a equipe. “São cinco, além da parte musical e do Rodrigo. Essa contribuição brasileira ressalta a universalidade dos filmes. Estamos falando de família, de valores e, no caso do 2, da própria preservação ambiental. Tudo isso é muito valioso.” Mas ele tem de ouvir a reclamação do repórter - cadê o buldogue? Ele aparece um pouquinho no começo e no fim. “Você gosta? É um dos meus personagens preferidos, também. Tentei espichar sua participação na história, contando como ele conseguiu chegar à Amazônia. Os pássaros foram voando, e ele? Só que a explicação ficou comprida e produzia uma quebra na história.”

Ainda não existe decisão nenhuma sobre um terceiro Rio, mas Saldanha promete pensar com carinho no aumento da participação do buldogue. Rodrigo Santoro integrou a coletiva, realizada por volta das 2 da tarde. De madrugada, havia chegado do Chile, onde, até o dia anterior, participava no deserto do Atacama da filmagem de Os 33, sobre o episódio do resgate dos mineiros chilenos soterrados numa mina no deserto. Santoro ama seu personagem - “Ele tem uma pureza, uma inocência que me encanta. Um cara que acredita que pode falar com os pássaros... Para mim, a integridade dele encerra uma lição nesse mundo em que vivemos.” 

E Saldanha, o que tem a dizer sobre a técnica, o 3D? “Ela é uma ferramenta, não é o mais importante. Por isso mesmo, procuramos não exagerar, para que o público a toda hora ficasse se admirando e perguntando - ‘Oh como fizeram isso?’ O que importa é a história, e eu acredito na história de Rio 2.” É seu terceiro filme com Rodrigo Santoro. Além dos dois Rio, eles fizeram o episódio de Rio Eu Te Amo. Saldanha, cada vez mais respeitado como animador, sempre quis fazer uma live action. A experiência valeu - “Como técnica, é diferente, mas em termos de criatividade o desafio é o mesmo. É sempre contar bem a história que nos atrai”, acrescenta o diretor.

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