Riccardo Gallini/GRPhoto, via Comune di Rimini via The New York Times
Riccardo Gallini/GRPhoto, via Comune di Rimini via The New York Times

Rimini, na Itália, ganha um museu que faz jus a Fellini

Inaugurado recentemente, espaço homenageia um dos diretores mais famosos da Itália. Mas, para alguns cidadãos, coloca o turismo acima das necessidades locais

Elisabetta Povoledo, The New York Times

02 de setembro de 2021 | 15h00


RIMINI, ITÁLIA - Federico Fellini faz parte de um seleto grupo de diretores de cinema que foi consagrado como um adjetivo pelo dicionário inglês Oxford: “Felliniesque” (algo como felinesco ou feliniano), que é definido como “fantástico, bizarro, suntuoso, extravagante”.

Essa descrição poderia facilmente ser usada para o Museu Fellini, que foi inaugurado na cidade costeira italiana de Rimini - lugar onde nasceu o diretor - no fim de agosto: um projeto multimídia que conduz os visitantes pelo universo cinematográfico idiossincrático de Fellini.

O museu por vezes parece fantástico (páginas do chamado Livro dos Sonhos, que tem desenhos e reflexões de Fellini sobre seus devaneios noturnos, podem ser vistos em uma parede quando os visitantes sopram uma pena); suntuoso (exibe o figurino excêntrico do desfile de moda eclesiástica de seu filme Roma de 1972); e bizarro (o que dizer de uma gigantesca escultura de pelúcia da atriz Anita Ekberg, na qual os visitantes podem se apoiar para assistir a cenas de La Dolce Vita?).

“Queríamos um museu que fosse além dos recursos primários exibidos em vitrines e permitisse ao visitante se transformar em um espectador engajado”, disse Marco Bertozzi, professor de cinema da Universidade Iuav de Veneza, que fez a curadoria do museu junto com a historiadora de arte Anna Villari .



O museu ocupa dois edifícios históricos, com uma grande praça entre eles e, de fato, reconfigurou uma parte significativa do centro de Rimini.

“É uma operação que mudou a cara da cidade”, disse Marco Leonetti, um dos funcionários municipais que supervisionou o projeto. Além dos prédios do museu, a mesma praça conta com um teatro bombardeado e destruído durante a Segunda Guerra Mundial, agora meticulosamente reconstruído e reaberto em 2018, assim como um edifício medieval restaurado que foi transformado em um museu de arte contemporânea e inaugurado há um ano.

“Aos poucos, estamos reconstruindo a memória da nossa cidade”, disse Francesca Minak, arqueóloga e responsável pela promoção do turismo da cidade.

As autoridades de Rimini esperam que o museu atraia tanto os fãs de longa data de Fellini como aqueles que eram jovens demais para ver os filmes do diretor nos cinemas. Elas esperam que o último grupo se divirta com as instalações e telas interativas (atualmente em modo automático por causa da pandemia) que oferecem perspectivas da rica imaginação de Fellini.



“O museu funciona como uma espécie de máquina do tempo”, disse Leonardo Sangiorgi, um dos fundadores do coletivo de arte Studio Azzurro, com sede em Milão, responsável pelas exibições multimídia do museu, permitindo aos espectadores saborear os detalhes e as nuances dos filmes de Fellini.

No Castel Sismondo, um castelo da época do Renascimento que é um dos edifícios do museu, as instalações que apresentam as pessoas com quem o diretor trabalhou e os lugares que ele capturou em celuloide fazem os visitantes mergulharem de cabeça na "Fellinilândia".

Uma das primeiras salas é dedicada à esposa de Fellini, Giulietta Masina, que protagonizou A estrada da vida (1956) e Noites de Cabíria (1957), filmes que ganharam consecutivamente o Oscar de melhor filme estrangeiro e trouxeram Fellini para o centro dos holofotes internacionais.

Ele ganhou outros dois Oscars nessa categoria, por Oito e meio (1963) e Amarcord (1974), e Giulietta foi a única pessoa a quem o diretor agradeceu nominalmente em seu discurso de aceitação pelo Oscar Honorário de 1993 “em reconhecimento ao seu lugar como um dos mestres contadores de histórias da telona”. Fellini morreu sete meses depois, em 31 de outubro.

Há painéis interativos, algumas memorabilia, incluindo páginas de partituras do parceiro de Fellini, Nino Rota, e uma reconstituição da biblioteca do diretor (com livros de Georges Simenon e Kafka, mas também As Aventuras de Pinóquio de Collodi). Há fotos em abundância e muitos clipes de seus filmes, conseguidos após longas negociações com os detentores dos direitos autorais. Se você tiver tempo e paciência, deve levar em torno de seis horas para ver todos eles, disse Bertozzi.

O segundo local de exposição fica em um palácio do século 18 cujo térreo é ocupado pelo Cinema Fulgor, onde Fellini descobriu o cinema em sua juventude, disse Leonetti, e depois imortalizou em Amarcord, a montagem de amadurecimento de Fellini da era fascista de Rimini. (Em uma entrevista no documentário Fellini - Eu Sou um Grande Mentiroso, o diretor disse que a Rimini que ele tinha “reconstruído completamente” em Amarcord “pertence mais à minha vida do que a outra, topograficamente correta, Rimini.”)

O diretor também se envolveu em polêmicas. Quando La Dolce Vita chegou às telonas em 1960, causou um escândalo nacional, inclusive um debate parlamentar e a reação contundente do jornal oficial do Vaticano, o Osservatore Romano, que chamou o filme de "repugnante". (Os tempos mudaram. Este mês, o Osservatore Romano publicou uma resenha cheia de elogios a respeito do museu.)

Mas a reformulação da Praça Malatesta para a inauguração do museu provocou desprezo semelhante por parte de grupos de proteção do patrimônio.



“Eles transformaram a praça em algo destinado a atrair turistas, sem pensar nos moradores da cidade”, disse Guido Bartolucci, presidente da representação local da organização sem fins lucrativos dedicada à proteção e promoção do patrimônio do país, Italia Nostra.

A praça agora inclui um grande banco circular, destinado a trazer à lembrança o lugar mostrado na cena final de Oito e Meio, com banquinhos giratórios no meio para as crianças girarem neles. Há também uma estátua em tamanho real do rinoceronte de E la nave va (1983); as autoridades municipais tiveram que colocar uma placa com “Não monte” ao lado, para impedir que as pessoas subissem no animal.

Mas o elemento que mais irritou alguns moradores foi uma enorme fonte que espirra uma névoa a cada meia hora, evocando a bruma da Rimini mostrada em alguns dos filmes de Fellini.

Bartolucci disse que a fonte viola as rígidas leis de patrimônio da Itália, porque prejudica resquícios históricos no subsolo de Rimini. Segundo ele, as autoridades poderiam ter reconstruído outra parte da cidade, mas a decisão de transformar a praça foi tomada com pouco debate ou participação dos moradores.

A Italia Nostra tinha proposto transformar o Castel Sismondo em um museu para exibir a história oculta de Rimini, de seu passado romano ao apogeu no Renascimento, de uma forma que nutrisse "um senso de comunidade" para os moradores, disse Bartolucci. “Em vez disso, o Museu Fellini invalidou o nome do castelo”, disse ele.

Leonetti disse que "colocar armaduras em salas não é a única maneira de fazer um castelo ser valorizado" e acrescentou que a nova praça substituiu um estacionamento e um pequeno mercado. Nas poucas semanas desde que foi aberto ao público, o museu “tornou-se um lugar onde as pessoas se reúnem”, afirmou.

Em uma manhã quente da semana passada, várias crianças brincavam alegremente na fonte, enquanto seus pais as observavam. “Se as crianças gostam, então nós acertamos”, disse Leonetti. (TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA)


 

5 X FELLINI - O CINEASTA EM 5 FILMES 

 

 

 

A Doce Vida (La Dolce Vita), 1959

Durante sete dias e sete noites acompanhamos a trajetória do jornalista de celebridades Marcello Rubini (Marcello Mastroianni). Rubini deseja escrever um romance, mas a vida mundana ocupa todo seu tempo e consome sua energia. O filme é um mosaico de episódios, prefaciado pela sequência genial em que um helicóptero sobrevoa Roma carregando uma estátua de Cristo pendurada por um cabo. Metáfora sobreposta da Roma católica sobre a Roma pagã, também prefigura a vocação transformadora dos anos 1960, que se anunciam, e nos quais tradição e modernidade deverão se enfrentar. Algumas cenas entraram para a história do cinema, como a de Anita Ekberg e Mastroianni na Fontana di Trevi e a do encontro de um grupo de boêmios com um monstro marinho na ressaca de um réveillon.  

 

 

81/2, 1963

Numa pirueta metafísica, Fellini tira do bloqueio criativo sua obra mais imaginativa. Guido Anselmi (Marcello Mastroianni) é o diretor de cinema que tenta em vão realizar um filme de ficção científica. Ao enfrentar sua crise, Guido evoca a infância, a relação com os pais, a educação católica e repressiva, a Igreja, o produtor ditatorial, a esposa, a amante, a crítica, as atrizes voluntariosas, para, desse mosaico caótico, extrair clareza e redenção. É o que exprime sua sequência mais famosa, a ciranda circense em que todos os personagens contraditórios se dão as mãos e se conciliam ao som da música circense de Nino Rota. Pelo menos na vida de fantasia pode ser assim. 

 


 

Satyricon, 1969

Genial recriação da Roma do século I d.C., tirada do romance de Petrônio. Na história, Encolpio (Martin Potter) e Ascilto (Hiram Keller) disputam o amor do efebo Gitão (Max Born) enquanto se metem em aventuras pelo império, àquela altura sob direção do alucinado imperador Nero. Do texto de Petrônio restaram apenas fragmentos e Fellini, à maneira de um arqueólogo, tenta reconstruir um mundo a partir dessas ruínas. Mundo perdido, cujos vazios são preenchidos pela fértil imaginação do cineasta. O filme tem a beleza de uma pintura mural de Pompéia. 

 


 

Amarcord, 1973

Talvez o filme mais popular e amado de Fellini é, também, o mais autobiográfico do autor. Titta (Bruno Zanin) é um adolescente que cresce na Itália fascista dos anos 1930. A relação com o pai e a mãe, a iniciação sexual, a repressão dos costumes e o desafio ao Duce compõem esse ambiente de fatos vividos e também inventados. Mescla de ternura, drama e humor, Amarcord (Eu me recordo, no dialeto de Rimini) tem algumas cenas antológicas, como o encontro do menino como a tabacalera de seios fartos (Maria Antonietta Beluzzi), o casamento da Gradisca (Magali Noël) e o tio louco (Ciccio Ingrassia) montado numa árvore e gritando para que lhe tragam uma mulher. 

 

 

E la Nave Va, 1983

Um grupo de passageiros do mundo da música embarca em um navio para espargir no mar as cinzas de uma cantora de ópera há pouco falecida. Ápice do engenho de Fellini de criar um mundo inteiro no interior de um estúdio de Cinecittà, E la Nave Va retorna a 1914, ano do início da 1ª Guerra Mundial. Com a civilização europeia à beira do abismo, naquele transatlântico celebra-se a arte e a memória da grande cantora. Mas os vícios e as contradições entre os personagens também emergem. E os ecos inquietantes do mundo exterior chegam com náufragos perseguidos por um navio de guerra - prefiguração dos imigrantes que hoje buscam na Europa a sua salvação. Nos momentos finais, Fellini filma a si mesmo e expõe todo o mecanismo do estúdio. Como se dissesse aos espectadores: nas últimas duas horas vocês riram e se emocionaram, e era tudo fantasia e invenção. Mas também era tudo verdade. E assim é a arte.


por  Luiz Zanin Oricchio

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