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Ridley Scott fala da força do roteiro de ‘O Conselheiro do Crime’, feito por Cormac McCarthy

Este é o primeiro texto do autor, que insirou 'Onde os Fracos não Têm Vez', para o cinema

Elaine Guerini - Especial para o Estado / Londres, O Estado de S. Paulo

30 de outubro de 2013 | 20h06

Ao ler o roteiro de O Conselheiro do Crime, assinado por Cormac McCarthy, o cineasta Ridley Scott foi tomado pela “sensação de tragédia anunciada” que a trama evoca ao apresentar seus cinco personagens principais. “Após as primeiras páginas, sabemos que um vulcão entrará em erupção a qualquer momento, arrastando vidas com a sua lava. Só nos resta saber quem será a primeira vítima”, disse o diretor inglês de 75 anos, um admirador da “narrativa viril, hipnotizante e sem rodeios” de McCarthy.

Esse é o primeiro roteiro que o autor, um dos grandes nomes da literatura contemporânea norte-americana, escreveu diretamente para o cinema. Alguns de seus livros já foram levados às telas, como Todos os Belos Cavalos (1992), que inspirou o filme Espírito Selvagem (2000) dirigido por Billy Bob Thornton, Onde os Velhos não Têm Vez (2005), transformado pelos irmãos Joel e Ethan Coen em Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), e A Estrada (2006), que rendeu o homônimo filme de ficção científica assinado por John Hillcoat em 2009. “McCarthy tem o dom de descrever como a vida pode ser impiedosa para alguns, sem se desculpar pelo uso da violência, quando ela explode na nossa cara.”

Em cartaz nos cinemas brasileiros, O Conselheiro do Crime mostra o que acontece quando um advogado seduzido pelo sonho de riqueza instantânea (Michael Fassbender) se envolve com o cartel de drogas no Texas, sem ter a menor ideia das consequências de seu ato. Dois homens infiltrados no mundo do narcotráfico – um dono de boate vivido por Javier Bardem e o caubói interpretado por Brad Pitt –, tentam alertá-lo dos riscos nas operações do gênero. Mas a sua prepotência o impede de desistir, principalmente depois que o advogado desembolsa uma fortuna num diamante para a noiva (Penélope Cruz). Cameron Diaz completa o elenco principal, no papel da traiçoeira namorada de Bardem.

A perspicácia, o humor negro e os diálogos ágeis, qualidades recorrentes na obra de McCarthy, criam aqui um mosaico perturbador do submundo do tráfico. “Por mais extravagantes que pareçam os assassinatos do filme, eles são fiéis à situação no Novo México”, afirmou Scott, lembrando que na região são registradas, por ano, 3 mil mortes ligadas ao cartel de drogas. “Por McCarthy ter conhecimento total do universo que retrata, nós quase sentimos a respiração e o cheiro dos personagens descritos tão vividamente.”

Ao abraçar o roteiro de McCarthy, autor premiado com o National Book Award, o National Book Critics Circle Award e o Pulitzer de 2007, o cineasta preferiu não questionar a obra. “Pela força bruta do material, deixei McCarthy ser o meu mestre. Segui o roteiro como se eu fosse um músico executando uma partitura”, disse Scott, que pegou o primeiro avião para Albuquerque (Novo México), onde McCarthy reside, assim que leu o roteiro de O Conselheiro do Crime. “McCarthy é um homem brilhante, que só usa calça jeans e botas de caubói.”

Assim que as filmagens foram iniciadas, Scott pensou que receberia a visita do roteirista no set uma ou duas vezes. “Não imaginava que ele interferiria constantemente durante todo o processo”, contou o diretor, rindo. Mas Scott não se incomodou com a participação ativa do escritor. “Quando ele tinha uma opinião sobre uma cena, um diálogo ou um personagem, eu sempre o ouvia.”

Scott já começou a rodar o seu próximo longa, a adaptação do livro Êxodo, da Bíblia, que promete ser o título mais ambicioso de sua carreira. “Serão 15 semanas de filmagem nas quais precisarei colocar tudo o que aprendi até hoje nas massivas cenas de batalhas.”

Com a experiência adquirida ao longo de 35 anos atrás das câmeras, Scott sabe exatamente o que quer no set. “Não sei se estou necessariamente melhorando como diretor. Mas tenho uma visão mais clara do que preciso fazer e consigo farejar os problemas de longe, eliminando-os.” Com mais de 20 longas na bagagem, ele não consegue parar de filmar, sempre engatando um projeto em outro. “O tubarão que se atreve a parar de nadar morre afogado”, brincou.

Violência do roteiro seduziu e assustou Penélope Cruz

Penélope Cruz descobriu a obra de Cormac McCarthy há 13 anos, quando foi convidada por Billy Bob Thornton para filmar Espírito Selvagem, a versão cinematográfica do livro Todos os Belos Cavalos (1992), um dos primeiros sucessos do escritor. “Aqui a história não foi traduzida nas telas com a mesma violência impressa no romance”, contou a atriz de 39 anos.

Já o roteiro de O Conselheiro do Crime, do mesmo autor, deixou a espanhola insegura, por conta da crueldade e do horror que cercam as mortes retratadas no filme. Por pouco, ela não recusou o papel da mulher que passa a ser caçada pelo cartel de drogas devido à imprudência do noivo (Michael Fassbender). “Acabei aceitando pela violência aqui ter um significado e por incomodar a plateia. Ainda que os personagens do filme pareçam ter vidas invejáveis, ninguém sairá do cinema querendo ser um deles. Há muita escuridão em suas vidas luxuosas.”

Este é o primeiro filme estrelado por Penélope e pelo marido, Javier Bardem, desde Vicky Cristina Barcelona (2008) – a dupla iniciou um romance nas filmagens do drama com Woody Allen. “Mas não temos qualquer cena juntos em O Conselheiro do Crime, o que é irônico”, disse ela.

A maioria das sequências rodadas por Penélope foi ao lado de Fassbender, incluindo cenas de cama realistas e ousadas para o padrão de Hollywood. Logo na abertura do filme, com a câmera embaixo dos lençóis, o advogado faz sexo oral na namorada. “Ridley (Scott) pediu que Michael e eu nos encontrássemos muitas vezes antes do início das filmagens para que ficássemos muito à vontade um com o outro. Isso foi importante pela intensidade da relação de nossos personagens.”

A cena de sexo, no entanto, não deixou Penélope tão nervosa quanto a do pedido de casamento – quando Fassbender põe um anel de diamante no seu dedo, num restaurante. “Esse momento já foi visto à exaustão no cinema, com muitos deles soando falsos. Nós buscamos frescor e realismo, já que ninguém aguenta mais aqueles pedidos de casamentos extravagantes nas telas.”

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