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Ridley homenageia irmão Tony e filma o capital como horror

Num universo de homens, Cameron Diaz domina o filme, em mais de um sentido

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

30 de outubro de 2013 | 20h33

Alguns temas do novo filme de Ridley Scott já estavam em Prometheus e, na verdade, têm estado presentes na obra do diretor – dilemas morais, a cobiça, a morte. A novidade não é essa. É difícil saber até que ponto o suicídio de seu irmão Tony afetou o projeto. Ridley iniciou a filmagem de O Conselheiro do Crime em julho do ano passado, e a produção foi interrompida pela morte de Tony, em agosto. Ridley parou quase um mês. Teve tempo para pensar, reavaliar – o quê?

Tony precisou morrer para que mesmo o Cahiers du Cinéma, a Bíblia do cinema de autor, o reconhecesse como pequeno mestre de ação. Pequeno? Não se a referência for Chamas da Vingança, com Denzel Washington como guarda-costas que caça os sequestradores de menina e descobre que o próprio pai está implicado, numa trama que envolve o submundo da Cidade do México. O Conselheiro do Crime tem temas de Ridley Scott – e do escritor Cormac McCarthy, em sua estreia como roteirista –, com cara de um filme de Tony, justamente o melhor, Chamas da Vingança. É o filme em que Tony se inspirou no visual de Cidade de Deus e chamou o próprio César Charlone, fotógrafo de Fernando Meirelles, para operar a câmera.

Como toda literatura de Cormac McCarthy, O Conselheiro adota o tom de uma discussão moral sobre acontecimentos que escapam ao controle e desencadeiam uma corrida para a morte, sem retorno. O conselheiro, Michael Fassbender, entra no negócio da droga, apesar de repetidas advertências de que a barra é pesada. Neófito no ramo, não consegue evitar o pior. Há um acidente de percurso – a ganância de outro – e o mecanismo trágico é desencadeado de forma irreversível.

Pode ser que, pela personalidade do diretor, pelo elenco, o público seja atraído a ver O Conselheiro do Crime como um thriller de ação. É outra coisa. Cinema falado, documentado. Como agem os cartéis, como existe toda uma engrenagem – os operários do crime – que age metodicamente. As cenas em que a raia miúda prepara o caminhão e depois o limpa, após a explosão de violência na estrada, possuem uma crueza que não fecha com o refinamento estético associado a Ridley. O visual ‘sujo’ e a vulgaridade luxuosa da casa de Javier Bardem e Cameron Diaz apontam para o tema do filme.

No mundo atual, o crime e as finanças possuem conexões. Neste sentido, a linha da história importa menos que o diálogo. Os personagens falam de diamantes, de ganância, das diferenças entre homens e mulheres. Isso é o que vale, mas não literalmente (às vezes). Num universo de homens, Cameron Diaz domina o filme, em mais de um sentido. Representa a beleza da predadora que age como os felinos de Javier Bardem. Algumas coisas são só faladas, outras são mostradas. E tudo tem a ver com o dinheiro, que nunca dorme. O Conselheiro do Crime é apocalíptico. Um filme de horror sobre o capital.

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