Richie Andrusco relembra como foi fazer 'O Pequeno Fugitivo'

Filme marcou a história do cinema

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

26 Setembro 2014 | 03h00

Richie Andrusco mora numa cidadezinha do Oregon e foi de lá que conversou com o repórter pelo telefone. Richie quem? Há duas imagens de Andrusco, separadas por mais de 60 anos. A primeira pertence a O Pequeno Fugitivo, filme de Ray Ashley, Morris Engel e Ruth Orkin, de 1953, que teve considerável impacto sobre a nouvelle vague francesa e, em especial, sobre o jovem François Truffaut, e a segunda retrata o aposentado Andrusco, avô, um simpático velhinho de sua comunidade. Com emoção, ele lembrou como, ainda garotinho - 6 para 7 anos -, fez um filme que marcou a história. O Pequeno Fugitivo está de volta ao cartaz. De poucos filmes, como esse, pode-se dizer que são imperdíveis. 

Como O Pequeno Fugitivo ocorreu em suas vida?

Da forma mais casual possível. Eu era um garoto comum, como qualquer outro de minha idade, e vivia atrás de meu irmão que era um pouco mais velho. Ray, Morris e Ruth já tinham o projeto do filme e buscavam o protagonista. Tinham um olheiro que buscava garotos por eles. Acho que ele estava mais interessado em meu irmão. Havia nos visto em Coney Island, Foi à minha casa, falou com minha mãe. Disse que buscava atores para um filme. O cinema era uma coisa distante em nossa vida. Por ingenuidade ou o que, minha mãe me perguntou quanto teríamos de pagar. Quando ele disse que não, nós receberíamos, ela topou imediatamente. A vida era dura naquela época, com crianças para criar e não era o caso de desperdiçar a oportunidade de ganhar um dinheiro.

E como foi fazer o filme?

Não era nada parecido com o que a gente imaginava que fosse o cinema. Em 1953, a televisão começava a fazer parte da vida da gente e havia muitos programas sobre o glamour de Hollywood. O filme era uma produção pequena, independente, e procurava captar a vida como ela é, filtrada pelos olhos de uma criança. Os diretores podiam saber o que estavam fazendo, mas para mim era uma brincadeira. Levavam-me todo dia para Coney Island e lá íamos improvisando as cenas. Quase não havia diálogos. Me diziam faz isso, faz aquilo e eu seguia as indicações. Até onde me lembro, o mais difícil foi a cena em que tinha de chorar. Ficava mais bravo que chorão, mas eles me contaram uma história triste, nem lembro qual foi, e terminei chorando.

Foi preciso repetir muito as cenas em que você recolhe as garrafas na praia?

Embora já conhecesse Coney Island não sabia que recolher garrafas vazias podia valer um dinheiro. Algumas daquelas cenas eram trucadas, porque as pessoas sabiam que eu pegava garrafas para um filme, mas na maioria dos casos a câmera estava oculta e eu ficava ali me movimentando entre pessoas que não sabiam de nada.

Visto hoje, o filme parece um extraordinário documentário sobre os EUA e a família norte-americana nos anos 1950. Concorda?

Sem dúvida. Mesmo a questão racial aparece de forma muito sutil. Mas eu não sabia nada disso na época. Tive apenas uma experiência depois, participando de um programa de Bob Hope na TV, mas o cinema saiu da minha vida como entrou. Segui só como espectador. Em minha família, ninguém mais comentava o assunto. Ficou como uma excentricidade. Formei minha família. Criei meus filhos, tive netos. No ano passado, houve uma programação para comemorar os 60 anos de The Little Fugitive no MoMa, em Nova York. Para minha família, que me acompanhou, foi uma surpresa descobrir que havia um culto ao filme e ao garotinho que continuo sendo na tela.

O filme foi decisivo para um movimento que surgiu na Europa, a nouvelle vague. Sabia disso?

Foi o que se discutiu na comemoração do MoMa, mas, de certa forma, já sabia disso. Volta e meia pesquisava na internet e me surpreendia ao ver como o filme era bem considerado. Isso me faz sentir um astro.

Mais conteúdo sobre:
Richie Andrusco O Pequeno Fugitivo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.