Riccelli inicia novo filme como diretor

Embora seja o astro do novo filme do agora acadêmico Nelson Pereira dos Santos, Carlos Alberto Riccelli dificilmente poderá prestigiar, com sua presença, a pré-estréia de Brasília 18%, que ocorre hoje à noite no Unibanco Arteplex. O filme estréia na sexta, dia 21, e Riccelli já fez sua parte, dando, na semana passada, algumas entrevistas para promover o novo trabalho do diretor que fez a ponte entre o cinema nacional e a Academia Brasileira de Letras, ao ser eleito para uma cadeira cujo patrono é ninguém menos do que Castro Alves, cuja biografia Nelson, há anos, tenta realizar. A ausência do ator, nesta noite, não se deverá a possíveis divergências com o ´mestre´ (é assim que Riccelli se refere ao grande cineasta de Vidas Secas e Memórias do Cárcere). É que Riccelli, desde domingo, está rodando seu segundo longa. Com o sugestivo título de Sob o Signo da Cidade, o filme, que tem roteiro da mulher de Riccelli, a atriz Bruna Lombardi, conta as histórias de diversos personagens urbanos cujas vidas se cruzam em torno da figura de uma vidente. Bruna não tem a pretensão de ter criado um Nashville, nem um Cenas da Vida, mas, a exemplo de Robert Altman, escreveu um roteiro polifônico para que Riccelli solte a câmera entre vários personagens de diferentes classes sociais. O resultado é que São Paulo, filmada preferencialmente à noite, será a grande estrela do filme, mesmo que o elenco tenha Bruna, na pele da vidente, e ofereça um papel importante a Eva Wilma, figura marcante do teatro, cinema e TV, que tem seu nome ligado a clássicos como Cidade Ameaçada, de Roberto Farias, e São Paulo S/A, de Luiz Sérgio Person, nos quais, no segundo, principalmente, a metrópole paulistana é personagem decisiva. Riccelli e Bruna captaram durante três anos para fazer este filme. É uma produção de baixo orçamento - "Só fazemos filmes baratos" ele explica -, mas conseguiram dinheiro só para colocar Sob o Signo da Cidade na lata. Sabem que será outra batalha levantar a verba para a finalização, mas estão otimistas. "A história poderia ser sombria, para baixo, mas a Bruna tem muito humor e alto astral", observa Riccelli, que não se importa de virar o diretor oficial dos roteiros da mulher. Seu primeiro longa, exibido na Mostra Internacional de Cinema do ano passado, foi uma comédia filmada em Los Angeles - onde Bruna e ele possuem uma casa, revezando-se entre a Califórnia e São Paulo. SOS - Stress, Orgasm and Satisfaction é irregular, mas tem cenas hilariantes. E é divertido ver Bruna num papel que é o oposto do que costuma fazer. Absorvidos no projeto de Sob o Signo da Cidade, Bruna e Riccelli ainda não tiveram tempo de encontrar um distribuidor para SOS. "Estamos conversando", ele diz. Quem acha que os dois fazem plástica ou usam botox para permanecer eternamente jovens, engana-se. "Fazemos o que gostamos, o que ajuda bastante", Riccelli diz. Bruna também é atriz em Brasília 18%, que estréia no feriado de Tiradentes, dia 21, distribuído pela Columbia. É uma produção caprichada, feita com certa elegância e que investe no humor. Não é exatamente por isso que Brasília 18% desconcerta, de cara. Nos créditos, um letreiro informa que qualquer semelhança com pessoas vivas é mera coincidência. Riccelli acha graça quando o repórter lhe diz o que contou o francês Claude Chabrol no recente Festival de Berlim, em fevereiro, onde ele apresentou L´Ivresse du Pouvoir, A Embriaguez do Poder, com Isabelle Huppert. O filme inspira-se num caso de corrupção que ficou famoso na França, envolvendo uma juíza que virou estrela na mídia, mas Chabrol também põe a advertência, nos créditos - é mera coincidência. "Quando a gente põe isso, pode crer que as chances de a história ser real são muito maiores." Brasília 18% trata de CPI, corrupção, tentativas de intimidação, sexo e violência à sombra do poder. Você pode até pensar que Nelson Pereira dos Santos escreveu sua história influenciado pelos escândalos que há meses mantêm esta República em sobressalto, mas Nelson, que admite ter atualizado algumas partes, garante que o roteiro começou a nascer há 12 anos, quando montava A Terceira Margem do Rio, sua adaptação de Guimarães Rosa, na Capital Federal. O País era outro, o presidente era outro, mas a coisa já fedia, era o feeling do diretor. E foi surgindo a história do legista chamado a Brasília para fazer a autópsia do corpo de uma mulher que pode ser a secretária da comissão do Orçamento da Câmara, desaparecida após fazer denúncias que envolvem um poderoso senador que tem uma filha sexy (Malu Mader). O legista acaba de perder a mulher (Bruna). Vive assolado por fantasias nas quais ela e a mulher presumivelmente assassinada pelo amante cineasta (é a versão oficial que o senador quer fazer prevalecer) aparecem nuas. E existe uma jovem prostituta. A autópsia, obviamente, é do País, mas a mulher pode estar (ou melhor, está) viva. À parte o desconcerto, e o fato de as intenções do diretor permanecerem um tanto turvas, Riccelli adorou o roteiro. Trabalhar com Nelson foi como um sonho. "Aprendi muito com ele", garante.

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