REUTERS/Stephane Mahe
REUTERS/Stephane Mahe

Ricardo Darín: 'O sistema capitalista ficou muito perverso'

Ator está desde 2014 fazendo no teatro 'Cenas de um Casamento', peça com a qual volta à Espanha em turnê a partir de setembro; dois novos filmes estão prontos

Concha Barrigós, EFE

30 de agosto de 2019 | 11h31

Ricardo Darín está desde 2014 fazendo no teatro Cenas de um Casamento, peça com a qual volta à Espanha em turnê a partir de setembro. Isso sem parar de fazer cinema, frequentemente sobre os perdedores na “crise clíclica”. Para ele, o sistema capitalista universal se tornou “muito perverso”.

Falando da peça, ele diz que “faltam lugares importantes para ir e já não sei mais como me justificar, mas isso cabe aos produtores locais”, explica. “Gostaria de percorrer toda a Espanha, Uruguai, Peru, Chile, Estados Unidos... mas parece que está difícil.”

Quanto à longa trajetória da peça, Darín diz que a recepção está sendo tão boa que os ingressos se esgotam em toda parte. “Isso não apenas entusiasma a gente, mas aumenta as possibilidades de irmos a outros lugares.”

A peça, dirigida por Norma Aleandro, é uma versão teatral assinada pelo próprio Ingmar Bergman do filme que o cineasta sueco fez em 1973. Mas, ao contrário do que ocorre no filme,  teatro mostra com dinâmica de comédia a trajetória do casal ao longo da  vida. 

“É o tipo de texto no qual se vai criando, aprendendo. Tudo está em movimento e, a partir daí, tudo se ressignifica e é reinterpretado”, diz Darín. Ele já mudou três vezes a parceira de elenco – Valeria Bertuccelli, Erica Rivas e agora Andrea Pietra -, “o que obriga a se reacomodar tudo”. 

A primeira das atrizes estava “mais voltada para a comédia. A segunda, para o dramático, e agora Andrea atingiu um ponto em que transita entre o dramático e o cômico com uma facilidade e uma simplicidade que trazem algo absolutamente novo”.

Sendo apenas dois no elenco, “a relação é tão direta que não há possibilidade de repetição, sendo sempre diferente”. Nessa obra, acrescenta, “não existe fuga possível: é como entrar num ringue, mas para tratar de criar um vínculo amoroso ao longo do tempo”.

“O companheiro nos oferece generosamente o material para seguir adiante, o que  permite renovar e surpreender todos os dias” diz Darín. Ele afirma que sempre teve a sensação de que Bergman, quando readaptou o roteiro para o teatro, pensou numa oficina teatral. “Por isso, ele propôs que os atores enumerem, com ironia, as cenas antes de representá-las, o que lhes permite  entrar e sair do  jogo.” 

Entre as apresentações em Madri, Darín irá ao Festival de Cinema de San Sebastián (norte da Espanha) apresentar na sessão oficial, mas fora competição, La Odisea de los Giles, filme com o qual a Argentina está “entusiasmada”. A ideia do filme, basicamente, é a de que se meter com os perdedores, os “giles”, pode ser uma grande roubada.

Um segundo filme, feito na produtora que montou como filho, o também ator Chino Darín, está ambientada do “corralito” [medida econômica imposta na Argentina em 2000 para interromper a retirada de dinheiro de contas bancárias] e visa a levar o espectador, “com ironia e humor, a rir-se das próprias desgraças”.

“Os giles têm a ver com a concentração da riqueza no perverso sistema universal capitalista”, diz Darín. Ele explica que os giles “são uma espécie de redenção, um novo ar que entra nos pulmões. Se todos nos voltássemos para a mesma direção, poderíamos conseguir grandes coisas”. 

“É entusiasmante a ideia com a qual o filme termina: os acostumados à vassalagem, à humilhação, ao anonimato, se olham uns nos olhos dos outros e dizem: ‘Vamos pôr isso em marcha’”, suspira um esperançoso Darín. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

Tudo o que sabemos sobre:
Ricardo Daríncinemateatro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.