Ricardo Darín estréia como diretor em 'O Sinal'

Grande sucesso de público nos cinemas da Argentina, o filme possui uma história de bastidores e chega ao Brasil

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S.Paulo

08 de março de 2016 | 14h54

Grande sucesso de público nos cinemas da Argentina - foi recordista do ano passado -, O Sinal, longa de estréia do ator Ricardo Darín na direção, possui uma história de bastidores que o próprio Darín contou ao repórter do Estado, no ano passado, quando esteve no Brasil, para participar do Festival do Rio, em outubro. Há anos que Darín vem recebendo ofertas de produtores argentinos e espanhóis, interessados em que ele dirija os próprios filmes. Darín sempre resistiu, por não se sentir preparado, mas o caso de O Sinal foi tão particular que não lhe permitiu dizer não.   Veja Também: Trailer de 'O Sinal'   Ele ia fazer o filme que estréia nesta segunda somente como ator, no papel do detetive cansado de investigar casos de infidelidade e que se envolve com esta sedutora mulher fatal. O filme seria dirigido por seu amigo Eduardo Mignone, também autor do romance em que se baseia a história, mas ele morreu faltando um mês para o início da rodagem.    A produção parou e, como Darín já vinha acompanhando todos os estágios do trabalho com Mignone, os produtores não tiveram muita dificuldade para convencê-lo a assumir a direção, até como homenagem ao amigo, que se empenhara tanto no projeto. Darín pediu tempo para se preparar. A filmagem foi adiada por alguns meses e ele ainda recorreu a outro amigo, o diretor de curtas Martin Hodara, com quem compartilha a realização de O Sinal.   O filme é um noir - esse tipo de narrativa sombria habitada por detetives e mulheres fatais, em que as aparências muitas vezes, quando não sempre, enganam. Os críticos discutem se se trata de um gênero ou estilo. Especialistas sustentam que o gênero é policial, o estilo é que é noir (e, por isso, pode existir também um melodrama noir, por exemplo).   Seja como for, o estilo noir tornou-se cada vez mais raro no cinema argentino, perdendo-se a tradição de um diretor que fez filmes belíssimos nos anos 40, Hugo Fregonese (antes de prosseguir sua carreira em Hollywood). Como Darín gosta de dizer, o livro e o roteiro de Mignone já determinavam o rumo da história e dos personagens, mas esta era só parte do problema. Um noir, por princípio, depende do clima, do enquadramento, da veracidade dos ambientes, da música, dos figurinos. Neste sentido, O Sinal é um filme muito elaborado. No Rio, Darín exultava porque a aceitação pelo público na Argentina era a prova de que havia acertado no alvo.   Sendo o filme noir, o herói, por mais durão que seja, tem de ser enganado pela mulher fatal. O código é seguido e o espectador, com certeza, espera alguma coisa. Antecipa que vai ser uma história de traição e, mesmo assim, o desfecho é tão radical que pega o público de surpresa. Não representa pouco, mas a força do filme está no quadro histórico. A ação de O Sinal situa-se em 1952, quando a Argentina está paralisada pela agonia de Eva Perón, aguardando para qualquer momento a morte da primeira-dama, consumida pelo câncer. Embora a trama seja 100% fictícia, esse fundo dá ao filme uma base real e ajuda a adensar os personagens. Ricardo Darín diz que se trata da crônica de uma e talvez duas mortes anunciadas. Mas é mais do que isso. O que Darín e Hodara filmam é o fim de uma época.   Quando a mítica Evita, madre de los descamisados, morreu, foi-se com ela um sonho de política social, de igualdade e justiça. O peronismo mudou, houve uma radicalização violenta no país e a Argentina nunca mais foi a mesma. Iniciou-se um ciclo que levou às ditaduras dos anos 60 e 70. Esta morte tem ainda outra dimensão. Evita nunca traiu seu povo, militou até o fim por Juan Domingo Perón e também isso fecha um ciclo, a substituição de Penélope, da mulher fiel que espera, pela outra fatal. Tudo isso era muito delicado, no sentido de difícil, de colocar em cena. O diretor, Ricardo Darín, é quem tem o olho para inserir a cena, o plano, no conjunto do filme. Como ator, ele tem de se colocar em sintonia para participar de uma freqüência exata. O diretor determina a freqüência. Desta vez, era ele o diretor. Foi algo novo para o ator, que gostou a experiência e promete repeti-la.

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