Revolução dos Cravos repercute no Brasil

Foi, provavelmente, a última revolução romântica do século. O "25 abril" como os portugueses carinhosamente a chamam, ou a Revolução dos Cravos, como ficou conhecida no mundo, também teve repercussão no Brasil. Entre elas, uma lembrança local, a festança promovida no prédio da faculdade de História da Universidade de São Paulo para comemorar a queda do regime salazarista. Lá pelas tantas chega a notícia: um professor português, exilado no Brasil, não agüentara tanta emoção e tivera um enfarte. Não iria cruzar o Atlântico para rever a pátria, livre enfim de uma ditadura de quase 48 anos.Chico Buarque, na canção Tanto Mar, lembrava que a festa tinha sido bonita, pá, mas afinal fora traída. Gláuber Rocha chegou a participar, como um agressivo entrevistador, no longa-metragem coletivo As Armas e o Povo, que o sindicato de técnicos cinematográficos portugueses resolveu rodar, de improviso, para registrar a imediata ressaca do fim da ditadura. Além das performances de Gláuber, o filme tem como principal atração o comício de 1.º de maio, o primeiro de uma nova era democrática, com o socialista Mário Soares e o comunista Álvaro Cunhal, constrangidos, porém enfim reunidos num mesmo palanque.A Revolução dos Cravos foi romântica, entre outros motivos, porque reunia todos os ingredientes para formação de uma mitologia. Grândola Vila Morena, uma canção libertária do Alentejo, cantada por Zeca Afonso, foi a música que serviu de senha para a deflagração do movimento. A revolução ganhou esse nome porque as moças ofereciam cravos para os soldados que ocupavam a praça do Rossio. Como tinham as mãos ocupadas, colocavam as flores no cano da arma. No dia seguinte, os jornais estamparam as fotos e o poder simbólico dessa fusão insólita - metralhadoras e flores - batizou naturalmente um movimento vitorioso sem quase nenhum tiro disparado.Foi um levante liderado por jovens oficiais esse que, na madrugada de 25 de abril de 1974, conseguiu derrubar um regime fascista que parecia se eternizar no poder. Em 1968, Antônio de Oliveira Salazar, doente, colocara em seu lugar um preposto, Marcelo Caetano, que governou segundo a linha conservadora do chefe até a revolução.Mas o fato é que o regime já vinha se desgastando. Era, com o franquismo espanhol, uma excrescência na Europa democrática que emergira da 2.ª Guerra Mundial. Essa sobrevivência extemporânea de velhos fascismos, encontrava, na península ibérica, um ambiente propício para uma sobrevivência fora do tempo. O país pagava ao regime seu preço em atraso. Portugal, na época, era um pequeno país, pobre, retrógrado, sem democracia, com imprensa submetida à censura e envolvido em uma guerra colonial sem futuro. Lutava, em três frentes, para manter suas colônias africanas em Guiné-Bissau, Moçambique e Angola.Aquele resto de fascismo, empedernido e burocrático (Salazar chamava Portugal de "minha casa"), enfraquecido por contradições internas e custosas guerras coloniais, não poderia mesmo resistir por muito tempo. E não resistiu. Esgotada por quase meio século de ditadura, a população saiu às ruas para comemorar quando ela caiu. E saiu para começar a reivindicar novos direitos. Uma espécie de embriaguez democrática tomou conta de Portugal, reunindo no mesmo palanque velhos exilados, trazendo à tona questões impensáveis até a véspera, como a igualdade entre os sexos, etc. Talvez o maior mérito de Capitães de Abril, o belo filme de Maria de Medeiros, seja reproduzir esse clima, essa festa, esse carnaval cívico.Que, naturalmente, não duraram muito, mas tudo foi inesquecível enquanto existiu. Como toda revolução que se preza, a portuguesa teve também a sua fase épica, com grandes campanhas de alfabetização tentando, em uma geração, tirar o país do seu atraso ancestral. As coisas iam tão rápido que a Otan e os Estados Unidos colocaram Portugal sob vigilância. Embora ninguém dissesse abertamente, notavam-se semelhanças entre o processo que se observava na "boa terrinha" e aquele que 15 anos antes sacudira Cuba.E, de fato, em seu começo a Revolução dos Cravos tomou um impulso francamente à esquerda, e o general Antonio Spíndola, um ponto de equilíbrio colocado para fazer a transição, acabara por renunciar. No entanto, no decorrer do processo, as facções mais radicais tiveram de se compor com o Partido Socialista de Mário Soares e outras facções mais moderadas, que desejavam consolidar uma democracia estável. É normal que esse reequilíbrio aconteça. Quando existe uma ditadura, fica fácil alinhar interesses e ideologias divergentes para combatê-la. Quando chega a hora de administrar a realidade, as diferenças aparecem e a negociação se impõe. Dessa solução intermediária surgiu a democracia portuguesa, parlamentarista, moderna e integrada à Europa. Da revolução, propriamente dita, sobraram lembranças e canções. Flores não duram tanto tempo.

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