Revista italiana faz dossiê sobre cinema brasileiro

O quinto número da Carte di Cinema, publicação trimestral de estudiosos do cinema da Universidade de Siena, traz um conjunto de dez artigos sobre o cinema brasileiro, num dossiê intitulado Incandescência e Alquimia, a Resistência do Brasil do Cinema Novo aos Anos Noventa. Ocupando 50 páginas, do total de 184, o anexo é obra de italianos e brasileiros. Intelectuais como Sergio Michele dividem espaço com Walter Salles e José Carlos Avellar, entre outros. Nesta quarta-feira a Carte di Cinema será apresentada ao público no Museu da República, às 18:30h, no Rio de Janeiro. O dossiê é uma seção fixa da revista. A cada número, é escolhido um país a receber a homenagem. A passagem dos 500 anos do descobrimento do Brasil foi a oportunidade para dedicar ao País os artigos especiais. Dos brasileiros que escrevem neste número estão Ismail Xavier, André Luís Oliveira e Luiz Edmundo Bouças Cutinho, além dos já citados Walter Salles e José Carlos Avellar. Trata-se de praticamente todas as épocas do cinema no Brasil, até as mais remotas. O longo artigo assinado por Sergio Michele, diretor da revista e teórico do cinema, tem um título que traduz admiração: O Cinema Brasileiro e a Voz de Glauber Rocha. Segundo Maria Pace, arquiteta e diplomata italiana residente no Rio de Janeiro, "o cinema novo, para os italianos, é como se fosse o neo-realismo para os brasileiros, uma presença muito forte na história do cinema". Maria Pace também escreveu um dos artigos da publicação, sobre a paisagem em Central do Brasil. Um dos artigos mais interessantes é, sem dúvida, o de Simone Petricci, que escreve sobre os italianos que contribuíram para o nascimento do cinema no Brasil, entre 1897 e 1928. Os irmãos Segreto, italianos imigrantes que trouxeram para o Brasil o primeiro cinematógrafo e com ele fizeram, do navio, as primeiras imagens em movimento do país, recebem a devida menção. Prestígio - Maria Pace diz que o cinema brasileiro está em alta na Itália. "Este número da Carte di Cinema vendeu além da média na Itália", ela diz, creditando o sucesso da edição ao espaço dado ao cinema do Brasil. Pace enumera fatores para a receptividade do público. "A disputa de Central do Brasil com A Vida é Bela deu muito ibope para o cinema brasileiro na Itália", conta, referindo-se ao Oscar de 1998, quando as duas produções concorreram a melhor filme estrangeiro. Maria Pace defende que as duas cinematografias têm vários pontos em comum ao longo de suas trajetórias. E remonta aos anos sessenta para exemplificar: "o Cinema Novo tem uma linguagem italiana". Mas também revela que os filmes pegam carona nas telenovelas, que, segundo ela, "estimulam o público a ver um filme feito no Brasil". A Itália é um grande consumidor da teledramaturgia brasileira. Terra Nostra, saga de italianos imigrados no começo do século, estréia amanhã na Itália. Sergio Michele está no Brasil participando do júri do Festival de Cinema de Salvador. Mas vem ao Rio para apresentar Carte di Cinema ao público carioca. Ele lidera o grupo de teóricos que estuda cinema brasileiro nas universidades italianas, principalmente as de Siena e Bolonha. O consulado italiano no Rio de Janeiro fala em traduzir o dossiê e imprimir uma versão para circular por aqui, mas ainda não angariou apoios suficientes para o projeto.

Agencia Estado,

19 de setembro de 2000 | 01h07

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