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Revista ‘Empire’ cava abismo geracional com lista de personagens favoritos dos leitores

Revista perguntou quais seriam os maiores personagens da história do cinema e os leitores responderam com filmes de ação e com muitos efeitos especiais

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

14 Julho 2015 | 03h00

Você ainda pode (re)ver nesta quarta-feira, 15, nos Clássicos Cinemark, o filme de Orson Welles quase sempre votado como um dos maiores de todos os tempos. Na verdade, e por décadas, Cidadão Kane e O Encouraçado Potemkin, de Sergei M. Eisenstein, se alternaram no topo da lista dos melhores filmes de todos os tempos. Em votações recentes, Potemkin foi banido dos dez, ou dos 20 mais, e Kane também foi deslocado do primeiro lugar. Mesmo assim, causa espanto que um personagem tão emblemático quanto Charles Foster Kane – o norte-americano como imperialista, segundo a arguta observação da crítica Pauline Kael – não esteja em outro lista recém-inventada, a dos cem maiores personagens do cinema.

Ela está na edição de agosto da revista Empire, que já chegou às bancas, no Brasil inclusive. Empire autodefine-se como ‘The world’s biggest movie magazine’, a maior revista de cinema do mundo. A chamada de capa explicita – Seus heróis e vilões favoritos revelados com exclusividade. E, dentro, vem a explicação – você pediu, você votou. You asked, you voted. Como toda lista, a dos cem maiores personagens de Empire pode ser discutida. Parece absurdo que Kane nem aquele vagabundo de chapéu coco e botinas rotas – Carlitos – tenham sido votados na enquete da revista. O motivo talvez seja bem simples – um abismo geracional.

Os jovens, com certeza, formaram o maior número de votantes e isso explica por que personagens de séries – O Senhor dos Anéis, Star Wars, os heróis da Marvel, etc. – dominem, quantitativamente, a preferência. Nem Carlitos/Charles Chaplin nem Buster Keaton, o homem que nunca ria. O personagem ‘clássico’ de comédia da lista é o Inspetor Clouseau, de Peter Sellers, em 92.º lugar. Outros dados da estatística permitem outro tipo de abordagem – dos cem mais, 89 são personagens masculinos e apenas 11 (11!), femininos. A melhor colocada, em quinto lugar, é Ellen Ripley, a personagem de Sigourney Weaver na série Alien. E assim como estão ausentes Kane, Carlitos e personagens lendários de John Wayne – Ringo Kid (No Tempo das Diligências), Ethan Edwards (Rastros de Ódio), Tom Doniphom (O Homem Que Matou o Facínora), Sean Mercer (Hatari!), Rooster Cogburn (Bravura Indômita) –, muitas mulheres que você juraria que ia encontrar numa lista dessas também ficaram de fora.

Scarlett O’Hara (...E o Vento Levou), Norma Desmond (Crepúsculo dos Deuses), Margo Channing (A Malvada). E todas aquelas personagens de Marilyn Monroe? Chérie, de Nunca Fui Santa; Sugar, de Quanto Mais Quente Melhor? Marilyn quem? Foram todas varridas do imaginário popular em detrimento de heroínas/vilãs recentes – Lisbeth Selander, da trilogia sueca Millennium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, em sua dupla personificação, Naomi Rapace e Rooney Mara, em 75.º lugar; Sarah Connor, de O Exterminador do Futuro, em 58.º; Amélie Poulain, 54.º; Amy Dunne, a garota exemplar de David Fincher, 43.º; e The Bride, a noiva vingativa de Quentin Tarantino em Kill Bill, 23.º. 

O que se desenha na lista não é só uma tendência contra a qual as mulheres não se cansam de se insurgir – o predomínio de papéis masculinos na indústria; a dificuldade de se obter boas personagens para atrizes com mais de 40 anos –, mas também um redesenho da própria dramaturgia cinematográfica. Predominam os filmes de ação, e os efeitos. Raros personagens de dramas ‘clássicos’ integram a lista – Tony Montana/Al Pacino, de Scarface, em 70.º lugar; Vito Corleone/Marlon Brando, de O Poderoso Chefão, 53.º; Atticus Finch/Gregory Peck, de O Sol É para Todos, 35.º; Michael Corleone/Al Pacino, outro do Chefão, 11.º. Alguém falou em Audrey Hepburn, Bonequinha de Luxo? Não tem. Nem Katharine Hepburn, que, por décadas, encarnou nas telas a feminista avant la lettre.

Algumas escolhas chegam a ser surpreendentes. Por mais cativantes que sejam o filme (O Grande Hotel Budapeste) e o personagem de Ralph Fiennes, M. Gustave, em 17.º lugar entre os 100 maiores personagens de todos os tempos parece um pouco demais. E o Dude de Jeff Bridges em O Grande Lebowski em 10.º? Já que chegamos aos dez mais, a lista está na galeria acima. James Bond, nas suas várias personificações – Sean Connery, George Lazenby, Roger Moore, Timothy Dalton, Pierce Brosnan, Daniel Craig – chega em segundo, mas a revista em vez de optar pelo último, que obteve com 007 Contra Skyfall a maior bilheteria de todas a série, prefere ilustrar o personagem com o primeiro, Connery.

Como segundo da lista, James Bond fica no meio de dois outros personagens de série, ambos interpretados por Harrison Ford, que, além desses dois, emplacou também, entre os cem mais, o caçador de androides de Blade Runner em 47.º. Como Han Solo, o parceiro de Luke Skywalker em Star Wars, episódios 4, 5 e 6, Ford ficou em terceiro. E como Indiana Jones, na série produzida por George Lucas e dirigida por Steven Spielberg, ele foi primeiríssimo. Momento definidor do personagem – em Os Caçadores da Arca Perdida, de 1981, acuado pelo árabe, Indy desiste do chicote, saca da pistola e dispara. Não é muito correto – não é nada correto –, mas o público adora.


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