Revista discute cinema francês atual

É consensual: o cinema da França atravessa ótima fase. Nem mesmo o hipercrítico diretor Robert Guédiguiam (de A Cidade Está Tranqüila)em sua passagem por São Paulo, deixou de dizer que o cinema do seu país se porta muito bem no momento. Mas ao mesmo tempo que comemoram 40% de ocupação do mercado interno (quando outros países têm de se dar por satisfeitos quando atingem os 10%), os franceses começam a se preocupar com o futuro. Quer dizer, apesar dos resultados, a guerra não está ganha. Aliás, nunca está, porque se trata de um assunto cultural com importante interface econômica - sujeito portanto a conflitos de interesses muito concretos. Prova disso é a capa da Cahiers du Cinéma de janeiro, que discute a face oculta desse sucesso doméstico. A tal face oculta reside na fragilidade da política que permite a produção de filmes e essa notável ocupação do mercado interno. Nada disso é uma aquisição definitiva. Pelo contrário, está ameaçada em algumas frentes. Uma delas tem a cara e o nome do produtor Jean-Marie Messier, que controla o grupo Universal-Vivendi e já se manifestou contra a "exceção cultural" - mecanismo que permite subsídios a produtos culturais sem que isso configure atentado à livre concorrência. Outra fragilidade é a produção altamente concentrada. Segundo a revista, dos 20 filmes campeões de bilheteria, apenas um é originário de produtora independente. Boa parte deles vem de associações com o Canal +, que pertence a Messier. Toda a produção francesa depende da associação com as TVs. Por isso, estima-se que, se as redes conseguirem se afastar do processo, o sistema inteiro poderá vir abaixo. Já estaria havendo uma certa seletividade às avessas na qualidade dos filmes produzidos. Segundo alguns produtores independentes, a tendência perigosa seria a concentração nos chamados "grandes filmes", isto é, projetos de alto orçamento, com elenco conhecido e dispendioso, roteiros de intenção comercial, etc. Segundo Alain Rocca, vice-presidente do sindicato dos produtores independentes, "o cinema que não se preocupa apenas em divertir vive dificuldades crescentes na França". Outro produtor, Alain Rozanès, diz que será preciso descobrir soluções alternativas, para que filmes sem interesse imediato do mercado continuem a existir. Ou seja, mesmo no interior de uma situação privilegiada como a do cinema francês, a grande briga é pelo financiamento do filme dito "de arte", sem o qual nenhuma cinematografia funciona, progride ou se justifica. Para o leitor da revista fica faltando a discussão crítica dessa nova produção francesa. Quando o debate se concentra sobre a questão econômica, deixa-se a estética de lado - e o público e a crítica brasileiros já viram este filme. Na época da retomada do cinema brasileiro, nos primeiros anos da década passada, as forças para o debate foram exauridas em temas como as formas de produção, a participação no mercado, as cotas de tela, as vias de distribuição, etc. As obras, propriamente ditas, foram colocadas entre parênteses, como se fosse um tanto impudico discutir estética quando outras urgências se impunham. Hoje se sabe que algum terreno foi perdido com essa omissão. Quando a discussão econômica toma a frente, a tendência é confundir meios com fins e orçamentos com valores artísticos. Depois, fica difícil ir em busca do tempo perdido. Afinal, um filme pode ser justificado pela quantidade de dinheiro que movimenta quando é produzido e comercializado, mas o que fica dele depois disso pertence a outra esfera.

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