Retrospectiva recupera filmografia de Reichenbach

Carlos Reichenbach (Carlão para os amigos) completa amanhã 55 anos e ganha, no Museu da Imagem e do Som (MIS), uma ampla retrospectiva de sua obra, também a partir de amanhã. São quase 37 anos de carreira, de um diretor politizado e de esquerda, que culminou o ano passado, com o belo Dois Córregos. Isso depois de atravessar alguns dos piores momentos do cinema brasileiro, da censura do regime militar à agonia da era Collor. "Eu filmo com as condições que disponho no momento; o importante é fazer cinema", diz ele, que dirigiu, entre outros, Alma Corsária, Anjos do Arrabalde e Demência, todos na retrospectiva do MIS.Não é exagero. Carlão já fez filmes usando câmeras consertadas com esparadrapo, negativos vencidos e recursos mínimos. "No Brasil, o cineasta é obrigado a transformar falta de condições em elemento de criação, adaptando diariamente os roteiros ao que está disponível no momento". Nos anos 70, quando só havia dinheiro para fazer pornochanchadas, Carlão não se fez de rogado. Filmou A Ilha dos Prazeres Proibidos, um dos maiores sucessos do gênero. Para ele, o importante era a liberdade. "Os produtores diziam ´Faça o que você quiser, só coloque umas cenas de sexo no meio´; e assim fiz uma pornochanchada que falava de exílio e perseguição política", diverte-se ele.O filme teve cerca de 4 milhões de espectadores e abriu as portas do gênero para Reichenbach. "Os produtores diziam: ´O Carlão faz uns filmes nos quais os personagens falam umas coisas esquisitas, mas que enchem as salas de cinema´". As tais "coisas esquisitas" eram discussões filosóficas, políticas e existenciais que ele encaixava no roteiro, às vezes com duplo sentido. "Imagine um casal, no clima erótico, dizendo coisas como ´O movimento da massa deve vir de baixo para cima...´, ou coisas assim", diverte-se.A maior parte de sua filmografia surgiu na boca do lixo, mas seu primeiro longa era infantil, embora o nome servisse na medida para um pornô: Corrida para o Amor. "Era um filme juvenil sobre corrida de automóveis, mas que nunca pude rever, pois o negativo desapareceu", lamenta. Na linha sexo-cabeça, fez também As Libertinas, que ficou 30 semanas em cartaz, Sede de Amar e Império do Desejo, já com carta branca dos produtores. Ele costuma dizer, sem trocadilho, que este último é o filme que lhe deu mais prazer: "É um dos meus trabalhos mais autorais". Em meio a cenas de sedução, era comum o personagem parar e dizer jargões da esquerda como "Toda propriedade é um roubo". Extremos do Prazer, feito depois, também segue essa linha. Quando não podia filmar, sobrevivia como diretor de fotografia, em mais de 30 trabalhos, boa parte deles, erótica. Do tempo das pornochanchadas, ele lembra dos cortes feitos por projetistas das cidades do interior. "Eles tinham o mau hábito de cortar cenas de sexo e guardar". Deviam resultar em versões pornô da cena final de Cinema Paradiso, que reunia os beijos que o padre do filme de Giuseppe Tornatore (Philippe Noiret) mandava o projetista Alfredo cortar. "Quanto mais longe o filme era exibido, com mais cortes voltava", lembra.Dos cortes oficiais, feitos pela censura do governo militar, ele só lamenta os seis minutos feitos em Amor, Palavra Prostituta, que só agora poderá ser visto completo. A censura dessa época não costumava cortar as cenas de sexo, mas sim as que, no entender deles, feria a moral. O filme contava a história de um professor decadente, à beira do suicídio, que encontrava nova razão de viver ao cuidar de uma garota que havia feito um aborto. A censura entendeu que as cenas em que ele cuidava dela faziam a defesa do aborto e as retalhou por completo. "Transformaram um filme humano numa fita de sacanagem simples, o que me desgostou profundamente". Professor - Carlão foi professor de cinema da USP onde influenciou uma geração de cineastas que ainda está por surgir. "O Carlão mudou minha maneira de ver o cinema e dava aulas por prazer; elas duravam muito mais do que o programado", lembra André Franciolli. Repleto de novos projetos, Carlão parou temporariamente com as aulas, envolvido na captação de recursos para Aurélia Swazenega, sobre uma operária do ABC.Cineasta do Mês. De quinta a domingo, às 19 e 21 horas. Grátis. MIS - Auditório. Avenida Europa, 158, tel. 852-9197. Até 18/6.

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