Retrospectiva no CCBB resgata clássicos de Marlene Dietrich

Mostra revive o culto a atriz e cantora alemã

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

16 Setembro 2014 | 19h30

Adolf Hitler a chamava de traidora e considerava sua decisão de se tornar cidadã norte-americana um desrespeito à pátria alemã. Sua única filha, Maria Riva, nascida em 1924, dizia que a mãe era fria e autoritária. Sempre houve gente para falar mal de Marie Magdalene von Losch, que se tornou conhecida, no mundo das artes, como Marlene Dietrich. Mas, na tela e no palco, ela era única e esculpiu um dos mitos mais duradouros do cinema. Pense em Charles Chaplin, em Greta Garbo, Marlon Brando, James Dean, Elizabeth Taylor. Marlene é dessa estirpe. No CCBB, começa hoje uma retrospectiva que pode não ser completa, mas traz seus maiores filmes. Você não vai conseguir desgrudar o olho da tela.

Dizia-se de Gilda, a personagem de Rita Hayworth, que nunca houve uma mulher como aquela. Nunca houve outra Marlene. Evoque o nome e ela virá com suas pantalonas - a primeira mulher a fazer moda com calça comprida -, sempre envolta na fumaça dos cigarros. Tudo isso foi sendo construído. Como Galateia, ela teve o seu Pigmalião, e foi Josef Von Sternberg. Marie Magdalene nasceu em Berlim, em 27 de dezembro de 1901. A mãe, riquíssima. O pai, um tenente de polícia que morreu quando ela tinha 10 anos. A mãe casou-se de novo, com o melhor amigo do marido - e ele também morreu prematuramente, na 1.ª Grande Guerra. Em 1921, ela ainda não era Marlene e, como Marie Magdalene, casou-se com um ajudante de diretor e teve a filha. Em 1924, estreou no palco. Foram cinco anos de uma carreira obscura, feita de operetas e filmes que não marcaram. E, então, em 1929, ela encontrou Sternberg, que procurava a atriz para um filme que se tornou mítico - O Anjo Azul.

A história mostra como cantora de cabaré destrói a vida de respeitável professor. Ele era Emil Jannings, o mais importante ator alemão de sua época. Virou coadjuvante quando Lola-Lola pisou naquele palco e cantou com voz rouca - ‘Ich bin von Kopf bis Fuss auf Liebe eingelstellt’, Da cabeça aos pés, sou feita para o amor. Nascia ali Marlene e o sucesso foi instantâneo. Hitler quis fazer dela a estrela de seu nascente Reich, mas Pigmalião e Galateia preferiram iniciar uma nova carreira nos EUA, na Paramount. Assim como a Metro fez com Garbo, a empresa de Adolph Zukor apadrinhou Marlene. Com Sternberg, ela fez mais seis filmes nos EUA e ele, que criara o mito, o aprimorou através de Marrocos, Desonrada, O Expresso de Shangai, A Vênus Loira, A Imperatriz Galante e Mulher Satânica.

Com Sternberg, Marlene deixou para trás a prostituta Lola-Lola e, vestida de forma extravagante por Travis Banton - que interpretava os delírios cada vez mais barrocos do autor por sua estrela -, foi virando a representação de uma ambígua mulher fatal. Quando romperam, Marlene encontrou novos grandes diretores. Durante a 2.ª Guerra, tornou-se militante antinazista. Nos anos 1950, antecipou-se a Marilyn Monroe e com um vestido transparente - para mostrar que ainda estava inteira, e era desejável -, iniciou a carreira de cantora nos cabarés mais luxuosos de Vegas.

Marlene teve papéis marcantes nos anos 1930 e 40. Era tão moderna que zombava do próprio mito, não apenas dos papéis sexuais. E, às vezes, o diretor nem precisava ser grande. Atire a Primeira Pedra/Destry Rides Again, de George Marshall, é uma delícia de western cômico, coestrelado por James Stewart. Nos 50, de novo no western, Fritz Lang fez dela a protagonista do sombrio O Diabo Feito Mulher. Mais um pouco e Orson Welles e Billy Wilder lhe ofereceram grandes personagens no chamado filme noir, em A Marca da Maldade e Testemunha de Acusação. Em 1962, teve aquela participação em Julgamento em Nuremberg, de Stanley Kramer. É ela quem tenta convencer o juiz Spencer Tracy a, condenando o nazismo, absolver o povo alemão. Só naquele ano ela regressou a Berlim e uma multidão de (ex?) nazistas foi ao aeroporto gritar palavras de ordem contra a ‘traidora’. Marlene ainda filmou Apenas Um Gigolô, com David Bowie, no fim dos anos 1970. Trocou a Alemanha pela França, instalou-se em Paris. Morreu em 6 de maio de 1992. Curiosamente, no dia da abertura do Festival de Cannes, que, naquele ano, a celebrava em seu cartaz. Informações nunca confirmadas dão conta de que se matou, fosse por sofrer de Alzheimer ou por não conviver com o próprio envelhecimento. Tinha 90 anos.

Diva, estrela, ícone da moda. Marlene não apenas vestia roupas masculinas. Teve ligações com homens e mulheres. Depois de Sternberg, seu caso mais rumoroso foi com o astro francês Jean Gabin. Como Garbo, os críticos discutem se era mesmo uma grande atriz ou se apenas cristalizou a persona esculpida para ela. Garbo tinha um rosto de esfinge, esculpido na pedra. Marlene tinha aquela beleza sofisticada e cosmopolita. Todos os seus filmes com Sternberg foram feitos em estúdio, e ele controlava tudo. Os ângulos, a iluminação, os figurinos exóticos. Controlava até a respiração de Marlene. No início, ela aceitava isso. Em sua autobiografia, o diretor conta da foto que ela lhe deu, com dedicatória - “Sem você, não sou ninguém.”

Era gordinha, quando se conheceram. Ele esculpiu o rosto anguloso, que desafiava diretores de fotografia. Só as pernas - magníficas - sempre foram dela. Sentindo-se sufocar, Marlene o deixou. Mas alguns de seus grandes momentos nas tela foram com ele. Na tela do então marido, foi mundana, imperatriz, espiã. Ele a vestiu até como gorila e, num arroubo, fez com que a câmera, avançando sobre Marlene, estacionasse em seus lábios. Uma mulher chamada desejo. No puritano cinema de Hollywood, na época, isso era sinal de confusão. Podia significar, também, pecado. Até nisso Marlene foi pioneira. As ligas de decência a poupavam quando, por muito menos, infernizavam outras estrelas.

MARLENE DIETRICH

CCBB. R. Álvares Penteado, 112, tel. 3113-3651. De 4ª a 2ª. R$ 4 e R$ 2 (DVD/ Blu-Ray). Até 20/10.

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