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Retrospectiva marca os 100 anos de nascimento de Grande Otelo

Caixa Belas Artes dá início a uma ampla retrospectiva com 23 filmes nos quais ele atuou

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2015 | 03h00

Ele tinha “grande” no nome e era, de fato, enorme, apesar do seu 1,50m de altura. Sebastião Prata, o Grande Otelo, faria cem anos dia 18. As comemorações começam dez dias antes. Nesta quinta-feira, 8, o Caixa Belas Artes dá início a uma ampla retrospectiva com 23 filmes nos quais atuou. Haverá debates e reavaliações de sua obra. A primeira mesa ocorre às 18h30, com Mário Prata (filho de Grande Otelo) e os curadores da mostra, Breno Lira Gomes e João Monteiro, moderação da jornalista Maria do Rosário Caetano.

Sebastião Bernardes nasceu em 18 de outubro de 1915, em Uberlândia, Minas, filho de trabalhadores agregados da família Prata, sobrenome adotado pelos pais para o menino. Artisticamente dotado, teve o circo como primeira escola. Impressionando por sua precocidade, é levado para São Paulo e, em Campinas, integra a trupe do cômico Genésio Arruda. Entra para a Companhia Negra e chega ao Rio de Janeiro. Trabalha em teatro de revista, na Praça Tiradentes, e se aproxima do meio cinematográfico carioca. Em 1935, participa do primeiro filme, Noites Cariocas, de Enrique Cadicamo.

Otelo atravessou várias fases do cinema brasileiro, e elas estão representadas na mostra. No tempo das chanchadas, compôs com Oscarito a grande dupla do período. E lá estão os filmes para mostrar essa vertente cômica, como Matar ou Correr, Um Candango na Belacap e Samba em Berlim.

Em meados dos anos 1950, Otelo participou ativamente do então embrionário Cinema Novo, que, com suas preocupações sociais, era muito crítico em relação às chanchadas. Ele é o protagonista de Rio Zona Norte (1957), de Nelson Pereira dos Santos, precursor dos cinemanovistas. Seu personagem se chama Espírito da Luz, um sambista que vende suas composições para sobreviver, prática comum entre sambistas da época.

Está em Assalto ao Trem Pagador (1962), de Roberto Farias, filme que corre em paralelo ao Cinema Novo e é tido como o melhor policial já feito pelo cinema brasileiro. Em papel tragicômico, Otelo faz parte do bando de Tião Medonho, e é um cachaceiro impenitente. Na tensa ação dramática, despeja seus cacos divertidos e alivia o clima. Mas a cena que o consagra é aquela em que, completamente bêbado, vê passar o enterro de uma criança na favela. Ele canta, esganiçado, cambaleante e com a garrafa na mão. Quando o advertem por falta de respeito, diz, com sua voz de alcoólatra, que todos deveriam comemorar quando uma criança morre na favela, porque é uma a menos para sofrer aquela miséria.

Otelo está também em algumas obras importantes do Cinema Novo, como Os Herdeiros (1970), de Cacá Diegues, e Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade. Neste, vive a faceta negra do “herói da nossa gente”, enquanto Paulo José encarna o lado branco do personagem de Mário de Andrade. A cena do nascimento de Macunaíma, na versão de Otelo, é uma das mais hilárias dessa tragicomédia do povo brasileiro, imaginada no Modernismo e reciclada no sufoco da ditadura.

A versatilidade de Otelo o fazia atravessar períodos contraditórios da história do cinema. Brilhou nas chanchadas, que foram desancadas pelo Cinema Novo, movimento que também o adotou. Depois, o Cinema Novo foi criticado pelo chamado Cinema Marginal e também neste Otelo deixou sua marca, em filmes como A Família do Barulho (1970) e O Rei do Baralho (1973).

Por isso, ganha especial relevo outra mesa de debates, esta no domingo dia 18, com presença da atriz e diretora Helena Ignez, viúva de Rogério Sganzerla. A conversa acontece depois da projeção de Nem Tudo É Verdade (16h), um dos filmes dedicados por Sganzerla à complicada e polêmica passagem de Orson Welles pelo Brasil em 1942 para filmar o documentário It’s All True (É Tudo Verdade). Helena falará da experiência de atuar ao lado de Grande Otelo, da relação dele com Orson Welles e Sganzerla e de sua importância para a cultura brasileira. Ah, sim, conhecendo-o no Rio, Welles, o cineasta gênio de Cidadão Kane, não teve dúvidas em afirmar: “Grande Otelo é o maior ator do Brasil”. Se alguém achar que Welles exagerava, é só ver os filmes.

Em 1993, Otelo passou pelo Festival de Brasília, onde foi homenageado. Deu entrevistas, brincou com todos, esbanjou talento e simpatia. Embarcou no dia seguinte para a França, onde apresentaria uma retrospectiva de sua obra no Festival des Trois Continents, em Nantes.

Ao chegar ao Aeroporto Charles De Gaulle, teve o enfarte fatal. Morreu aos 78 anos, dia 26 de novembro, em Paris. Chique até na saída de cena.

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