Eric Gaillard/Reuters
Eric Gaillard/Reuters

Retrospectiva dos filmes do francês Raymond Depardon ocorre em São Paulo

'Não fui um daqueles revolucionários de Maio porque não era nem me sentia estudante', diz jornalista, fotógrafo e cineasta

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

03 Janeiro 2018 | 06h00

Raymond Depardon era jornalista, correspondente de guerra. Um amigo morreu no Camboja e ele começou a pensar que aquele poderia ser seu futuro. Outro amigo lhe abriu uma porta. Ele havia sido um dos fundadores da agência Gamma, houve um grande terremoto no Peru, e Depardon atravessou o Atlântico para documentar o horror. Descobriu não apenas a América Latina, mas também que sua vocação era fotografar gente. Foi ao Chile de Salvador Allende fotografar a movimentação ‘du peuple’ (do povo) no regime da Unidade Popular. O resto é história. Raymond Depardon, grande fotógrafo, descobriu o cinema e virou grande cineasta. Um autor. 

No CCBB, começa nesta quarta, 3, uma retrospectiva dos filmes de Depardon, incluindo o mais recente, 12 Jours/12 Dias. Com um lançamento pequeno, o filme despertou um interesse social muito grande e ultrapassou 100 mil espectadores. Haverá, em São Paulo, no dia 18, um debate. “Na França, um paciente pode ser internado à revelia no sistema manicomial. Histórias terríveis foram consequência disso, mas hoje, depois de 12 dias de internação, todo paciente tem de passar por um juiz. Não é só uma questão humanitária – é política.”

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Depardon conversa pelo telefone com o repórter. No ano passado – 2017 ainda é tão recente –, houve a exposição de suas fotos no Rio. São Paulo vê só a retrospectiva dos filmes. Depardon fez raras ficções. É, principalmente, documentarista, mesmo que ‘nas bordas’. Documentou camponeses, pequenos fazendeiros, as instituições. Sua obra-prima talvez seja Instantes de Audiência, de 2004, que foi referência para Maria Augusta Ramos em Justiça. Depardon cita Serge Daney, o crítico que foi editor de Cahiers du Cinéma. “Ele definia meu cinema como ‘miraculeux’, milagroso. Na verdade, acho que na minha fotografia, como no meu cinema, perpassam as mesmas obsessões. A África, a América Latina, o deserto, homens e mulheres capturados ao vivo, com suas grandezas e misérias, sem idealizações. É o que faz nossa humanidade.”

E Depardon continua – “Tive uma infância tranquila, numa granja no vale do (rio) Saône. É uma região brumosa e vem dela minha atração, até hoje, pela neblina, que dá grandes fotos.” Uma das mais famosas – um cão, numa Santiago fantasmagórica, em 2007. “Como um assassino, volto ao local do crime”, ele brinca. Sua história – “Meus pais nasceram com o século passado, e me tiveram um pouco tarde. Tive sempre a impressão de viver entre duas gerações, dois séculos. Daí meus temas – o mundo rural, o ascetismo, o universo mineral do deserto. Recentemente, houve uma exposição de minhas fotos no (Instituto) Cartier Bresson, em Paris, que dividiu o material em temas. As viagens, o sofrimento, a dor ‘de l’enlevement’ (de ser removido, desaparecer), etc. E, sempre, o gosto pelo real, a recusa do estetismo. Assim como (Serge) Daney dizia que eu era milagroso ao captar a vida diretamente, outros já me definiram, e eu próprio me defino como um fotógrafo e um cineasta silencioso.”

Na fotografia, tudo depende da concentração, e de um ‘clic’. “Minha primeira câmera foi roubada de meu irmão. Era tímido, e usei a câmera para me relacionar com o mundo. E, como naquela época não era preciso faculdade, comecei como aprendiz de fotógrafo. De repente, estava no mundo. No Vietnã, na África. E sempre sozinho, o que alimentou em mim o sentimento de solidão, e de observação. Sofria, mas tudo isso alimentou e estimulou minha curiosidade.” Depardon chegou ao cinema nos anos 70, após o célebre Maio, que em 2018 comemora 50 anos. “Não fui um daqueles revolucionários de Maio porque não era nem me sentia estudante. Não tive uma educação formal. Sofri acusações – diziam que minhas fotos e, depois, os filmes, não tinham um ponto de vista. E eu retrucava que o ponto de vista está no enquadramento, na duração do plano. Assim continua sendo.”

Com o é ser fotógrafo e cineasta? “Tenho a impressão de que é o que me salva. Embora sejam técnicas que produzem resultados diferentes, o quadro, a luz são parecidos, senão iguais. A foto é mais urgente. Um clic, e você conseguiu ou não. No cinema, o tempo é outro, mas, no limite, a expressão é a mesma.” Dar um testemunho, refletir. “O fato de eu ter ido muito cedo para o mundo, de alguma forma me deu uma consciência precoce da mundialização. Descobri a desigualdade, a revolta, a repressão. Não sei se os outros sentem, mas sinto uma violência muito forte em mim. Uma cólera – esse não é o mundo que sonhei.”

Nem por isso Depardon, aos 75 anos – nasceu em 1942 –, perdeu a esperança. “Seria terrível. Vivemos um momento de conservadorismo galopante, mas tanta desigualdade não pode resultar numa coisa boa. Sob uma aparência de ordem e tranquilidade, o mundo está em ebulição.” Diz, o que pode desconcertar – “A cor sempre fez parte da minha vida, desde o preto e branco.” Na sua série de Perfis Camponeses – A Aproximação, O Cotidiano e A Vida Moderna –, no seu Diário da França ou nos ‘instantes de audiência’ da 10.ª Câmara de Justiça de Paris, Depardon não faz senão aquilo que o título de outro grande filme dele revela. Donner la Parole, Dar a Palavra (a quem não tem). É, como dizem os franceses, ‘un grand monsieur’ (um grande senhor) de cinema

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