Retrospectiva celebra a obra de Jerry Lewis, o rei da comédia

CCBB de São Paulo reverencia o diretor e ator em grande mostra com exibição de 23 filmes essenciais de sua trajetória

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

02 Março 2015 | 03h00

Martin Scorsese fez dele um poderoso ator dramático em O Rei da Comédia. Explorou os aspectos mais neuróticos da personalidade do homem e do artista. Nada disso era novidade em 1983 – o Jerry sombrio alimenta a própria criação, em filmes como O Professor Aloprado, a primeira versão, de 1963, e Qual É o Caminho para a Guerra?, sua desmontagem do heroísmo, de 1970. Há um culto a Jerry Lewis. Leandro Hassum, rei das bilheterias no cinema brasileiro, coloca Jerry no seu panteão – e falou, em entrevista ao Estado, de sua imensa admiração por ele.


É tempo de reverenciar Jerry Lewis. A partir desta quarta-feira, 4, e depois durante todo o mês, até dia 30, o Centro Cultural Banco do Brasil promove uma grande retrospectiva para debater/reavaliar (incensar?) a obra de Jerry. Aos 88 anos, não está inativo – fez uma recente participação na comédia brasileira Até Que a Sorte nos Separe 2 –, mas há tempos não dirige. Não será a íntegra do ator/diretor/autor. O currículo de Jerry enumera cerca de 70 títulos, dos quais estão programados 23, um terço do total. Valerá a pena.

No ano passado, a Mostra celebrou os 60 anos da revista francesa Positif, com direito à presença do crítico que encarna o espírito da publicação, Michel Ciment, na cidade. O Museum of Modern Art, de Nova York, já havia editado um livro dez anos antes. Com apresentação de Ciment (quem mais?), Positif 50 Years é uma coletânea de ensaios sobre grandes diretores que marcaram o período. Robert Aldrich, Joseph Losey, Stanley Kubrick, Andrei Tarkovski e... Jerry Lewis. Robert Benayoun tripudia. Lembra que, em 1962, a jovem crítica francesa, incluindo luminares da Cahiers du Cinéma (e da nouvelle vague), promoveu O Terror das Mulheres e elegeu Jerry Lewis o homem do ano. Isso já era o que Positif vinha dizendo há cinco anos, desde que ele desfez a parceria com Dean Martin e fundara seu produtora.

Pode ser que o teor inicial do texto tenha a ver com a picuinha que, há décadas, divide as duas revistas francesas, cada uma querendo ser mais importante que a outra, como se o conceito de ‘autor’ no cinema não existisse sem Cahiers nem Positif. Mas é verdade que os franceses foram decisivos na valorização de Jerry. Nos EUA, ele podia ser um rei da bilheteria, mas ninguém, seriamente, o defenderia como ‘autor’. Era mais um ‘meninão’, título de um de seus filmes. No dueto com Dean Martin/Dino – o outro era o galã, e por isso mesmo tendia a ser mais considerado.

Surgiram no music-hall com uma fórmula que funcionava. Dino queria cantar, Jerry fazia de tudo para impedi-lo. A fórmula foi, de algum modo, levada para o cinema, explorada por diretores não dados a surpresas. A retrospectiva tem alguns filmes dessa fase, dirigidos por Hal Walker (Um Palhaço no Batalhão), George Marshall (Morrendo de Medo) e Norman Taurog (O Rei do Laço). Tem alguns dos que Frank Tashlin dirigiu com os dois – Artistas e Modelos e Ou Vai ou Racha. E, aí, algo ocorre. Quebra-se a parceria, cada um de seus integrantes consciente de que o outro não lhe permitia voar. Dean Martin foi ser ator dramático para grandes diretores – Vincente Minnelli (Deus Sabe Quanto Amei), Howard Hawks (Onde Começa o Inferno/Rio Bravo). Jerry tomou mais algumas lições com Tashlin, mas começou a dirigir, e com a liberdade outorgada pela própria unidade de produção dentro da Paramount.

Liberado o gênio, a crítica mais avançada deu-se conta de que o meninão, na verdade, era herdeiro da melhor tradição burlesca da comédia norte-americana. Como ator, produtor, diretor e roteirista, Jerry virou autor de uma obra fundada sobre preceitos rigorosamente críticos. Exercia a crueldade de fazer rir de si mesmo, era atraído pelo espetáculo, mas gostava de desmontá-lo, revelando seus bastidores – Jerry 8 1/2 -, gostava também de desdobrar-se numa multiplicidade de papéis (personagens) e seu humor era ao mesmo tempo verbal e visual.

O Mensageiro Trapalhão, O Terror das Mulheres, Mocinho Encrequeiro, O Professor Aloprado, O Otário, Uma Família Fuleira, Três Num Sofá, O Fofoqueiro, Qual É o Caminho...?, Uma Dupla em Sinuca – nem todos integram a programação, mas o que dela consta é muito rico. Em O Professor Aloprado, adaptando livremente O Médico e o Monstro, Jerry propôs sua psicanálise da ‘América’. Em 1959, numa entrevista pela TV, ele ousou defender a obscenidade como fundamental no equilíbrio psíquico do ser humano. Disse que era importante para o adulto como os contos de fadas para crianças – uma forma de enfrentar/burlar a opressão das convenções. Uma das joias de sua união com o diretor Tashlin é Cinderelo sem Sapato. Jerry é, ao mesmo tempo, Cinderelo e príncipe. Nesse caso, pode não ser obsceno, mas é esquizofrênico, o alimento para o rei da comédia de Scorsese. Ah, sim, as retrospectiva, só para lembrar, chama-se Jerry Lewis – Rei da Comédia.

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