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Retrato feito de música

É Tudo Verdade começa em São Paulo com 'Paulo Moura - Alma Brasileira', de Eduardo Escorel

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2013 | 02h10

Algo vai se passar hoje à noite na tela do Cine Livraria Cultura, na abertura do 18.º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade. O evento criado por Amir Labaki atinge sua maioridade. Neste tempo todo, Labaki e o público - e o É Tudo Verdade foi decisivo no processo - viram a cultura do documentário se estabelecer no País e no mundo. Antes ele ocupava um nicho pequeno, e era didático ou militante. Hoje Labaki é o primeiro a reconhecer que o documentário deixou de ocupar uma posição meio marginal e se deslocou para o centro da cultura, ficou cada vez mais rico em termos de diversidade e linguagem. O algo que vai se passar nesta noite diz respeito ao filme que ele selecionou para inaugurar o 18.º É Tudo Verdade.

Mas antes de falar do milagre de Paulo Moura - Alma Brasileira, da epifania que o filme de Eduardo Escorel provoca, é preciso acrescentar que o É Tudo Verdade começa amanhã no Rio com outro filme, Plimpton! Estrelando George Plimpton Como Ele Mesmo, de Tom Bean e Luke Poling. Emoção na abertura paulista, humor na carioca. Até dia 14, e antes de itinerar por Brasília e Campinas, o 18.º É Tudo Verdade mostra nas duas capitais 82 filmes de 26 países. Além das competições nacional e internacional e das seções já tradicionais - Estado das Coisas e Foco Latino -, o evento mantém o foco na política. Projeções e debates celebram o Jango de Sílvio Tendler e utilizam o filme e seus bastidores para antecipar a discussão sobre os 50 anos do golpe militar de 1964. E há a retrospectiva - Amir Labaki considera a deste ano a mais importante do É Tudo Verdade. Ele traz ao Brasil a obra de um dos pais do documentário, Dziga Vertov, incluindo O Homem com a Câmera, primeiro documentário a integrar a seleta lista dos dez maiores filmes de todos os tempos, na votação da revista Sight and Sound.

Tudo isso é estimulante, mas há, na abertura em São Paulo, o Paulo Moura, de Escorel, que se candidata, desde logo, ao título de um dos grandes documentários do cinema brasileiro. Inscreve-se numa linhagem que começou com Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, e prosseguiu com Santiago, de João Moreira Salles. Nos dois, você encontra, e não é mera coincidência, o nome de Escorel como montador. Foram filmes que nasceram sob o signo da dificuldade e até da impossibilidade. Para fazer o primeiro, Coutinho retomou uma ficção que havia ficado interrompida pelo golpe militar. E João também teve de retomar Santiago, porque num determinado ponto ficou bloqueado para prosseguir com o filme que, por meio da história do mordomo da família Salles, era também autobiográfico, mais do que pessoal.

Na abertura de Paulo Moura - Alma Brasileira, a tela preta propõe um desafio. O próprio Escorel conta como o projeto surgiu em sua vida, como levantou os recursos e como Paulo Moura foi internado e morreu - aos 77 anos, em 2010 -, antes que ele pudesse filmar. Ainda com a tela escura, Escorel se pergunta o que deveria ter feito - desistir? Foi o mesmo dilema de Wim Wenders, ao conceber seu documentário sobre Pina Bausch. Como se reinventa um filme que parece inviável?

Escorel perseverou e o resultado toca o sublime. Como ele conta numa entrevista por telefone, ninguém monta impunemente filmes como Cabra e Santiago, e antes deles, Terra em Transe, de Glauber Rocha. O cinema torna-se o próprio motivo dos filmes. Ele não queria fazer um documentário de arquivo, mas fez. Teve o privilégio de contar com material inédito cedido por Mika Kaurismaki, que utilizou pouco de sua entrevista com Paulo Moura para o documentário Brasileirinho.

Paulo fala de sua formação, das parcerias. Sua mulher, a psicanalista Halina Grynberg, abre uma caixa e complementa as lembranças com fotos e relatos. O que emerge disso tudo, e das reflexões em off de Escorel, é o retrato de um homem e artista que foram extraordinários. Zuza Homem de Mello, com sua autoridade, apresenta Paulo Moura como o maior nome da música instrumental brasileira. O artista que fez o casamento do popular com o clássico, que misturou samba, forró e jazz. Ele tinha 24 anos quando, em 1957, fez sua gravação do Moto-Perpétuo, de Paganini, que virou clássica.

Prepare seu coração para momentos ainda mais brilhantes. No Festival de Lagos, Paulo Moura toca Manhã de Carnaval. No Teatro Municipal do Rio, é o Concerto para Clarinete em Lá Maior, K. 622, de Mozart. Essa ponte do popular e do erudito, só um apaixonado poderia fazer. E Paulo Moura fez.

Clarinetista, saxofonista, compositor, arranjador e regente, Paulo Moura tem 25 músicas apresentadas no documentário. Elas terminam por ilustrar não apenas o grau de exigência do artista, mas o próprio título - Alma Brasileira, que Paulo expressou musicalmente. O documentário é político, porque conta uma história do Brasil atravessando os anos JK e a ditadura militar. Paulo lembra o racismo que obrigava músicos negros a alisar o cabelo. Mas não é o que se poderia definir como documentário militante, no sentido da política, nem um documentário musical como os outros. É mais rico, complexo, e essa complexidade vem da persona do focalizado e também do tratamento - amoroso? - que Eduardo Escorel faz de sua vida e arte.

O diretor conta que, num primeiro momento, diante do inevitável, chegou a pensar em desistir, mas foi dissuadido pelos que lhe diziam que, se fizesse isso, estaria matando Paulo Moura de novo. Não era, talvez, o filme que Escorel queria, mas foi o possível e saiu muito melhor que a encomenda. No Facebook, ele registra - "Recebi a escolha do filme para a abertura como a maneira de o Festival se associar ao tributo prestado no documentário a Paulo Moura por mim, pela equipe e por todos que colaboraram com sua realização. Gostaria que a noite de abertura e as outras exibições no Festival fossem uma celebração coletiva da música de Paulo. Acredito que essa seja a melhor maneira de lembrar dele e prestar o tributo que merece."

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