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Retrato do traficante Pablo Escobar, sem nenhum romantismo

Diretor italiano Andrea Di Stefano apresenta um filme diferente, estrelado por Benicio Del Toro

Mariane Morisawa - Zurique, Especial para O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2014 | 02h05

Morto há 20 anos, Pablo Escobar, provavelmente o maior chefão do tráfico de drogas da história, finalmente chega ao cinema de ficção com Escobar: Paradise Lost (Escobar: Paraíso Perdido, em tradução livre do inglês), dirigido por Andrea di Stefano. O filme, que traz Benicio del Toro no papel do colombiano, foi exibido no 10º Festival de Zurique, encerrado no início do mês.

Na trama, o surfista canadense Nick (Josh Hutcherson, o Peeta da série Jogos Vorazes) acampa numa praia colombiana com o irmão Dylan (Brady Corbet) e se encanta por Maria (Claudia Traisac), sobrinha de Escobar. No começo, Nick acha o tio simpático e divertido. Só com o tempo percebe a violência com que toca seus negócios. Paradise Lost foca nos últimos anos de Escobar, desde que ele se lançou em carreira política até sua prisão, em 1992.

Não se trata, portanto, de uma biografia tradicional, para sorte de Benicio del Toro, que foi contratado menos de três meses antes das filmagens. "Se fosse uma biografia completa, precisaria de mais tempo para me preparar", explicou em entrevista durante o festival.

Claro que o ator leu o que foi possível e aprendeu o sotaque da região de Medellín. "A pesquisa que pude fazer mudou o que eu pensava sobre ele porque descobri mais, porém não alterou meu veredito final", afirmou Del Toro.

Mas ele compreendeu por que alguns colombianos tinham Escobar como santo. "É preciso se colocar no lugar dessas pessoas. Ele prestou atenção nessa gente, construiu hospitais e bairros inteiros. Se você não tem nada, quem te dá um pão é um santo."

No passado, houve tentativas de levar a história de Pablo Escobar para o cinema, uma delas pelas mãos de Oliver Stone. Acabou sobrando para o italiano Andrea Di Stefano, ator de O Príncipe de Homburg, de Marco Bellocchio, e Comer, Rezar, Amar, de Ryan Murphy, em sua estreia na direção de longas-metragens, dar o pontapé inicial numa série de obras sobre o personagem, incluindo um longa estrelado por John Leguizamo e uma série para o Netflix dirigida por José Padilha e protagonizada por Wagner Moura, que deverá estrear no próximo ano.

"É muito difícil conseguir fazer uma biografia de um personagem assim, porque em duas horas é necessário dar conta de um cara que foi do contrabando para o tráfico, tentou a política, tornou-se o homem mais caçado do mundo, foi para a prisão, fugiu, voltou a ser o homem mais procurado do mundo e acabou morto", explicou.

Sem romantismo. Influenciado por A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo, pelo cinema italiano de Vittorio De Sica, por Francis Ford Coppola e Akira Kurosawa, Di Stefano afirmou que não quis romantizar o gângster. "Queria que fosse bem cru. Então é um filme de gângster muito estranho."

É uma produção sobre Pablo Escobar que não tem cocaína, em que os diálogos são em espanhol quando Escobar fala com alguém de língua espanhola e que não exibe a violência - há as pessoas atirando e as pessoas mortas, mas não cenas das mortes. "Todo o mundo queria o Scarface 2", disse Di Stefano. "Mas Escobar não era Scarface. Nunca cheirou cocaína, por exemplo. Existem muitas coisas da sua personalidade que as pessoas nem imaginam."

Para o diretor, a razão para a queda de Pablo Escobar foi seu confronto com o governo colombiano. Por isso, ele não vê chance de que seu país, a Itália, passe por um processo de desmantelamento do crime organizado parecido com o da Colômbia. "Os cartéis antagonizavam o governo. Infelizmente não temos o mesmo problema com a máfia, porque a máfia dá um jeito de estar no governo."

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