Walt Disney Studios
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Respondendo às muitas perguntas sobre 'The One and Only Ivan'

No filme, um gorila silverback se torna um animal politizado com relação à sua prisão e expressa sua indignação por meio da arte. Quão inteligentes são esses animais?

Amy Nicholson, The New York Times

26 de agosto de 2020 | 10h00


Pode um gorila imitar Bansky? Este é o plano do novo filme da Disney, The One and Only Ivan, inspirado na história real de um gorila Silverback (considerado o maior da sua estirpe) que passou 20 anos intimidando as crianças num shopping em Tacoma, Washington.

No filme, ele se torna um animal politizado com relação à sua prisão e expressa sua indignação por meio da arte. Dirigido por Thea Sharrock e baseado no livro premiado de Katherine Alice Applegate que tem o mesmo título, esta narrativa é muito doce comparada com o real Ivan no documentário de 1991, intitulado The Urban Gorilla, que o tornou célebre. Este Ivan animado por computador consegue falar por si mesmo (na voz de Sam Rockwell). Como tentativas legais na Alemanha, Argentina e Ilhas Baleares estabeleceram precedentes que poderiam transformar um primata num futuro combatente pelos direitos civis, quanto existe de ficção em comparação com os fatos? Vamos responder a isto e outras perguntas abaixo.


 


 

Ivan é o estereótipo de que os gorilas silverback são arrogantes e irados. Serão eles realmente a mais violenta espécie de gorilas?


Em primeiro lugar eles não não são uma espécie. O gorila Silverback é a descrição literal de um gorila macho cuja pelagem negra começa a ficar cinzenta nos ombros e na coluna, o que ocorre quando ele tem em torno de 13 anos de idade. Mas, se por um lado chamar um humano de “barba grisalha” ou “cabelo azul” é um insulto, “silverback” é sinônimo de “Alfa” e na sociedade dos gorilas, idade se equipara a status. Em vez de procurar tinta de cabelo, um silverback desfruta de um harém de fêmeas, ao passo que os machos mais jovens se escondem no exílio. Um silverback combate tropas rivais e punks juvenis que querem tomar o poder, mas não é nenhuma ameaça particular para os humanos.


 

Certo, Ivan cresceu ligado afetivamente ao seu proprietário, Mack (Brian Cranston), que o leva ao drive-in para assistir filmes da Disney, como 'Robin Hood'. Assim, nos anos 1970, você podia adotar um gorila?


Em 20 Estados (nos Estados Unidos) você ainda pode - se tiver permissão. Os bebês gorilas não foram tão vitimizados pela loucura com os primatas nas décadas de 1960 e 1970, como os chimpanzés e bonobos, quando macacos bebês eram criados como crianças por cientistas bem-intencionados. Mas, já adultos, os confusos animais eram enviados para zoológicos e santuários, onde sua própria raça os rejeitava como geeks incômodos.

The One and Only Ivan reconhece a síndrome de Estocolmo, que surge quando um animal inteligente cria um vínculo com o seu captor na ausência de animais da sua própria espécie. Apesar do filme propiciar um final feliz para sua estrela, o Ivan real lutou para se aclimatar no meio dos seus camaradas gorilas no zoológico. Não obstante a prestigiada cor da sua pelagem, ele era motivo de zombaria, era ignorado pelas fêmeas e os tratadores fofocavam sobre o quão raramente ele se acasalava. Primatas criados em casas de humanos também assimilam vícios como comida não saudável e álcool. Ivan era fanático por cigarros. (Pais, não se preocupem. No filme ele é viciado apenas em pintar com os dedos).


 

Ivan quer entrar no circo de Mack para ganhar mais dinheiro. Gorilas entendem de economia?


Provavelmente. Os primatas sabem o que é moeda. Chimpanzés foram educados para saber a importância de moedas de 100 ienes, que trocam por macacos. Os chamados macacos prego, ou mico preto, aprendem rapidamente a calcular, apostar e tramar um assalto a banco (além de reinventar a mais antiga profissão do mundo). E quando macacos indonésios selvagens perceberam que objetos não comestíveis tinham valor para os humanos, eles planejaram roubar chapéus, óculos de sol e câmeras, que devolviam mediante o pagamento de um resgate em biscoitos.

 

Mas esses não são gorilas. Gorilas são macacos enormes - então, não deveriam ser mais inteligentes que um macaco?


Provavelmente. É difícil ter provas. Letárgicos e menos motivados por prêmios em comida, os gorilas são os que ficam no fundo da sala de aula e se recusam a responder às perguntas. Por exemplo, ao passo que os orangotangos, os bonobos, chimpanzés e bebês humanos passaram todos no teste do espelho - a capacidade de se reconhecerem numa imagem plana - os gorilas foram inconclusivos. Sua paranoia do contato visual agressivo faz com que eles se recusem totalmente a olhar num espelho. A capacidade fictícia de Ivan de reconhecer sua imagem nos cartazes e na TV é singular, com uma exceção célebre: Koko a gorila, que fotografou seu próprio autorretrato num espelho, uma foto que foi capa da National Geographic. Mas a proeza de Koko provou ser singular e suspeita.

 

Ótimo. Mas gorilas conseguem realmente pintar?


Claro. Como também gatos, cachorros, golfinhos, cavalos, elefantes, rinocerontes, girafas, esquilos, morcegos, porcos, papagaios, tartarugas, leões marinhos, cobras e baratas. Embora não se tenha observado gorilas pintando com lama na natureza, como Ivan faz no filme - e sua obra-prima climática, que lembra o Campo de Trigo com Corvos seja incomparável - zoológicos descobriram que cada criatura animal é um artista incipiente, basta ter um pincel na boca ou tinta nos pés. Esta explosão de arte abstrata animal - que pode ser equiparada mais a trabalhos de Franz Kline e Wassily Kandinsky do que aos de Picasso ou Jackson Pollock, é boa para as lojas de presentes dos zoológicos. Mas um gorila é criativo conscientemente? Sim, no caso de Koko e seu companheiro Michael, que usavam linguagem de sinais para dar às suas obras títulos descritivos como Bird (Pássaro), Toy Dinosaur (Dinossauro de brinquedo),  Stink Gorilla More (Gorila fedorento) e Pink Pink Stink Nice Drink (Bebida rosa que fede).

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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