Reprise de "Quanto Mais Quente Melhor" homenageia Billy Wilder

É um privilégio ver Quanto Mais Quente Melhor (Some Like It Hot) pela primeira vez e, se esse for o seu caso, prepare-se para rir muito do humor mais inteligente, cínico e de duplo sentido do cinema. Além de tudo, o Cinesesc, que mostra o filme a partir desta quinta-feira, exibe a cópia nova em 35 mm, que faz justiça à esplêndida fotografia em preto-e-branco de Charles Lang Jr. Se você viu e quer rever o filme de 1959, dirigido por Billy Wilder (que morreu há dois meses), sabe que se trata de uma experiência inesquecível.O tema é pura e simplesmente sexo. Mas o filme finge que é sobre crime e gângsteres, sobre cobiça. Joe (Tony Curtis, segunda opção de Wilder, após Frank Sinatra) e Jerry (Jack Lemmon) são dois músicos de Chicago que vivem na maior dureza. Por acaso, são testemunhas de uma das grandes chacinas da época da Lei Seca, que ficou conhecida por Massacre do Dia de São Valentim, nos anos 30. Fogem para sobreviver e a situação deles piora ainda mais quando Joe empenha seus sobretudos _ é um fevereiro gelado _, pois tem um palpite "infalível" para apostar numa corrida de cães.A saída surge na forma de uma orquestra de garotas que está indo para a Flórida. Joe e Jerry se vestem de mulher, tornam-se Josephine e Daphne, e logo o primeiro está apaixonado por Sugar Kane (Marilyn Monroe), a cantora e tocadora de ukelele, que sonha casar com um milionário. Joe quer ganhar a moça e se disfarça de milionário sensível e incapaz de ser conquistado. Sugar faz a sua parte, de olho na fortuna dele, mas, como boa moça de coração de ouro num corpo sexy, apaixona-se por ele.Enquanto isso, Jerry/Daphne também vê surgir sua chance de casar com um milionário (Joe E. Brown). "Você não é uma garota!" , reclama Joe. "Você é um homem! Por que é que um homem iria casar com outro?", Jerry responde com toda seriedade: "Segurança!"Quanto Mais Quente Melhor tem sido comparado aos filmes dos irmãos Marx, sobretudo por causa das perseguições divertidas dos vilões aos heróis em corredores de hotéis. Mas, ao contrário dos filmes dos Marx, aqui os musicais não atrapalham _ a cantora é Marilyn, que sabia valorizar, com sua vozinha, as letras das canções.Cantando, por exemplo, I Wanna Be Loved by You, ela está ali no palco, mas Billy Wilder transforma tudo numa espécie de strip-tease em que a nudez seria apenas supérflua. Marilyn num vestido transparente, com renda cobrindo os seios, ondula iluminada por um spot que não pára quieto, como se fosse um decote extra que sobe e desce pelo corpo dela com precisão, digamos, estimulante. O tempo todo ela aparentemente não percebe o efeito. É um exemplo perfeito da química sexual que havia entre a câmera e Marilyn (que filmou grávida e depois abortou).Mas nem só de química se fez esse filme. Marilyn quase enlouqueceu todo mundo nas filmagens. Wilder, que queria Mitzi Gaynor em vez dela, primeiro teve de convencê-la que o filme não poderia ser colorido (a estrela tinha, em contrato, a cláusula de que só filmaria em cores), pois a maquiagem de Tony Curtis e Jack Lemmon ficaria esverdeada se as imagens não fossem em preto-e-branco.Foram 47 tomadas para Marilyn conseguir dizer a frase "It?s me, Sugar" (Sou eu, Sugar) corretamente. Depois da trigésima vez, Wilder mandou escreverem a fala numa lousa. Depois, em outra cena, a loira precisava remexer nas gavetas e dizer: "Onde está o bourbon?" Depois de 40 tomadas de "Onde está o uísque?", "Onde está o bombom?" e "Onde está a garrafa?", Wilder colou a frase certa numa das gavetas. Aí, Marilyn não acertava a gaveta. O diretor, resmungando palavrões em alemão _ uma língua em que eles ficam mais eficientes e assustadores _, mandou colarem a frase em todas as gavetas. A 59.ª tomada saiu perfeita.Curtis, após dezenas de tomadas de beijo, disse que "beijar Marilyn era como beijar Hitler"_ frase que desmentiu muito mais tarde. Mas, ao se ver o filme, na cena do "Onde está o bourbon?", ela está absolutamente natural. E na cena do beijo, a bordo do iate, Sugar beija Joe, disfarçado de dono da Shell (imitando Cary Grant, que, por falar nisso, detestou a paródia), com ternura e carinho, como que querendo curá-lo da suposta indiferença do personagem às mulheres.O roteiro de Wilder e I. A. L. Diamond já foi até chamado de shakespeariano, por ir e vir da alta à baixa comédia, dos heróis aos palhaços. Há muito duplo sentido, piadas ruins, mas quando o filme é divertido raramente tem um competidor (não à toa foi considerado a melhor comédia de todos os tempos numa eleição recente do American Film Institute). Ele brinca com a idéia de que, se Joe faz seu travesti por razões circunstanciais _ e acaba, como Josephine, beijando Sugar e sendo reconhecido por ela, mesmo sob aqueles cílios postiços e batom, como o homem que ama _, Jerry é um homem que ambiciona o que considera a boa vida das mulheres, sobretudo com um milionário ao seu lado.Após um tango caliente em que a rosa que Daphne levava na boca aparece na boca do ricaço que a cobiça, Jerry revela a Joe que está noivo/a. Joe pergunta: "Mas o que vocês vão fazer na lua-de-mel?" A resposta: "Ele quer ir para a Riviera, mas eu prefiro ficar em Niagara Falls." Joe pergunta se o presente de noivado, uma pulseira de diamantes, é verdadeira. Jerry/Daphne retruca, chocada: "Claro, pensa que meu noivo é um vagabundo?"O plano dele é contar a verdade após o casamento e sair com uma pensão alimentícia confortável. Mas as desilusões surgem: Sugar apaixona-se, mas por um saxofonista, como seus namorados anteriores. Daphne conta a verdade para Osgood, seu milionário, e recebe uma resposta inesperada (que é a maravilhosa última frase do filme, que deve ser ouvida dele mesmo, por quem nunca viu). Em resumo, a idéia de Wilder e Diamond é a de fazer o público achar que o mundo está saindo do controle, que as coisas _ embora de um jeito leve e divertido _ viraram de pernas para o ar. Conseguiram.

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