Filmes de Plástico
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Representante do Brasil em Sundance, ‘Marte Um’ fala sobre possibilidade de sonhar

No longa-metragem de Gabriel Martins, que centra em uma família negra e periférica, um garoto sonha ir para Marte

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

21 de janeiro de 2022 | 15h33

Menino pequeno ainda, aos 9 anos de idade Gabriel Martins desenhou-se em uma cadeira de cineasta, alto-falante na mão, diante da cena que dirigia, com um balãozinho de diálogo que dizia: “Realizei meu sonho”. Corta para janeiro de 2022, quando o diretor, aos 34, apresenta seu primeiro longa solo, Marte Um, na competição internacional do Sundance Festival, que começa hoje e vai até o dia 30, em formato virtual devido ao avanço da variante Ômicron nos Estados Unidos. 

“É uma coisa gigante para um filme independente. Conseguir um nível de atenção como esse é uma honra”, disse Martins em entrevista ao Estadão, por telefone, de Contagem, Minas Gerais. Marte Um, que teve exibição oficial na noite de quinta e está disponível até segunda-feira, tem esse título porque Deivinho (o estreante Cícero Lucas), um garoto da periferia, sonha em se tornar astrofísico e participar do projeto de colonização do Planeta Vermelho. “Quando falo sobre sonho no filme, falo com propriedade. Nunca quis ser outra coisa que não diretor de cinema”, disse Martins, explicando que nunca houve motivo muito claro para isso. Não havia cinema perto de sua casa, nem curso, nem câmera. “Acho que meus filmes sempre vão estar perto de uma coisa sincera de vida. Mesmo que não seja exatamente o que eu vivi, mas sempre vai estar circulando algo que vi ou senti. Como é o primeiro longa que eu dirijo sozinho, acho que teve uma coisa de eu me debruçar mais sobre essas experiências”, afirmou o cineasta, que tinha dirigido No Coração do Mundo (2019) em parceria com Maurílio Martins. O longa participou do Festival de Roterdã. 

Gabriel Martins acredita que a comunicação de Marte Um no exterior – além da seleção para Sundance, o filme fechou com a agência de vendas internacionais Magnolia Pictures – venha justamente desse componente do sonho. “E sonho em um sentido muito grande de querer atingir outros lugares que às vezes não parecem possíveis dependendo de onde a gente está e da circunstância em que a gente está”, explicou. “No caso do personagem do Deivid, é um garoto negro, periférico, que sonha fazer parte de uma missão para outro planeta. É um sonho literalmente distante, geograficamente, mas distante também em outros aspectos em relação ao acesso a esse sonho. Mas, mais importante que ele conseguir ou não, é essa potência de ele sonhar. Eu acho que isso talvez contagie.”

Marte Um não é apenas sobre a possibilidade e o direito de sonhar. O filme abre com os fogos e gritos pela vitória de Jair Bolsonaro. A eleição foi incorporada no momento da filmagem. “Foi uma eleição que mexeu muito com o emocional e com discussões sobre feminismo, raça, machismo”, explicou Martins. “O Bolsonaro, como político, representa uma tensão muito grande dessas coisas. Querendo ou não, isso entra no filme.” 

Porque Deivinho é parte de uma família negra, periférica, em que cada membro também está enfrentando uma série de questões. Sua irmã Eunice (Camilla Damião) se apaixona por outra garota, o que provoca certa tensão na família. A mãe, Tércia (Rejane Faria), passa por uma crise existencial. O pai, Wellington (Carlos Francisco), que frequenta reuniões do Alcoólicos Anônimos, é porteiro e sonha que Deivid se torne jogador de futebol. “É um filme sobre estar vivo, no mundo de hoje, em que nem sempre os acontecimentos e o contexto são favoráveis à felicidade”, disse Martins. “Mas de alguma forma os personagens seguem buscando.”

Marte Um apresenta algo ainda raro no audiovisual brasileiro (e mundial): uma história com uma família negra no centro, cercada de amigos e vizinhos negros, mas cuja existência não se resume à violência, ao racismo e ao trauma, que o filme também não evita. Mas Deivinho, Eunice, Tércia e Wellington têm direito a uma existência completa, com alegrias, tristezas, preocupações, questionamentos existenciais, como todo o mundo. 

O longa-metragem foi realizado graças a um edital de Baixo Orçamento para Longa Afirmativo, para cineastas negros e negras. Foi o único edital do tipo realizado, em 2016. Desde então, o setor audiovisual sofre com a falta de incentivos e uma quase paralisação. Gabriel Martins lamentou o atual estado das coisas. “O filme foi selecionado para um dos festivais mais importantes do mundo. Essa seleção implica em uma repercussão midiática muito forte. Ou seja, existe um interesse pelo cinema brasileiro e por um filme como este. E, com o que começou a acontecer no governo Temer e culminou no governo Bolsonaro, se eu tivesse de fazer hoje, Marte Um simplesmente não existiria. Eu não sou o único diretor brasileiro com talento suficiente para chegar a um festival como Sundance. A vontade é que não seja uma exceção.”

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