Renée Zellweger é a "Enfermeira" de LaBute

Neil LaBute virou uma figura polêmica do cinema americano quando Na Companhia dos Homens desencadeou uma campanha furiosa das feministas dos EUA, em 1997. As lésbicas queriam matá-lo por seu retrato ácido da guerra dos sexos - que LaBute não inventou, claro. Deve ter surgido com Adão e Eva, embora Choderlos de Laclos a tenha descrito magistralmente num romance epistolar do século 18, Ligações Perigosas, que Roger Vadim, Stephen Frears e Milos Forman adaptaram para o cinema. Na Companhia dos Homens era misógino a mais não poder. Seu retrato dos executivos yuppies que abusavam da pobre surdinha era tudo, menos politicamente correto. LaBute resolveu mudar. Em termos. Adoçou sua guerra dos sexos, mas continua convencido de que homens e mulheres são opostos que precisam se chocar, antes de se completar.Estréia amanhã em São Paulo o novo filme do diretor, A Enfermeira Betty. O filme ganhou o prêmio de melhor roteiro em Cannes, no ano passado, atribuído pelo mesmo júri - presidido por Luc Besson - que deu a Palma de Ouro a Dançando no Escuro, de Lars Von Trier. O prêmio de roteiro não é freqüente no festival. Só é atribuído quando o júri entende que um filme merece de forma muito especial a honraria. Mais até que o prêmio de roteiro, o filme poderia aspirar ao de melhor atriz, mas era o ano de Björk e ela ganhou por unanimidade. Pior para Renée Zellweger, que faz a enfermeira. Depois de Jerry Maguire - A Grande Virada e O Diário de Bridget Jones, não há mais dúvida que ela tem beleza e talento harmoniosamente distribuídos. O humor de Bridget Jones é romântico, o de A Enfermeira Betty é permeado da crueldade que o diretor não abandonou, só tenta disfarçar. À falta de uma definição melhor, digamos que sua comédia é de humor negro.Para começar, Betty não é enfermeira, mas garçonete. Cecília, a personagem de Mia Farrow, também era garçonete em A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen, lembram-se? Cecília tentava fugir ao vazio de sua vida no escurinho do cinema. Betty prefere a TV, mais exatamente uma série que tem Greg Kinnear no papel de médico charmoso. Uma noite, enquanto tenta assistir ao seu programa preferido, Betty vê o marido ser assassinado. Ela entra em surto e foge, duplamente - põe o pé na estrada, perseguida pela dupla de assassinos (Morgan Freeman e Chris Rock) e foge à realidade, passando a viver num universo de fantasia, onde é a enfermeira Betty decidida a voltar para o amor de sua vida, que não é outro senão o doutor Kinnear.Pode ser que o roteiro não seja tão bom a ponto de justificar um prêmio em Cannes, mas tem engenho suficiente para estimular um diretor esperto como LaBute. Ele trabalha razoavelmente os planos da realidade e da fantasia, trafega entre o humor grotesco e o pathos dos personagens, mas à força de tanto se policiar perde um pouco o ímpeto ao falar das relações de força, da guerra entre homens e mulheres, que permanece, como tema irresolvido, no centro do filme. A relação de Betty com o velho assassino pedia mais intensidade. Mas Renée é ótima. Merece o Globo de Ouro de melhor atriz de comédia que recebeu pelo papel de louquinha mansa confrontada com a insanidade do mundo.A Enfermeira Betty (Nurse Betty). Comédia Dramática. Direção de Neil Labute. EUA/2000. Duração: 112 minutos. 14 anos.

Agencia Estado,

27 de setembro de 2001 | 17h39

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.