Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Renato Aragão estreia o 50º filme, 'Saltimbancos Trapalhões' e já anuncia o 51º

Depois de lotar tantos cinemas e estabelecer parâmetros de bilheteria no Brasil, humolrista não está mais preocupado com números

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

08 Janeiro 2017 | 05h00

RIO - Comemoram-se em março 300 anos do surgimento da relíquia e do início do culto a Nossa Senhora em Aparecida. Durante o ano todo o santuário está em festa e, também a partir de março, Renato Aragão integra-se às festividades. Em outubro de 1999, ele encarou a maratona de 130 km a pé, indo de Arujá, em São Paulo, até a basílica, para agradecer as doações feitas durante a 14.ª edição da campanha Criança Esperança, do Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef. Na sala da casa do trapalhão, sua mulher, Lílian, aponta quadros e objetos. O trapalhão pendurado num helicóptero, na mão do Cristo Redentor.

“Tudo isso vai para uma exposição”, ela diz. Logo na entrada da casa, num condomínio da Barra, há um santuário cheio de relíquias e devoções. Imagens de São Francisco de Assis, de Santo Antônio. Seu irmão é Francisco e ele é Antônio Renato, mas o próprio trabalhão brinca - “Meu nome deveria ser Antônio Renato Didi Mocó Esperança Aragão. Sou um eterno otimista torcendo pelo Brasil.” Na quinta-feira à tarde, 5, o calor carioca fica do lado de fora. Na portaria do condomínio, o funcionário libera o repórter para ir à casa do ‘Dr. Renato’. Não é simples deferência. A gente até esquece, mas antes de virar o trapalhão mais amado do Brasil, Didi, vamos nomeá-lo pelo apelido carinhoso, formou-se em Direito. Mas Dr. Renato nunca exerceu.

Ainda cursava a universidade quando o surgimento da TV no Nordeste - a TV Ceará - o desviou da rota prevista. Fez um curso de diretor e roteirista, mas terminou virando ator. Tudo isso foi há muito tempo, mas agora, décadas mais tarde, Didi vive a expectativa de um novo lançamento. Em 1981, e com direção de J.B. Tanko - que assinou oito filmes, incluindo alguns dos maiores sucessos dos Trapalhões -, ele fez Os Saltimbancos Trapalhões. Há 35 anos... No próximo dia 19, uma nova versão estará chegando aos cinemas do Brasil. Os Saltimbancos Trapalhões - Rumo a Hollywood. O novo filme, com direção de João Daniel Tikhomiroff, retoma as canções de Chico Buarque, mas agora num novo conceito.

Um musical, primeiro testado no teatro e que agora ganha a tela. O velho circo de Didi e Dedé (Santana) está à beira de fechar. Já que os circos não podem mais ter números com animais, Didi bola o espetáculo em que os humanos dão voz aos bichos. Didi e Dedé retomam suas trapalhadas, mas agora é um elenco jovem que canta e dança, incluindo Letícia Colin e Livian Aragão. O repórter desculpa-se pela pergunta que não quer calar. Livian não era nada boa quando fez com o pai O Guerreiro Didi e a Ninja Lili, em 2008. Algo se passou, porque ela não está apenas mais. É talentosa - de verdade. A mãe coruja conta tudo - “Ele foi estudar interpretação em academias de Nova York, Los Angeles e Londres.” E o pai - “Fala um inglês fluente.” Livian já está sendo chamada para testes nos EUA.

De cara, e para justificar o título - Rumo a Hollywood -, Didi sonha com a glória do Oscar, que será atribuído por... Dan Stulbach, na pele de um apresentador gringo. Nos anos 1940 e 50, houve o que não deixava de ser uma escola de cinema no País, e era a Atlântida, que praticava uma estética da paródia, como resistência a Hollywood. Pois apesar do título, a reviravolta do novo Saltimbancos Trapalhões vem expressa na letra de uma canção - Hollywood é aqui! Lílian reforça. “É o que Renato vive dizendo a Livian. Ela pode fazer todos os cursos do mundo lá fora, mas seu compromisso deve ser aqui.” Dos filhos deste solo és mãe, gentil, pátria amada - Brasil! “Sou PMB, Partido pela Melhoria do Brasil”, diz o trapalhão.

Depois de lotar tantos cinemas e estabelecer parâmetros de bilheteria no Brasil, Renato Aragão não está mais preocupado com números. “Faço porque gosto, porque espero agradar, mas não penso no retorno como número. Já me preocupei mais com isso. Fiquei muitos anos fazendo só TV. Não tinha tempo de pensar em cinema. Mas o Saltimbancos foi tão bacana no teatro... Deu vontade de novo.” Anos atrás, após um hiato, houve O Noviço Rebelde. “O público não compareceu, mas em toda parte o carinho das pessoas era enorme. Só não se traduziu em ingressos. Nossa parte está feita, agora é torcer.” O filme é o 50.° de Didi. O repórter pega a deixa - “Então precisamos ter o 51.” Afinal, o cinema é uma cachaça e 51 é uma boa ideia. “Já está a caminho”, anuncia Didi. Depois de muito negociar, ele dá uma palinha. Vai se chamar O Fantasma do Teatro, e será outro musical.

E ele estará no elenco? “Claro!” Mas então tem de ser como James Bond. Tem de ter 007 no título. “E tem, vai ser Didi e o Fantasma do Teatro.” A propósito de 007, Didi conta uma história engraçada. Roger Moore, que fez o papel, e ele são embaixadores da Unicef. Certa vez, foram a Sobral, no Ceará, para comemorar a queda da mortalidade infantil, só a partir da receita do soro caseiro divulgada pelo Criança Esperança. “No aeroporto havia uma monte de gente esperando pelo ‘Rogério Moura’. Ele desceu e ia cumprimentando. ‘Meu nome é Bond.’ Eu ia atrás e dizia - ‘O meu é Didi Mocó.’ Todo mundo ria e o Roger quis saber do quê.”

O tempo passa, Renato Aragão faz 82 anos no dia 13. Ofende-se se alguém lhe fala em aposentadoria. “Faço o que gosto e é distribuir alegria. Isso não tem preço.”

Obrigação de cantar quase tirou Ara

Por pouco Renato Aragão não desistiu de estrear no teatro com Os Saltimbancos Trapalhões - O Musical, em 2014. O motivo: ter de cantar. “Foi o mais difícil”, contou ele ao ‘Estado’, na época. “No início, relutei, ameacei desistir, até pedi que colocassem playback, mas, diante de uma banda que se apresenta ao vivo, não tive escolha e cedi."

Criado por Claudio Botelho e Charles Möeller, o espetáculo era diretamente inspirado no filme dirigido por J. B. Tanko em 1981. "Ao adaptar para o palco, fizemos algumas modificações", contou Möeller. "Agora, Didi encontra o conto dos Irmãos Grimm ('Os Músicos de Bremen') dentro de uma garrafa e resolve encená-lo como um musical, que se transforma em um fenômeno popular."

"A disciplina de palco foi o elemento mais difícil: saber por onde entrar e sair", contou Renato Aragão. / UBIRATAN BRASIL

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