Juan Guerra|Estadão
Juan Guerra|Estadão

Renata de Almeida avalia a 39.ª Mostra Internacional de Cinema

Organizadora afirma que evento foi grande e já prepara o próximo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2015 | 03h00

Agora é realmente o fim. A 39.ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo termina oficialmente nesta quarta-feira, dia 11, último dia da repescagem que ocorre em apenas uma sala, o Cinesesc. A Mostra ainda terá algumas itinerâncias, mas a 39.ª edição entra para a história e Renata de Almeida já começa a pensar no ano que vem. Será a 40.ª Mostra. “Que responsa, hein!’, ela observa. Neste momento, ela confessa que ainda está tão cansada – exausta de toda a maratona – que mal consegue coordenar as ideias. A Mostra entra nos ‘enta’. “Só sai deles nos 100”, brinca.

Algumas coisas começam a se desenhar no horizonte que ainda parece distante. “Vamos ter uma parceria com a Suíça, para discutir acordos de coprodução com o Brasil”, anuncia. A vinda de Margareth Bodde fortaleceu o vínculo com a The Film Foundation, de Martin Scorsese. “Já vínhamos conversando sobre a homenagem desde o ano passado, mas foi importante ela ter conhecido a Mostra. Margareth entusiasmou-se com os contatos que fez e a receptividade do público. Acredito que nossa parceria, que era pontual, relativa a alguns filmes específicos, poderá ser aprofundada. Vamos ter mais obras restauradas, mais cinemas de arquivo, e isso será muito bom para os cinéfilos”, avalia Renata.

Justamente nesta quarta-feira, a Mostra apresenta a versão restaurada de A Grande Guerra, comédia de 1960, interpretada por Alberto Sordi e Vittorio Gassman e que integrou a programação comemorativa do centenário do mestre italiano Mario Monicelli. A Grande Guerra foi restaurada pela Film Foundation em associação com a Cineteca de Bologna, por meio do laboratório Immagine Ritrovata. Outra atração de hoje será o média-metragem de Manoel de Oliveira Visita ou Memórias e Confissões, que o grande cineasta realizou no começo dos anos 1980, mas depositou na Cinemateca Portuguesa, para ser divulgado apenas após sua morte, que ocorreu este ano, em abril – Oliveira já estava com 106 anos.

A Grande Guerra se inscreve na grande tradição da comédia italiana, que, em realidade, é uma tragicomédia. Os dois soldados, Sordi e Gassman, são covardes que fogem dos combates e fazem de tudo para permanecer vivos. São um pouco as circunstâncias que os obrigam, apesar de tudo, a ser heróis. Visita é sobre a viagem sentimental que Oliveira faz a uma casa em que viveu por muitos anos e que foi forçado a vender, num momento de dificuldade financeira. Na casa ele viveu, teve seus filhos, escreveu os filmes. São décadas de lembranças que se transformam em confissões. Os outros dois programas do dia são o argentino Nós, Eles e Eu, de Nicolás Avruj, e Pixadores, produção da Finlândia dirigida pelo iraniano Amir Escandari.

O cineasta iraniano, que mora em Londres, documenta a arte de quatro pichadores paulistas em choque com a curadoria e a polícia alemãs. Como eles não respeitaram o espaço delimitado pela 7.ª Bienal de Berlim, formou-se a confusão. “Eles acharam que a gente ia ser mais um animalzinho na gaiola deles”, diz Djan ‘Cripta’ Ivson, reconhecido em São Paulo como porta-voz da Pixação (com X), movimento que tem feito do concreto da cidade o caderno de uma grafia que muitas vezes desafia e contesta o senso estético. O argentino, de ascendência judaica, reconstitui o período em que viveu em Israel e na Palestina, onde os choques de autoridade e identidade também são diários.

Renata Almeida repete o companheiro, Leon Cakoff, criador da Mostra, que dizia que no evento não tem filme ruim. Ela ainda não dispõe de números para fazer uma análise embasada da 39.ª Mostra. “Nossos auditores só devem apresentar suas tabelas dentro de dez dias, mas, para o tanto que estava preocupada, neste ano de crise, acho que foi uma grande Mostra. Conseguimos trazer muito mais convidados do que esperávamos, todo mundo comenta que as sessões estavam cheias. Até a natureza ajudou. Nossas sessões ao ar livre foram bem-sucedidas. Tivemos sessões no Ibirapuera, no Masp, na Cinemateca. Não choveu em nenhuma delas. Tivemos um pouco de chuva somente na apresentação de Tudo Que Aprendemos Juntos, de Sérgio Machado, no fim de semana, em Heliópolis, mas o filme foi feito na comunidade, estava todo mundo cheio de expectativa e ninguém arredou pé. Essas sessões são caras e terminam sendo estressantes. Vão dar certo, não vão? A gente fica sempre de coração na mão, mas felizmente deu tudo certo.”

Como responsável pela seleção, mesmo confiando nos assessores, ela termina vendo tudo, ou quase tudo, que vai compor a programação. Mas vê antes. Este ano, admite que quase não viu nada durante o evento. “Estava sempre correndo. Quando me sentava, estava ansiosa demais para me concentrar”, explica. Viu apenas as sessões de Tudo Que Aprendemos na Sala São Paulo, a de Meu Único Amor/My Best Girl, de Sam Taylor, com Mary Pickford, ao ar livre no Ibirapuera, e a de O Inquilino, de Alfred Hitchcock, também ao ar livre, na Cinemateca. Uma herança que fica é a distribuição, pelo selo Mostra, de alguns filmes especiais. A Mostra vai distribuir os dois talvez mais belos filmes da 39.ª edição – O Botão de Pérola, do chileno Patricio Guzmán, e Os Campos Voltarão, do italiano Ermanno Olmi. Os dois diretores ganharam o Prêmio Humanidade. Renata preocupa-se. “Espero que ninguém vá pensar que demos o prêmio pensando na distribuição. São grandes diretores e se inscrevem no perfil humanista que a Mostra, tradicionalmente, desde os tempos do Leon, tem defendido. Como nenhum tinha distribuidor no Brasil, pegar esses filmes foi quase um credo de cinefilia”, diz.

ÚLTIMO DIA DA REPESCAGEM

'Visita ou Memórias e Confissões'

De Manoel de Oliveira (Portugal) - 15h

'Nós, Eles e Eu’

De Nicolás Avruj (Israel, Palestina e Argentina) - 16h30

'Pixadores'

De Amir Escandari (Finlândia, Dinamarca, Suécia e Estônia) - 18h30

'A Grande Guerra'

De Mario Monicelli (Itália e França) - 20h30

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