Religiosos debatem a fé de "O Chamado de Deus"

A vocação religiosa é um desafio para a Igreja Católica no próximo milênio ? apesar de o número de jovens que decidem nortear a vida pelos caminhos religiosos não estar despencando, a discussão sobre as formas de vocação ainda é grande. É este o tema de O Chamado de Deus, documentário de José Joffily, premiado com o Margarida de Prata, concedido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e que deve entrar em circuito comercial em março. O cineasta colheu depoimentos de seminaristas e vocacionados para revelar os dois lados de uma contradição que é apresentada como epígrafe do filme: a vocação é um chamado de Deus ou da realidade?Quatro representantes de diferentes atividades ligadas à Igreja assistiram a uma sessão especial do documentário para discutir a questão. Todos foram unânimes em elogiar o tema do filme. ?No novo milênio, é preciso criar-se um novo sistema de formação?, sustenta Reinaldo Bezerra dos Reis, da Renovação Carismática Católica. ?O jovem às vezes é arrancado da família, o que traz muito sofrimento.?Em O Chamado de Deus, alguns rapazes contam as dificuldades enfrentadas no início do seminário, quando a saudade familiar chega a colocar sob suspeita a vocação. ?É importante mostrar o vínculo com os parentes, como é mostrado no filme?, observa o padre Eduardo Rodrigues Coelho, do vicariato da comunicação da Arquidiocese de São Paulo, que tomou uma série de notas à medida que acompanhava o filme. ?Isso revela que a vocação não caiu do céu e que a família é uma ponta fundamental.? Para ele, o filme desperta uma importante reflexão sobre os modelos de Igreja e revela que a vocação não é apenas uma atitude racional. ?É fundamental não se excluir a emoção, como mostram as imagens.?O grande debate, no entanto, tratou do principal ponto discutido no documentário: devem os futuros religiosos dedicarem-se principalmente a Deus ou às necessidades do cotidiano. Joffily participava de um evento religioso em Bom Jesus da Lapa, no interior da Bahia, quando conheceu um grupo de aspirantes a frades franciscanos. Eles definem a vocação como uma construção. Um deles, José Mário de Oliveira Brito, participa desde os 13 anos de grupos que não só discutem como praticam a religião, na perspectiva mais social da Teologia da Libertação.No outro lado da moeda, está um grupo de seminaristas diocesanos do interior do Rio de Janeiro, que defende uma construção mais espiritual. O contraste é evidente e é até provocado pelo diretor, que exibe as entrevistas de uns para os outros, filmando suas reações. Assim, os cariocas não aceitam as críticas dos irmãos nordestinos, que apontam a pobreza da região onde vive como ponto principal do trabalho de um religioso. Já os rapazes da Bahia não escondem suas risadas ao assistir à defesa, por parte dos cariocas, do tipo de trabalho desenvolvido pelo padre Marcelo Rossi, a quem acusam ironicamente de ?marketeiro?. ?São duas realidades muito distintas, que não podem pedir prioridade?, analisa José Adeildo, seminarista da Diocese de São Paulo, que acompanhou o embate no documentário. ?O importante é buscar uma unidade, portanto tem de existir uma harmonia.? A reação dos garotos, porém, não foi surpreendente para os mais velhos. ?Discussões desse tipo são normais entre adolescentes?, observa o padre Coelho. ?Com o tempo, o jovem deixa de ser sectário e enxerga o outro como complemento e não adversário.?A discussão, que ocupa a metade final do documentário, é retratada com uma certa isenção pelo diretor. ?Procurei demonstrar todas as dúvidas que cercam esses adolescentes?, conta Joffily. ?Principalmente as contradições.? A decisão do diretor foi facilmente notada pelos espectadores da sessão especial. ?Os meninos realmente não têm maturidade, principalmente quando discutem a necessidade de uma atitude política da Igreja?, comenta Reis, da Renovação Carismática. ?Nós oferecemos cartilhas explicativas aos seminaristas e até temos candidatos a cargos políticos.?A atuação do padre Marcelo Rossi, um pontos altos das discussões no documentário, também foi alvo de opiniões diversas. Todos aprovam o trabalho de chamamento realizado pelo religioso ? comprovado também pelo filme, que mostra uma multidão reunida no Templo do Terço Bizantino. ?Mas é importante também não ficar apenas na coreografia e esquecer a realidade?, comenta Nélson Augusto Tysky, responsável pelo departamento de Marketing da Verbo Filmes, produtora especializada em fazer programas para as comunidades. ?Estive na Bahia, especificamente na região que é apresentada no documentário, e sei do papel fundamental dos religiosos.?Tysky notou ainda a contradição dos rapazes da Bahia que, apesar de desprezar os maneirismos do padre Marcelo, utilizam suas músicas no trabalho missionário. ?O filme lança assim idéias para reflexão, desde o processo de formação até as formas de pregação.?

Agencia Estado,

19 de dezembro de 2000 | 19h50

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.