Religiosos avaliam o polêmico "Paixão de Cristo"

As imagens de Jesus ressuscitado ainda brilhavam na tela, indicando o final do filme A Paixão de Cristo, quando a discussão começou: anti-semita para alguns, de acordo com o teor do Evangelho para outros, o polêmico filme de Mel Gibson, que estréia nacionalmente amanhã com cerca de 340 cópias, foi acompanhado por três estudiosos de religião que, a convite do Estado, assistiram a uma sessão exclusiva. Se discordaram em alguns pontos, foram unânimes em um outro: a longo prazo, a produção poderá criar uma mentalidade racista, especialmente entre os mais jovens. "Ninguém nasce odiando, mas é induzido a isso", comenta Jairo Fridlin, da Sêfer, editora especializada em cultura judaica. "Ao exagerar na violência sofrida por Cristo, Gibson não apenas ganhou mais dinheiro como jogou a culpa sobre os judeus e ainda reavivou certos erros históricos que já foram desmascarados, mas que ainda continuam existindo graças a obras como a dele." Fridlin aponta, por exemplo, erros na vestimenta de Cristo que, apesar de judeu, não aparece vestido como tal. Uma série de detalhes foi relacionada também por Fernando Altemeyer Jr., professor de teologia da PUC que, durante a sessão, elaborou uma lista com o que mais o incomodou. "Há uma cena, por exemplo, em que Jesus conversa em latim com Pôncio Pilatos", comenta. "Ora, Cristo falava um aramaico típico do campo, considerado caipira pelas pessoas da cidade." Ele se incomodou também com a exagerada passividade com que os apóstolos e a Virgem Maria acompanham o calvário de Jesus, acreditando que, mesmo sem grande influência, eles deveriam ao menos exibir mais abertamente sua dor. "Também não há nenhuma comprovação de que houve um tremor de terra, como é mostrado no filme, logo depois da morte de Cristo." Para o teólogo Afonso Maria Ligório Soares, outro convidado do Estado, o filme peca no roteiro ao misturar citações. "Em um mesmo diálogo, as frases pulam do Evangelho segundo João para o segundo Matheus, criando uma mistura que só interessa mesmo ao roteirista", explica. Ele aumenta a fervura da discussão, porém, ao não observar nenhuma intenção anti-semita na história que, em linhas gerais, reflete o que está no texto sagrado. "Jesus era uma ameaça àqueles que detinham o poder na época. Assim, seria o mesmo que condenar os hindus pela morte do Mahatma Gandhi." Fridlin teme que o excesso de violência exibida no filme, especialmente na crucificação, sirva para aumentar os ânimos entre católicos e judeus no momento em que se aproxima a Páscoa. "Eu me pergunto qual a finalidade desse filme, justo quando as religiões aproveitam suas festas máximas para pregar o diálogo entre os homens." O detalhe também não escapou a Altemeyer, que aponta outro fato crucial na história recente dos judeus: o holocausto da 2.ª Guerra Mundial. "Como ainda há muitos sobreviventes do conflito que sofreram em campos de concentração, é, no mínimo, uma falta de sensibilidade mostrar cenas em que judeus (e também romanos) exaltam a morte de um homem como Jesus", afirmou o teólogo. Apesar das imperfeições, a expectativa pela estréia do filme é grande. A rede Cinemark, por exemplo, informou que já vendeu antecipadamente mais de 50 mil ingressos para as primeiras sessões nacionais de A Paixão de Cristo, além de dispor de mais de 20 sessões reservadas por grupos. Mesmo não divulgando números, a Playarte e a Severiano Ribeiro afirmaram também ser grande a procura por ingressos em sua rede de salas.

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