Religião e cidadania no cinema de Coutinho

Estreou na semana passada o novo documentário de Eduardo Coutinho. Ele conseguiu resultados prodigiosos filmando num só lugar e num período de tempo inferior a 24 horas. Babilônia 2000 assinala algumas mudanças importantes no método de trabalho do autor, mas o importante é que ele continua sendo o maior documentarista do País. Não representa pouca coisa. Pense em João Moreira Salles, em Geraldo Sarno, em Vladimir Carvalho. Veja Babilônia 2000, que entra num circuito reduzido (uma sala do Espaço Unibanco de Cinema). E (re)veja o documentário anterior de Coutinho, Santo Forte, que está sendo lançado em vídeo pela Riofilme, com o Departamento de Cinema e Vídeo da Funarte.Santo Forte recebeu dois prêmios importantes em 1999 - foi o melhor filme do 32.º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e também recebeu o prêmio da APCA, a Associação Paulista dos Críticos de Arte, como o melhor filme do ano. Ganhou também a Margarida de Prata, da CNBB, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Os bispos nunca foram tão ecumênicos. Santo Forte põe no mesmo altar o papa e os orixás. Afinal, seu tema é nada menos do que a religiosidade do povo brasileiro. Falando da religião, ou religiões, o cineasta mergulha no Brasil profundo e emerge com um retrato fascinante do povo brasileiro.Autor daquele que é considerado o melhor documentário do cinema brasileiro (Cabra Marcado para Morrer), Coutinho pretendeu fazer de Santo Forte uma espécie de teologia da palavra, mostrando como as pessoas vivem sua religião e como encaram as religiões dos outros. Surgiu nas telas simultaneamente com outros documentários - sendo o mais famoso, desses outros, Fé, de Ricardo Dias. Ambos investigando a religiosidade do brasileiro, ambos usando métodos diferentes e chegando a resultados também diferentes, mas unidos na mesma vontade de dar voz às pessoas humildes do povo.Dias percorreu o Brasil munido de uma câmera. Coutinho preferiu concentrar o foco num lugar - a citada favela Vila Parque da Cidade, localizada na Gávea, no Rio. Para o diretor, concentrar quer dizer também aprofundar. A concentração não se reduz ao lugar. Abrange também os personagens. São relativamente poucos depoimentos, filmados com câmera quase sempre fixa. Nem se pode falar num passeio da câmera de Coutinho por essas faces, porque ela está quase sempre parada, mas esses rostos iluminam a tela com o rigor da sinceridade e da veracidade.Depoimentos - e rostos. Eles viram personagens fascinantes desses retratos brasileiros que tomam por centro a religiosidade. A dançarina de strip-tease que invoca a proteção da sua pomba-gira, ou o motorista que diz ter a proteção de um preto-velho. A personagem mais marcante, aquela cujo depoimento realmente fica com o espectador, é a mulher que diz que em outra encarnação deve ter sido rainha. De que outra maneira explicar o fascínio que, sobre ela, exerce a música de Beethoven?A cena é exemplar das intenções do diretor. Essa mulher, neste momento, está cavando o abismo que a separa das classes ricas. Acha que a música erudita é privilégio da gente do andar de cima. Não é e o depoimento dela é a prova disso. Coutinho poderia ter recorrido a um texto off, a um especialista para refletir sobre isso. Não o faz. Deixa o espectador livre para pensar a forma como os fenômenos religioso e social se cruzam no País.Santo Forte - Brasil, 1999. Direção de Eduardo Coutinho. Lançamento Riofilme/ Funarte. Colorido, 90 min. Nas locadoras.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.