Reichenbach à procura de um ator

O diretor Carlos Reichenbach e a atriz e produtora Betty Faria iniciam na quinta-feira um rigoroso processo de seleção. Eles estão juntos no projeto Bens Confiscados, longa-metragem que começa a ser rodado em abril. Carlão vai dirigir o filme, que tem um papel sob medida para Betty. Falta definir o ator, que vai dividir com ela cenas capitais no papel de Luís Roberto. Para isso, Carlão e a equipe da produtora Dezenove Som e Imagens promovem a partir de quinta um teste para escolher o rosto ideal. Será na Oficina Cultural Oswald de Andrade (Rua Três Rios, 363, no Bom Retiro), entre 14 horas e 17h30. As exigências são específicas: com currículo e fotos à mão, os candidatos devem ter entre 18 e 21 anos, mas não é necessário ter experiência com interpretação nem ser ator profissional. É preciso, porém, ter a aparência de um rapaz de 17 anos. O diretor dará preferência àqueles que se assemelharem ao ator Vincent Kartheiser, que participa do filme No Limite do Silêncio, ou a Jacques Perrin, no longa Dois Destinos, de Valerio Zurlini. ?Quem mais se aproximar desse tipo físico terá mais chance de ser escolhido?, comenta Carlão, que aponta outra exigência: disponibilidade de passar dois meses fora de São Paulo, uma vez que a maior parte das filmagens vai ocorrer na cidade gaúcha de Cidreira. ?Como o escolhido pode ser um estudante, lembro que o período escolar poderá ser comprometido.? Além de quinta, os testes serão no mesmo local e horário nas próximas sexta, segunda, terça e quarta-feira. A obsessão do diretor explica-se como uma exigência do roteiro, escrito por ele e Daniel Chaia. ?Não se trata de capricho, mas de uma necessidade vital para a história?, comenta Carlão, lembrando que Vittorio De Sica passou dois meses visitando uma estação de trem até encontrar o tipo ideal para seu filme Umberto D. ?O esforço é válido, pois acredito que Carlão vai dirigir o melhor filme de sua carreira?, diz Betty Faria que, além de interpretar, também participa como produtora. Ela vai viver Serena, enfermeira-chefe do hospital carioca Miguel Couto que vive uma história de amor com Américo Baldani, um senador corrupto, envolvido em um escândalo quando é descoberto Luís Roberto, seu filho ilegítimo com uma secretária. Despersonalização ? Para evitar maiores arranhões à sua carreira, o político faz com que o rapaz seja forçosamente levado para o Rio Grande do Sul, onde vai viver aos cuidados de Serena. Segundo o diretor, trata-se da história de um lento, cruel e gradativo processo de despersonalização de uma mulher madura, forte, bela e independente, que se permite ser destruída pelo amante ausente. ?É também a melancólica história de um amor quase impossível entre personagens de idades tão distintas, fragilizados e à sombra das perversões do poder.? Como de hábito, Carlão segue as mesmas características de artistas que admira profundamente, como o escritor Leon Tolstoi e o cineasta italiano Valerio Zurlini. O ponto de partida é um pensamento inspirado nesses artistas: ?Toda história afetiva, essencial e intimista, só se torna grande e eterna quando é contada tendo como pano de fundo um momento traumático da história do país onde ela acontece.? Assim, apesar do momento de euforia nacional provocada pela troca de governo, Carlos Reichenbach não abaixou a guarda e insiste em apontar as mazelas do poder. Ele realça, por exemplo, o personagem do senador, que nunca é mostrado. ?O título do filme mostra tanto o óbvio, que é o confisco de bens promovido por políticos como Baldani, como também a maneira torpe com que ele manipula a enfermeira, tornando-a uma mulher frágil e psicologicamente desestruturada.? Carlão vai se inspirar nos tons inicialmente fortes e gradativamente esmaecidos de alguns melodramas de Douglas Sirk (destaque para Palavras ao Vento e Imitação da Vida), além das ousadas experiências de Michael Bauhaus para os filmes de Rainer Werner Fassbinder. ?Especialmente, os matizes pesados de Martha.? Já Betty Faria decidiu fazer um aprendizado no próprio hospital Miguel Couto, onde pretende tomar contato com todo tipo de problema humano. ?Será uma experiência inesquecível para um filme também marcante?, afirma a atriz.

Agencia Estado,

28 de janeiro de 2003 | 11h29

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