Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90
Divulgação
Divulgação

Regina Casé volta ao cinema após 14 anos

Atriz finaliza 'Que Horas Ela Volta?', em que interpreta a empregada doméstica Val

Flávia Guerra, O Estado de S. Paulo

21 de fevereiro de 2014 | 21h12

“Daqui um tempo vamos ver este filme e pensar: ‘Olha como era uma empregada naquela época!’”, diz Regina Casé no intervalo de filmagem de Que Horas Ela Volta?, novo longa de Anna Muylaert, que marca também seu retorno aos sets depois de 14 anos. “Tirei férias do Esquenta e filmei dois longas em dois meses. O Made in China, do Estevão (Ciavatta, diretor e marido da atriz) e este. Estou exausta, mas feliz.”

Em Que Horas ela é Val, uma personagem que sintetiza muitas facetas de sua vida e carreira. Val é uma empregada doméstica pernambucana que se mudou para São Paulo quando sua filha Jéssica, que ficou com a avó, ainda era criança. Como tantas, ela é quase da família, conhece tudo da casa em que trabalha e mora, cria o filho dos patrões, mas não vê sua filha crescer. Tudo vai bem até que Jéssica (Camila Márdila) chega de Pernambuco, para prestar vestibular.

É aí que se instala o choque de gerações e de classes. Enquanto Val pensa que a filha vai chegar de ônibus, descobre que não só viaja de avião como já fez sua inscrição para o vestibular pela internet. E mais que isso, depara-se com questões como: por que você não pode se sentar à mesa, mãe?; onde tá escrito? Tudo que ela pode responder é que “Isso a gente nasce sabendo”. Mas Jéssica nasceu sabendo que seu lugar vai além da cozinha.

Para viver o papel, Regina foi buscar inspiração nas centenas de Vals que conheceu em anos de peregrinação com seus programas de TV pelas periferias do Brasil. “Sei como elas são em casa, com a mãe, na igreja, no salão de beleza... É uma alegria enorme poder usar este conhecimento”, diz a atriz, que cresceu do lado da patroa, mas aprendeu a olhar a casa do ponto de vista da copa. “Nunca tive babá. Tive cozinheira, faxineira, passadeira... Houve empregados que foram determinantes para a minha formação. Sem eles, não seria o que sou.”

“A Val é a última empregada do modelo de antigamente, quando o Brasil ainda era praticamente rural. Era do tipo que vinha da roça para a cidade e morava no emprego... Ela é essa. Mas é a última. A nova geração, como a da filha dela, faz faculdade, estuda... É por isso que a chegada da garota desestabiliza tudo. Ela não criou esta menina e tem de aprender a lidar com a nova geração”, conta a atriz e apresentadora Regina Casé, que dá vida a uma personagem que é um verdadeiro amálgama de tantas mulheres que conheceu ao longo da carreira.

É também pela relação direta de Que Horas com as atuais transformações da sociedade brasileira que a diretora Anna Muylaert diz ser seu filme mais difícil. “Apesar de ser o primeiro roteiro que escrevi, há 18 anos, só o filmo agora. É intenso. E sofreu modificações. Tanto pelo meu amadurecimento quanto pelo que vem mudando no País”, afirma Anna. “Por isso, ter alguém como a Regina, em quem pensei desde o início, é crucial.”

Sobre a Val, as relações entre patrões e empregadas e as mudanças, e andanças, do Brasil, Regina falou ao Estado.

Na sua família, há algum exemplo de empregada assim?

Sim! Aconteceu isso na casa da minha mãe, da minha vó. Havia sempre uma empregada que cuidava dos outros, que deixava seu filho em casa e criava o dos patrões. E o filho dela começa a chamar a avó de mãe... Quando tem condições financeiras, tenta retomar o contato com o filho, mas aí o filho já não quer mais saber dela... Dureza. Ela manda dinheiro para o filho, que hoje até consegue fazer faculdade, mas a relação afetiva, neste ponto, já não se constrói mais.

Conheceu muitas Vals?

Sim. Não só no serviço, mas em suas casas. Conhecer a empregada trabalhando é fácil. Conhecer a casa dela, da mãe dela, na periferia, num canavial... É raríssimo. Sei como são em casa, com a mãe, no salão de beleza... Não sou antropóloga, mas observo isso há tanto tempo... É uma alegria usar esse conhecimento. Algo que nunca usaria e que ficaria em uma gaveta do meu coração.

Traz essa vivência para a Val?

Claro. São pequenos gestos, emoções, canções que ouvi... Isso foi até no outro filme que acabei de rodar, o Made in China (do Estevão Ciavatta, meu marido). É maravilhoso dar essa colaboração.

Há coerência em sua trajetória até a Val. Fez Brasil Legal, Central da Periferia, Esquenta...

Há uma coerência radical. Viajei as periferias do Brasil. Esquenta, por exemplo, é o que mais se corresponde, hoje em 2014, com o Asdrúbal Trouxe o Trombone (grupo teatral que fundou nos anos 80), com o qual rodava o País, fazia espetáculos falando dos mesmos assuntos. O que faz a gente não envelhecer é, em vez de repetir a mesma fórmula, ir procurando, encontrando e retraduzindo uma correspondência entre o passado e o presente.

E levar isso para a ficção?

É bacana ver que, quando vou para a ficção, levo emoções que têm a ver com o outro trabalho. Saber que estou sempre com o povo, mostrando um lado do Brasil que é invisível, lugares, pessoas. De um lado vou revelando músicas, hábitos, fazendo entrevistas. De outro, é por meio dos personagens. Cada um é alguém que conheci, uma empregada, uma nordestina, uma mulher forte.

'Que Horas' se passa em São Paulo, mas representa o Brasil.

Todo mundo vai ficar com vergonha. Mesmo quem acha que é fofo e bonzinho com a empregada vai perceber o que faz. Houve uma cena em que eu, como a Val, estava arrumando minhas coisas para ir embora. E percebi que havia uma quantidade de nécessaire absurda. Ela diz: “Não aguento mais. Toda vez que esta mulher viaja, me dá uma nécessaire”. Isso é tão verdade. A patroa viaja e traz para a empregada uma nécessaire da executiva... Como se fosse um presente. São essas pequenas coisas com as quais todo mundo vai se identificar. e tomar um susto. A nova geração não vai ter mais empregada que cria os filhos. Talvez faxineiras... Tudo mudou.

Você foi um pouco criada pelas suas empregadas?

Não tão criada, porque tinha uma tia-avó. Outra figura que está em extinção, a da tia-avó que não se casa e ajuda a criar os sobrinhos-netos. Nunca tive babá. Tive cozinheira, faxineira, passadeira. Todas as empregadas que trabalharam nas casas da minha mãe e da minha avó foram fundamentais para a minha formação. Era a maneira de o mundo e o Brasil real entrarem na minha casa. Sou Mocidade porque a Anita cozinheira era Mocidade... O Timbó me marcou com a maneira como ele sambava... Sem ele, talvez o Esquenta nem existisse.

É interessante essa relação que muitos empregados têm com os filhos dos patrões.

É mais afetuosa. O Fabinho (Michel Joelsas, que vive o filho dos patrões no filme) me adora. Às vezes, dorme no meu quarto, mesmo já grande, pois o faz desde pequenininho. Tem uma intimidade comigo que não tem com a mãe. E que Val não tem com a filha. No início, o filme era mais sobre essas relações. E cresceu muito durante a feitura do roteiro e a preparação da Anna (Muylaert), pois o que já era latente no Brasil realmente eclodiu. A questão ‘se aeroporto parece uma rodoviária’... A Val acha que a filha vai chegar na rodoviária. A garota diz: ‘Não, mãe, é no aeroporto’. Ela acha incrível que a filha venha de Pernambuco de avião, faz inscrição no vestibular pela internet...

Há pouco, houve a polêmica da Lei das Empregadas. Isso mudou e vai mudar muita coisa.

Exatamente. Não é coisa só de classe social. Há quase castas no Brasil. A filha vem quebrar isso. Ela diz: ‘Mãe, por que não posso me sentar ali? Onde está escrito que não pode?’. A mãe diz: ‘Porque não. A gente nasce sabendo’. Isso, ainda bem, está mudando.

Quem vai ver esse filme? A classe C ou a classe A?

Depende das salas em que vai passar. Adoraria que patroas e empregadas assistissem. Tanto as empregadas vão rir do olhar que a gente tem da cozinha, quanto os patrões vão pensar em quantas nécessaires já deram. A gente não percebe. Acha que tá sendo fofa, que ela nunca vai perceber...

Como foi voltar ao cinema?

Exaustivo, mas ótimo. Estava há 14 meses gravando o Esquenta, sem parar. E nas férias emendei um filme no outro. Rodei o Made in China, que se passa no Saara, o que em São Paulo seria a 25 de março, e agora o Que Horas. E ainda sou mãe de novo, pois adotei um bebê (o menino Roque, de 6 meses). Mas não podia adiar isso. Sou muito cobrada (pelo público) e me faz falta atuar.

Seu último filme, Eu Tu Eles, foi há quase 15 anos? Sente que o cinema também mudou muito?

Sinto. Quando eu fazia teatro, o palco era um lugar muito transgressor. Mas, depois, entrou em uma zona muito comercial, com algumas exceções. Isso também aconteceu com o cinema. Hoje, observo que não há um tipo de cinema. E, sim, muitos cinemas. O Brasil não é mais obrigado a fazer só um tipo de filme. Isso traz gente e esperança. Mesmo que todo mundo ainda não possa ir ao cinema. Assim como a maioria não andava de avião, a fatia da população que ia ao cinema era tão minúscula que ‘dava traço’. Essa mudança é muito boa. É bacana que a dramaturgia também tenha um assunto como este em um momento em que o Brasil se transforma.

Há um denominador comum das periferias do País?

Há cada vez mais nuances, mas, em geral, é a opressão, desigualdade, falta de saneamento, educação, saúde, lazer, justiça..., a favela como extensão da prisão. Isso era característica de cidades grandes. Era inimaginável crack no interior, sem estrutura para lidar com o problema. Hoje, até cidades pequenas estão favelizadas.

O que de bom une a periferia?

A solidariedade. O surpreendente é que há a ideia de que exigir direitos, ser consciente das injustiças, não tem que se opor à festa, à felicidade, ao direito à diversão, à música, alegria, dança. A periferia não tem que se dividir em gente que é consciente e de cara amarrada ou gente alienada do samba, funk e carnaval. Espero que a luta pelos direitos caminhe cada vez mais junto com a festa.

Como vê os rolezinhos e as manifestações?

A gente está em um momento muito novo e delicado. Não adianta usar antigos modelos para entender essa situação. Cada coisa que eclode, cada ódio, cada explosão de ‘não dá mais’, tem um significado. A questão da mobilidade, por exemplo. Pode ser a empregada mais doce e conformada... Ninguém aguenta todo dia demorar duas, três horas para ir para casa e voltar. Se, para uma senhora isso é muito, imagine se um jovem cheio de energia, de acesso à informação, que sabe o que está se passando no mundo, não vai se indignar. Não é à toa que tudo começou pela mobilidade. Essas mudanças estão provocando novos comportamentos, que ainda não temos como julgar. Não me sinto à vontade para dar uma opinião. A cada dia tudo muda. Observo atenta e de coração aberto.

Como será a nova temporada do Esquenta?

Terá novidades. O cenário está mais dinâmico, vai poder ser temático, mudar a cada programa. E não há obrigação de trazer só samba, pagode... Podemos trazer desde a orquestra sinfônica (o que já fizemos) até rock. As pessoas sempre perguntam o que o povo quer. Como diz o Gil, nosso lema é: O povo sabe o que quer, mas quer também o que não sabe. Quer aprender coisas novas.

Tudo o que sabemos sobre:
Cinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.