Refinado conto impressionista da Princesa Kaguya

Refinado conto impressionista da Princesa Kaguya

O japonês Isao Takahata, que concorreu ao Oscar, mostra por que é considerado um dos gigantes da animação

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

15 Julho 2015 | 05h00

Sucesso na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, O Conto da Princesa Kaguya foi indicado para o Oscar e ficou entre os cinco finalistas da categoria no prêmio de animação da Academia de Hollywood em 2015. Perdeu para Operação Big Hero, da Disney. É uma produção dos estúdios Ghibli, do lendário Haya Miyazaki. O próprio diretor Isao Takahata é outra lenda da animação japonesa – do chamado ‘anime’. Faz trabalhos de grande beleza e delicadeza.

O Conto da Princesa Kaguya baseia-se num relato tradicional japonês. Teve versões para mangá e cinema. A história tem similaridades com vários contos ocidentais. Lenhador que vive com a mulher, e o casal não pode ter filhos, encontra menina liliputiana dentro de uma flor de bambu – é curioso que as circunstâncias de mercado façam com que a princesa Kaguya entre em cartaz simultanemente com Homem-Formiga, embora num circuito muitíssimo menor. Ambos são heróis ‘liliputianos’. Ela cresce para se transformar numa linda moça que é disputada por cinco nobres, entre eles o próprio imperador. Mas não consegue se decidir por nenhum ou, na verdade não está interessada em nenhum. E, para mantê-los a distância, faz pedidos impossíveis, senão difíceis de realizar. Mas Kaguya não poderá mantê-los sempre longe, e é o problema.

Como Miyazaki, Takahata é uma referência no mundo da animação. Os próprios animadores o idolatram. Para o público, especialmente o infantil, poderá ser uma surpresa. Encontram-se em cartaz outras animações, que seriam, digamos, mais mainstream. Divertida Mente, de Pete Docter, da Pixar, entrou muito bem, seduzindo adultos (talvez mais) e crianças, mas não resistiu ao rolo compressor de Minions. O filme sobre os diabinhos amarelos, que amam um malvado, caiu na graça da criançada. Os pequenos, e vale para meninas como meninos, fazem o maior alvoroço nas sessões. É uma risada só. Uma risadaria.

Princesa Kaguya dificilmente poderá aspirar a essa facilidade de comunicação, e a essa massificação, até porque entra com muito menos cópias. Mas além de a história ser muito atraente – ora intimista, ora movimentada –, o partido estético do diretor Takahata é muito elegante. Sua animação se assemelha a um mangá. E possui características muito especiais, porque é como se fosse toda ela feita de aquarelas delicadamente impressionistas (e inacabadas de propósito). Um exemplo aproximado, mas não exatamente igual, seria o cultuado Lineia no Jardim de Monet, que tanto sucesso fez no mercado alternativo brasileiro.

Como muitos diretores de animação, Takahata não sabe ou não gosta de desenhar. Mas possui uma imaginação muito rica, e ela se libera nas imagens e sons de seus filmes. Miyazaki diz que Takahata é um estudioso e pensa o cinema musicalmente. Princesa Kaguya é um belo filme. 

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