Gravier Productions
Cena do filme 'O Festival do Amor', novo longa de Woody Allen, lançado em 2021 Gravier Productions

Referências a mestres do cinema surgem em cenas de Woody Allen

Protagonista de 'O Festival do Amor', novo longa do diretor, vive em universo de fantasia, ora num filme de Fellini, ora de Truffaut, ou Bergman

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão

19 de dezembro de 2021 | 05h00

Há quase 30 anos, a separação de Woody Allen e Mia Farrow, coincidindo com o lançamento de Maridos e Esposas, virou um escândalo planetário. Nos anos seguintes, a situação não aliviou. Allen vem sofrendo sucessivas acusações de abuso. Virou um autor malvisto em Hollywood. Woody, que não tem mais nada a perder, segue seu ritmo. Um filme por ano, todos os anos. Mantém-se fiel a Nova York, mas virou globetrotter. Fez filmes em Barcelona, Paris, Roma. De volta à Espanha, o novo filme passa-se em San Sebastián. 

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Rifkin’s Festival, ou O Festival do Amor. Wallace Shawn lecionava cinema. Largou o ofício para escrever um grande romance. A mulher permanece ligada à indústria. Ele a acompanha no Festival de San Sebastián. Vê Gina Gershon aproximar-se cada vez mais de um jovem autor francês – Louis Garrel. Hipocondríaco, vai parar no consultório de uma médica. Envolve-se com Elena Anaya. Mort Rifkin – o nome do personagem – é o típico personagem alleniano. Judeu nova-iorquino, intelectual, pretensioso.

De tanto falar sobre cinema, Mort viu a mulher amada – a primeira – migrar para os braços do irmão. Vive num universo de fantasia, ora num filme de Federico Fellini – a sua versão de Oito e Meio -, ora de François Truffaut – Jules e Jim –, ou Ingmar Bergman – Persona. Gina e Elena protagonizam uma cena com legendas do último – discutindo a existência de Deus. Mort é truffautiano no sentido de que é um romântico que não sabe lidar com o próprio romantismo. Lança uma pergunta a seu psicanalista – E agora? Não tem resposta.

A verdade é que as coisas não são tão ruins como parecem – para Woody e o próprio Mort. Allen sempre amou seus mestres europeus, mas lá atrás, no começo de sua carreira, pagou tributo ao mito de Humphrey Bogart e a Casablanca. Mesmo que tudo dê errado, Mort nunca permanecerá sozinho. Bogart e Bergman tinham a lembrança de Paris. Mort tem o cinema, o seu Botão de Rosa. Allen até recria a famosa cena inicial de Cidadão Kane, o clássico de Orson Welles. Cinéfilos de carteirinha se sentirão em casa. 

 

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Woody Allen: 'Estou interessado em filmes mais artísticos, com público menor'

'Meu desejo ao fazer um filme não é financeiro, mas, sim, de fazer um bom filme. Então, mesmo que a audiência seja pequena, tudo bem', opina diretor de 'O Festival do Amor' em entrevista ao 'Estadão'; leia a íntegra

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

19 de dezembro de 2021 | 05h00

Nem a idade nem a longa carreira de mais de 70 anos diminuíram o apetite de Woody Allen por fazer cinema. Aos 86 anos, ele chega a seu 50º filme como diretor com O Festival do Amor, rodado mais uma vez na Europa, mais precisamente em San Sebastián, na Espanha, durante seu festival de cinema.

Wallace Shawn interpreta Mort Rifkin, um professor de cinema e aspirante a romancista que viaja à Espanha para acompanhar a mulher, a assessora de imprensa Sue (Gina Gershon). Mas, como não é cego, ele começa a desconfiar que Sue está flertando com um de seus clientes, o ambicioso cineasta Philippe (Louis Garrel). O estresse e a hipocondria fazem com que Rifkin acredite estar doente, procurando ajuda médica na forma de Jo Rojas (Elena Anaya), por quem ele se encanta. À noite, Rifkin tem sonhos em que se coloca em grandes clássicos do cinema, como Persona, de Ingmar Bergman, e Cidadão Kane, de Orson Welles.

O Festival do Amor ficou pronto em 2020 e por Woody Allen já haveria um 51º filme, que seria rodado em Paris, mas foi interrompido pela pandemia - a única coisa capaz de impossibilitar sua média de uma nova obra lançada por ano.

O trabalho também parece uma espécie de refúgio para o diretor, que teve a carreira brilhante obscurecida pelas acusações de sua ex-mulher, Mia Farrow, de abuso sexual da filha adotiva do casal, Dylan, em 1992. Pouco antes, tinha vindo à tona que ele vivia um romance com a filha adotiva de Farrow, Soon-Yi, com quem ainda está casado e com quem adotou duas meninas. “Eu suponho que pelo resto da minha vida um grande número de pessoas vai pensar que eu sou um predador”, disse Allen em entrevista recente ao jornal inglês The Guardian. “Tudo o que eu digo a respeito do assunto parece egoísta e na defensiva, então é melhor seguir meu caminho e trabalhar”, completou ele, que nunca foi acusado nem condenado por abuso.

Em entrevista ao Estadão, por telefone, Woody Allen falou sobre O Festival do Amor, pandemia, se ele vê filmes da Marvel e seus projetos para o futuro - incluindo se pretende ou não fazer um longa-metragem no Rio de Janeiro.

O Festival do Amor é seu 50º filme. Isso faz com que reflita sobre a carreira?

Não, quando eu faço um filme eu nunca vejo novamente. O primeiro filme que fiz foi em 1967 ou 1968, não me lembro. E nunca mais vi. Nunca mais assisti a nenhum deles, porque não acho que seja uma boa ideia fazer isso.

O longa faz homenagem a clássicos do cinema, como Persona - Quando Duas Mulheres Pecam e Cidadão Kane. Assiste a muitos filmes?

Vejo muito os clássicos e alguns contemporâneos quando sei que são bons, quando um amigo me indica e me diz que eu provavelmente vou gostar. Mas eu gosto de ver os clássicos frequentemente, é prazeroso para mim. Com o coronavírus, fiquei muito em casa, então vi ocasionalmente filmes na televisão. Muitos eram filmes antigos, da minha infância, que me trazem muitas memórias e por isso me dão muito prazer. Foi engraçado rever alguns. Muitos que eu amava me parecem tolos. E outros que não apreciava tanto me parecem ótimos.

Qual filme contemporâneo viu recentemente?

Não tenho ido muito ao cinema, mas recentemente vi documentários. Há um muito bom sobre a relação entre Tennessee Williams e Truman Capote e outro, que ainda não foi lançado, sobre Leonard Bernstein. E eu gostei demais do filme da Jane Campion, Ataque dos Cães.

Gosta de assistir a filmes na televisão?

Não. Mas, se for O Poderoso Chefão ou Cidadão Kane, que eu vi na tela grande, não me incomodo de ver de novo na televisão. Não gostaria que meus filhos vissem os clássicos primeiro na televisão em vez do cinema. Eles poderiam rever esses filmes na televisão, desde que tivessem visto da maneira correta primeiro. É uma experiência muito diferente sentar-se com centenas de pessoas no cinema. Em casa, dá para interromper o filme, ir buscar um copo de água. Eu entendo quem prefira ver em casa. Eu, não. A sala de cinema é mais empolgante para mim.

Como se sente vendo um filme como Homem-Aranha: Sem Volta para Casa tomando praticamente todas as salas de cinema?

Acho que diz muito sobre o público que está indo ao cinema. As pessoas querem ver isso, estão dispostas a, no meio de uma pandemia, ir à sala de cinema para ver Homem-Aranha, com todos os seus efeitos. Para mim, é uma indústria separada. Existe o cinema como negócio e o cinema como arte. Quando artistas como Luis Buñuel ou Ingmar Bergman faziam um filme, eles esperavam um público pequeno de pessoas perspicazes, educadas e interessadas em obras de arte sérias. E há toda uma indústria interessada na bilheteria. Se você está nesse ramo, é maravilhoso, eles fazem centenas de milhões de dólares. Eu estou interessado em filmes mais artísticos, com público menor. Meu desejo ao fazer um filme não é financeiro, mas, sim, de fazer um bom filme. Então, mesmo que a audiência seja pequena, tudo bem.

O senhor assiste aos filmes da Marvel?

Não vejo Homem-Aranha ou Vingadores. Mas há um público enorme de pessoas que adoram esses filmes. São gostos diferentes, como tem gente que gosta de rock e outros que preferem música erudita.

E suas filhas, assistem aos filmes da Marvel?

Eu tentei dirigi-las a filmes bons, mas quando estavam crescendo gostavam de lixo que vinha do mundo mais comercial. Agora, aos 20 anos, estão começando a apreciar outros tipos de filmes.

O senhor é conhecido por querer evitar a morte o tanto quanto possível e ser um pouco obcecado com doenças. Como está sendo atravessar a pandemia?

Foi traumático para todos, inclusive para mim. Quando a pandemia começou, eu disse que ia ficar em casa e que me acordassem quando terminasse. Disse que não ia sair. E todos eram super cuidadosos no começo. Pediam comida e desinfetavam a sacola. Eu fui muito cuidadoso e fiquei com muito medo. Mas as vacinas fizeram uma enorme diferença.

Como vê a politização da vacina?

Pois é. Eu não entendo quem não se vacina, quem se coloca em risco. Se todos se vacinassem, poderíamos nos livrar da pandemia. Mas virou um assunto político, uma medalha de honra não se vacinar. Enfim, com as vacinas, ficou menos aterrorizante. Porque, antes, quem tinha mais de 65 anos tinha grande chance de não sobreviver se tivesse covid. Nova York foi severamente atingida pela pandemia, mas hoje é um dos melhores lugares para se estar. Mas ainda é um problema, e pior ainda porque poderia ter sido evitado.

O senhor fez seus últimos filmes na Europa. Pretende continuar rodando por lá?

Sim. Eu tinha um projeto que deveria ter sido rodado um ano e meio atrás, em Paris. Estava tudo pronto. Mas, por causa da pandemia, tivemos de cancelar. Se a pandemia melhorar, não houver variantes e tivermos o financiamento novamente, ainda vou tentar fazer este filme em Paris, no verão - eu só filmo no verão, porque o inverno é frio demais para mim.

E aquele projeto no Rio?

Nunca tive um projeto no Rio. Minha irmã, que é uma das minhas produtoras, foi ao Rio e a São Paulo para conversar sobre possibilidades. Mas eu nunca tive uma ideia. Eu preciso ter uma ideia para filmar no lugar, não dá para ir e fazer um filme só porque há financiamento. Tive ideias para Londres, Roma e outros lugares. A história tem de ser real, nativa à geografia. Nada me ocorreu em relação ao Rio. Mas adoraria ir ao Rio e fazer um filme lá.

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Análise: Woody Allen aproxima o imenso do insignificante

Diretor de 'O Festival do Amor' se fundamenta no apego à obra de grandes mestres e em sua visão de mundo desencantada

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2021 | 05h00

Não se iluda. O Festival do Amor, novo Woody Allen, é despretensioso apenas em aparência. Flui como divertida comédia romântica, ambientada numa cidade fantástica - San Sebastián, na Espanha. Mas, em torno das peripécias amorosas, reaparecem, na contraluz, alguns dos temas fundamentais da filmografia do diretor. Primeiro, seu apego à obra dos grandes mestres de sua arte - Orson Welles, Federico Fellini, Luis Buñuel, Jean-Luc Godard, François Truffaut e Ingmar Bergman. Segundo, sua visão de mundo desencantada. "Sossegue, sua vida não é vazia, apenas não tem sentido", diz um dos personagens ao protagonista.

Não se trata de pessimismo. Pelo contrário. Se não existe sentido algum para a existência, somos livres para gozar com mais leveza a nossa (breve) passagem pela Terra. Com esse sabor agridoce na boca, saimos deste Festival do Amor, que estreia em janeiro nos cinemas. No fundo felizes, porque a inteligência e a lucidez são também formas da alegria nesta vida imperfeita.  

Essa, digamos assim, filosofia artística, vem sendo esculpida por Woody Allen desde seus tempos na comédia stand up, passando pela angústia metafísica do jovem adulto em torno da pequenez humana diante do universo em contínua expansão. Ambas as vertentes se entrelaçam na maneira peculiar de Allen ao aproximar o imenso do insignificante, o longínquo do próximo, o fundamental do irrelevante. Diante da nossa finitude, tudo se equivale.

Há, enfim, esses eixos fundamentais. A inteligência, o riso culto, as referências canônicas - mas nada disso sendo levado excessivamente a sério. Tudo se relativiza e tudo pode ser divino ou pífio, dependendo do ponto de vista do observador. De modo que qualquer auto indulgência logo cede lugar à auto-depreciação, posição filosófica, mas também dogma ético da comédia stand up. Para rir dos outros, é preciso antes rir de si mesmo.

Sua trajetória se parece mesmo a uma construção de personagem. Dos primeiros filmes abertamente cômicos (O que há, Gatinha, Um Assaltante Bem Trapalhão, Bananas) chega ao ponto de virada - Annie Hall (1977) que, no Brasil, houveram por bem chamar de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. Alvy Singer, interpretado pelo próprio Allen, é já essa figura pronta, o alter ego das fragilidades da sua persona artística, transformadas, por seu talento, em força autoral. Filme de sucesso e premiado (deu-lhe os Oscars de direção e roteiro), Annie Hall é cheio de criatividade, da fala do protagonista diretamente à câmera, à gag em que um chato de porta de cinema, ao citar indevidamente o guru das comunicações, é contestado Marshall McLuhan em pessoa, que estava na mesma fila. Tanta graça, mas, no fundo, o filme é a história de um fracasso amoroso.

Curioso, porque, uma vez estabelecido esse vínculo autoral associado à leveza de estilo, Allen parece se voltar mais para o seu lado cinéfilo. Interiores (1978), Manhattan (1979) e Stardust Memories (1980) são lindos, mas, para parte da crítica, engessados pelo excesso de referências.

Até que surge um opus fora de série, Zelig (1983), para muitos o melhor Allen entre todos. Afirmação discutível, porém, como não se deixar seduzir por este ser que tem a propriedade de estar em todos os lugares e de assemelhar aos outros, ao ponto de confundir-se com eles? Construído como falso documentário, Zelig prefigura, talvez, o ser humano contemporâneo, carente de personalidade própria, pronto para se adaptar à voz corrente, seguir com o rebanho, mimetizar-se pela semelhança ao outro. Um trabalho brilhante.

Mais um pulo do gato vem com Rosa Púrpura do Cairo, no qual a personagem frustrada (Mia Farrow) vai toda a noite ao cinema para rever o filme que a conforta da rudeza da vida real. Até que os personagens saiam da tela e a conduzam ao sonhado mundo de fantasia. O mundo real é tão hostil que, para não morrer, precisamos nos refugiar nesse maravilhoso dispositivo chamado cinema.

Mas o cinema não é apenas caminho de fuga ou alívio de tensões. Pode também ser ferramenta de investigação dos abismos da alma humana, a sondar o problemático senso moral da espécie. É do que trata esse trabalho magnífico chamado Crimes e Pecados (1989), banhado pelo espírito de Dostoiévski em torno dos dilemas da consciência. Quando Ivan Karamazov diz que "Se não existe Deus, tudo é permitido", refere-se a uma situação parecida com a descrita no filme. Um homem manda matar a amante porque esta ameaça seu casamento. Quem pode puni-lo, se não for sua própria consciência? Problema recorrente para Allen, que volta ao tema anos depois em Match Point (2005).

A trajetória de Allen é a desse artista filosófico com ar de não se levar a sério. Um filósofo brincalhão e trágico. Culpa, crime e castigo juntam-se à consciência moral nessa interrogação sobre o problemático sentido para a existência. Por que estamos aqui, servimos a algum propósito? Sempre buscado, sempre negado, esse suposto sentido faz parte das interrogações sem resposta, porém inevitáveis para um ser humano inteligente.

Essa dúvida sistemática tem movido a obra de Allen, do mais ambicioso ao aparentemente mais modesto dos seus trabalhos. Mesmo quando ele não consegue mais filmar nos Estados Unidos e volta-se para a Europa, numa vilegiatura em aparência descompromissada pelas cidades do circuito turístico. Vicky Cristina Barcelona (2008), Meia-Noite em Paris (2011), Para Roma, com Amor (2012) e agora este Festival do Amor, em San Sebastián partem da mesma matéria prima. Parecem divertimentos. E são.

Mas, neste mundo de tantas (falsas) certezas, esses filmes não deixam de funcionar como questionamentos das contradições humanas e expressões de um grande artista, contraditório ele próprio.

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Referências a mestres do cinema surgem em cenas de Woody Allen

Protagonista de 'O Festival do Amor', novo longa do diretor, vive em universo de fantasia, ora num filme de Fellini, ora de Truffaut, ou Bergman

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão

19 de dezembro de 2021 | 05h00

Há quase 30 anos, a separação de Woody Allen e Mia Farrow, coincidindo com o lançamento de Maridos e Esposas, virou um escândalo planetário. Nos anos seguintes, a situação não aliviou. Allen vem sofrendo sucessivas acusações de abuso. Virou um autor malvisto em Hollywood. Woody, que não tem mais nada a perder, segue seu ritmo. Um filme por ano, todos os anos. Mantém-se fiel a Nova York, mas virou globetrotter. Fez filmes em Barcelona, Paris, Roma. De volta à Espanha, o novo filme passa-se em San Sebastián. 

Marcas

Rifkin’s Festival, ou O Festival do Amor. Wallace Shawn lecionava cinema. Largou o ofício para escrever um grande romance. A mulher permanece ligada à indústria. Ele a acompanha no Festival de San Sebastián. Vê Gina Gershon aproximar-se cada vez mais de um jovem autor francês – Louis Garrel. Hipocondríaco, vai parar no consultório de uma médica. Envolve-se com Elena Anaya. Mort Rifkin – o nome do personagem – é o típico personagem alleniano. Judeu nova-iorquino, intelectual, pretensioso.

De tanto falar sobre cinema, Mort viu a mulher amada – a primeira – migrar para os braços do irmão. Vive num universo de fantasia, ora num filme de Federico Fellini – a sua versão de Oito e Meio -, ora de François Truffaut – Jules e Jim –, ou Ingmar Bergman – Persona. Gina e Elena protagonizam uma cena com legendas do último – discutindo a existência de Deus. Mort é truffautiano no sentido de que é um romântico que não sabe lidar com o próprio romantismo. Lança uma pergunta a seu psicanalista – E agora? Não tem resposta.

A verdade é que as coisas não são tão ruins como parecem – para Woody e o próprio Mort. Allen sempre amou seus mestres europeus, mas lá atrás, no começo de sua carreira, pagou tributo ao mito de Humphrey Bogart e a Casablanca. Mesmo que tudo dê errado, Mort nunca permanecerá sozinho. Bogart e Bergman tinham a lembrança de Paris. Mort tem o cinema, o seu Botão de Rosa. Allen até recria a famosa cena inicial de Cidadão Kane, o clássico de Orson Welles. Cinéfilos de carteirinha se sentirão em casa. 

 

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