Reestréias, o melhor das telas

Há 30 anos, quando Dusan Makavejev fez WR - Os Mistérios do Organismo, o Brasil ainda vivia a negra noite da ditadura militar. Jornais eram censurados, filmes eram censurados. O de Makavejev logo entrou para o índex das obras proibidas. Só foi liberado dez anos depois, em 1981. O próprio Makavejev veio prestigiar a estréia, ocorrida em alto estilo, durante a realização da Mostra Internacional de Cinema São Paulo (que ainda era a mostra do Masp). WR - Os Mistérios do Organismo reestréia em cópia nova. Continua forte. O outro destaque de desta sexta-feira, nos cinemas da cidade, também é uma reestréia: a Carmen dançada de Carlos Saura, com Antonio Gades virando a cabeça pela sensual Laura del Sol.Nem só de reprises são feitas as atrações de amanhã. Há um belo filme tunisiano (Tempo de Espera), uma curiosa produção independente dos EUA (Apaixonado Thomas), um filme brasileiro bem-intencionado, mas que, infelizmente, não vai além disso (Soluços e Soluções) e o que talvez venha a ser o maior sucesso de público de todos (Todo Mundo em Pânico 2). Talvez a melhor maneira de se aproximar de Tempo de Espera seja vendo o filme de Moufida Tlatli como um complemento de O Círculo, de Jafar Panahi, em exibição no Unibanco Arteplex. Aliás, a partir de amanhã, Panahi recebe a imagem da Sala Cinemateca, que exibe o ciclo "O Irã Feminino de Jafar Panahi" formado por três títulos: O Balão Branco, O Espelho e O Círculo.O olhar que Panahi lança sobre a mulher na sociedade iraniana não é muito diferente do de Moufida Tlatli sobre a mulher na Tunísia contemporânea. O poeta Carlos Drummond de Andrade dizia que Leila Diniz libertou as mulheres brasileiras do jugo da escravidão. As iranianas e as tunisianas continuam cidadãs de segunda, vítimas de rígidas estruturas familiares, sociais e religiosas. Panahi disse que fez O Círculo movido por uma curiosidade que o angustiava: aquela menininha de O Balão Branco, o que ocorreria com ela ao crescer? Fez O Círculo. O filme se abre com uma janela aberta, num hospital. Termina com outra janela que se fecha, numa cadeia.No abre, a enfermeira anuncia que o bebê que acaba de nascer é uma mulher. No encerramento, todas as mulheres que o espectador viu, ao longo da narrativa, são encerradas nessa prisão metafórica de sua condição numa sociedade que as estigmatiza por serem mulheres. As mulheres de Moufida Tlatli também são oprimidas por uma estrutura que confere todo poder aos homens. Tempo de Espera se chama, no original, La Saision des Hommes, A Estação dos Homens. Narra um drama familiar. Uma mulher volta com as filhas para a casa, à beira do mar, na qual morou, no início da vida de casada. O filho é um menino que tem problemas e ela abandona a vida na cidade grande para tratar dele. Na casa ressurgem as lembranças.As mulheres viviam ali, à espera dos homens. Os maridos haviam partido para tentar a sorte em Túnis ou na Europa e as mulheres os esperavam durante 11 meses por ano. A estação dos homens era o período de um mês em que eles voltavam para casa, para reinar sobre essas mulheres que se anulavam na espera. Moufida Tlatli fez antes O Silêncio dos Palácios, também sobre a mulher na discriminatória sociedade de seu país. Não é um grande filme, mas o olhar sensível da diretora revela muito sobre o mundo e as mulheres. Só como curiosidade: a co-produção franco-tunisiana tem capitais de Films du Losange. É a empresa produtora do grande Eric Rohmer.Apaixonado Thomas vai um passo adiante de Denise Está Chamando. Lembram do filme de Hal Salwen sobre aqueles amigos que evitavam todo contato físico, recorrendo ao telefone para se comunicar? O Thomas do filme de Pierre-Paul Renders é um homem que sofre de agorafobia. Há oito anos não sai de casa. Comunica-se com o mundo só por meio da Internet. Faz tudo no computador, até o sexo que pratica é virtual. Aos poucos, sua privacidade vai sendo invadida e Thomas, que nunca aparece, vai redimensionando seus valores e necessidades. O enfoque é original, a maneira de filmar também, mas o excesso de repetição limita um pouco o alcance da sátira, que culmina num banho de luz, representando a esperança para o protagonista.Não há muito o que dizer sobre Soluços e Soluções, de Edu Felistoque e Nereu Cerdeira, exceto que a história do publicitário que bola a solução para o problema da seca no Nordeste é a prova de que boas intenções nem sempre resultam em bons filmes. Mas Todo Mundo em Pânico 2 é pior. Não tem nem boas intenções. É só um subproduto para faturar, feito pelo mesmo Keenan Ivory Wayans do primeiro filme. Se você viu o trailer viu a melhor piada: a do fantasma na escada. O restante é o resto mesmo. Piadas politicamente incorretas, o que poderia até ser atraente, mas não é. Tiradas que deveriam ser divertidas sobre a condição do negro na sociedade americana, mas que também não são.Há a Carmen de Saura, que surgiu nas telas em 1984, no bojo de outras (re)interpretações do mito da cigana de Prosper Merimée e Georges Bizet. Houve a Carmen de Francesco Rosi, a de Jean-Luc Godard e a de Peter Brooks. A de Saura é dançada, integrando a trilogia que começou com Bodas de Sangue e terminou com O Amor Bruxo. E talvez seja a mais radical de todas: por meio da história do coreógrafo que prepara a encenação de Carmen e reproduz, com a dançarina que escolheu, a relação destrutiva da ficção, Saura fez o que não deixa de ser a desmontagem do mito. Ele mesmo ironizou, dizendo certa vez ter sido o coveiro de Carmen.E sobra WR - Os Mistérios do Organismo. Juntando Freud e Marx, Makavejev fez um filme libertário que recorre a cenas de sexo explícito para ilustrar a mecânica da repressão sexual e ainda revela as absurdas perseguições macarthistas a Wilhelm Reich no mundo comunista. Foi o filme que (re)colocou Reich no mapa e consagrou Makavejev como um dos grandes subversivos do cinema.

Agencia Estado,

13 de setembro de 2001 | 17h39

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