Reestréiam dois clássicos de Godard

A reestréia de Alphaville e de ODemônio das Onze Horas é excelente ocasião para repensar ocinema de Jean-Luc Godard. Paradoxal Godard. Embora estes filmessejam "velhos", no sentido exclusivamente cronológico (ambossão da década de 60), continuam a colocar problemas decompreensão. Filmes como Cidadão Kane, de Orson Welles, ouOito e Meio, de Federico Fellini, há muito deixaram de serenigmáticos. Continuam no panteão, são obras-primasindiscutíveis, mas, com a distância e fortuna crítica acumulada,parecem hoje cristalinos como duas gotas d´água. Godard conservasua opacidade, mesmo que sobre seus filmes, a exemplo do queocorreu com os de Welles e Fellini, rios de tinta tenhamcorrido. Algo neles ainda resiste à assimilação.E não se trata de uma questão de "enredos" complicados. Pelocontrário. São simples até demais. Em Alphaville (1965), umadistopia disfarçada de ficção científica, alguém vem do mundoexterior para destruir uma ameaçadora civilização comandada porum computador. O enviado apaixona-se por uma moradora e esta sóconsegue a redenção ao pronunciar uma frase banal como "Eu teamo". Dito assim, parece ingênuo, pífio mesmo. O problema - e aoriginalidade - está na maneira como uma linguagemcinematográfica se inventa para articular essa historieta.O Demônio das Onze Horas (1965), aliás, Pierrot, le Fou,como o filme é conhecido em todo o mundo, menos no Brasil, partede uma trama não menos rotineira. Nela, temos um intelectual,versado em Velásquez e casado com uma burguesa italiana, quejoga tudo para cima e parte em viagem com a babá das crianças.Jean-Paul Belmondo é Ferdinand, ou Pierrot, como sua amanteMarianne (Anna Karina) resolve chamá-lo. Há, na maneira como ofilme é construído, reflexo do amour fou, o amor louco dossurrealistas, que só pode terminar em morte porque aspira aoabsoluto. Mas há também toda uma reflexão sobre o encontro, oumelhor, a trombada entre a arte clássica e a arte pop, fato quese afirma durante os anos 60.Belmondo é puro pensamento; AnnaKarina é sentido. Belmondo pensa a arte como espiritualidade.Encontra-se com o diretor norte-americano Samuel Fuller, que lheexplica que o cinema é, acima de tudo, um campo de batalha: amor, morte, violência - emoção, em resumo. Eis aí o encontro entre ovelho e novo mundo. E vai contra o clichê "alta cultura versuscultura popular", mesmo porque Godard é fascinado por essemundo vital, de mocinhos e bandidos, que vem do outro lado doAtlântico. E se chega a ironizá-lo, em filmes e palavras, aindao prefere ao ambiente museológico e literário que dominava entãoo cinema francês.Confronto - Bem, os filmes dessa fase de Godard se colocam naconfluência de algumas das principais questões modernas e tentamenfrentá-las. Seguindo o conselho de Fuller, Godard realmentetransforma suas obras em campos de batalha. Mas em um campo debatalha intelectual, uma arena onde todas as questões sãocolocadas, viradas pelo avesso e depois jogadas no chão, aos pésdo espectador, como se fossem roupas sujas. Na modesta históriade amor entre Marianne e o louco Pierrot de O Demônio das OnzeHoras cabem os temas da época, como a liberdade individualcontra a disciplina política, a Guerra do Vietnã, a questãoargelina, etc.Cabe também a renovação de uma forma de representaçãoantiilusionista, isto é, aquela que não esconde do espectadorsua forma de funcionamento. Quem leu o Quixote, de Cervantes, sabe que ele brinca com o leitor fazendo aparecer, na segundaparte do livro, personagens que já haviam lido a primeira. Quemleu Machado de Assis ou Sterne sabe que eles se dirigemdiretamente ao leitor, como para lembrá-lo de que está lendo umlivro e não vivendo uma aventura real. Quem já viu o Fellini deE la Nave Và sabe que no fim do filme ele mostra a si mesmoe a aparelhagem mecânica que movimenta o navio de mentirinha. Eem Casanova ostenta o mar de plástico em que o nobrepriápico foge da Sereníssima República.Tudo é jogo, mas um jogo que diz respeito ao mais íntimo doespectador. E para que ele o aproveite melhor, precisa serlembrado de que é um jogo, que aquilo não passa de um livro, umapeça de teatro, um filme.Ora, tudo, no cinema moderno, vai no sentido contrário. Tudo éfeito para que o espectador, no escurinho da sala, esqueça domundo e de si mesmo; passe a crer apenas naquela realidadeforjada pelo artifício. Um cinema como o de Godard, que, porrazões políticas, se propõe justamente a quebrar esse fascínio,só pode ser visto com muita estranheza - e às vezes como umaespécie de estraga-prazeres artístico. Por isso incomoda tantoque o computador Alpha 60, de Alphaville, sejaostensivamente um ventilador iluminado por trás. Parece fraude,quando é apenas um recurso, modesto, colocado a serviço de umaidéia. A idéia é mais importante que o efeito especial que lhedá corpo.Esses detalhes de linguagem contam mais que a insólita históriade amor entre Lemmy Caution (Eddie Constantine) e Natasha vonBraun (Anna Karina), o difuso par romântico de Alphaville.Afinal, Godard está simplesmente sugerindo que o mundo de puratécnica, numérico, de lógica absoluta, conduz à esterilidade.Era um prenúncio para o que em nossos dias se transformou emrealidade. Alphaville fala no desencanto do mundo, emsentido literal. Abre os olhos para a perda da aura, do sentidomágico das coisas e das gentes. Quer despertar o espectador desua anestesia, acreditando (com razão ou sem ela) que mesmo alucidez pode ser uma forma de prazer.ServiçoAlphaville (Alphaville). Drama. Direção de Jean-Luc Godard.Fr-It/65. Duração: 98 minutos. 12 anos.O Demônio das Onze Horas (Pierrot, le Fou). Drama. Direção deJean-Luc Godard. Fr-It/65. Duração: 115 minutos. 14 anos.

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