Reestréia comédia cult de Mel Brooks

Há uma história que garante que o longa de estréia de Mel Brooks na direção não interessava a ninguém - nem a público nem a críticos - e só aconteceu realmente depois que Peter Sellers, o lendário inspetor Clouseau, gostou tanto do filme que autorizou que se colocasse uma frase dizendo que ele recomendava The Producers. O título original é esse, que, traduzido, quer dizer Os Produtores. No Brasil, ficou sendo Primavera para Hitler. Mel Brooks só era conhecido como roteirista de humorísticos na televisão. Primavera para Hitler, que reestréia hoje nos cinemas, confirmou a reputação do diretor ao receber o Oscar de melhor roteiro de 1968. Nunca foi um grande sucesso de público, nem após a recomendação de Peter Sellers, mas virou uma obra de culto consolidada quando o próprio roteirista-diretor transformou-a em musical da Broadway e, aí sim, o sucesso foi imenso. Brooks resgatou um ator cuja carreira havia sido truncada pelo macarthismo. Acusado de atividades anti-americanas, Zero Mostel amargou uma fase de ostracismo que acabou ao ser chamado para fazer este filme. Mostel é um dos produtores do título - o outro é Gene Wilder, que se tornou assíduo nas comédias do ator e diretor. Eles tomam dinheiro de velhinhas para produzir musicais que fracassam nas bilheterias. O segredo é esse: a capitalização é sempre maior do que o prejuízo e a falcatrua é tão bem feita que eles embolsam a diferença. Disposto a ganhar um dinheirão (e a fugir para o Brasil), Zero Mostel resolve produzir o pior musical de todos os tempos. Contrata o pior compositor, o pior diretor, os piores bailarinos para um musical sobre Hitler e o nazismo. A ironia maior é que Zero é judeu, naturalmente. Ocorre o improvável. O musical é tão ruim que vira a maior curiosidade da Broadway e rende milhões na bilheteria, frustrando o plano do produtor-fugitivo. Primavera para Hitler é engraçado. O número que deu o título brasileiro ao filme é impagável. Pode ser que hoje seja considerado politicamente incorreto. Quer dizer: é politicamente incorreto, mas o diretor é judeu e você poderá rir bastante sem o remorso de estar sendo, quem sabe, racista.

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