Reestréia "A Noite Americana", de Truffaut

Pode não ser o melhor filme sobre os bastidores do cinema, mas é certamente um dos mais amorosos. A Noite Americana ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1973. Talvez houvesse um significado simbólico naquela vitória de François Truffaut, o mais amado dos diretores da nouvelle vague. Naquele mesmo ano, Hollywood atribuiu um Oscar honorário, de carreira, a um dos ídolos de Truffaut, na sua fase de crítico e, depois, como diretor: Jean Renoir. Ingrid Bergman fez um lindo discurso de saudação ao mestre, que terminou com um "Jean, we love you". Falava sinceramente. Foi a atriz de Renoir em Elena et les Hommes, que se chamou As Estranhas Coisas de Paris nos cinemas brasileiros. Ingrid também recebeu o Oscar de melhor coadjuvante de 1973, por Assassinato no Orient Express, de Sidney Lumet. Foi sincera, de novo, ao dizer que Valentina Cortese é quem deveria ter levado a estatueta. Valentina faz a diva do filme dentro do filme que está sendo realizado pelo próprio Truffaut, em A Noite Americana. Chama-se Sévérine, como a personagem de Catherine Deneuve em A Bela da Tarde, de Luis Buñuel. Sévérine vive esquecendo suas falas em Je Vous Présente Paméla, o filme que Ferrand, o personagem de Truffaut, está rodando nos estúdios de La Victorine, em Nice. É uma cidade mítica do cinema. Lá nasceu e filmou outro ídolo de Truffaut, Jean Vigo - ídolo também do crítico brasileiro Paulo Emílio Salles Gomes, que dedicou um livro clássico ao autor de L´Atalante. A produção de Je Vous Présente Paméla espalha bilhetinhos pelo set para que Sévérine possa ler as frases. Ela se atrapalha, confunde diálogos, cria embaraços, mas Ferrand/Truffaut tem a maior paciência. Sabe o que vai representar sua presença na tela, quando tudo estiver concluído. O cinema é como a vida, diz Truffaut. Mas é melhor, ele acrescenta, porque na tela o diretor pode controlar seu material, recriando o mundo como deveria ser, não como é. Truffaut, que morreu em 1984, aos 52 anos, foi um pequeno marginal que parecia destinado à delinqüência, como mostrou no autobiográfico Os Incompreendidos (Les Quatre-Cents Coups), de 1959. O garoto que crescia sem carinho encontrou no crítico André Bazin o pai substituto. Por meio dele, descobriu o cinema.Leia mais

Agencia Estado,

23 de maio de 2003 | 19h58

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