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Reese Whiterspoon consegue recomeçar em ‘Livre’

Há algo de místico na reconstrução da atriz e da personagem que ela interpreta; filme deve concorrer aos prêmios da Academia

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

15 Janeiro 2015 | 03h00

No fim da manhã – horário do Brasil –, a Academia de Artes e Ciências de Hollywood anuncia os indicados para o Oscar. Muitos desses indicados serão os mesmos que concorreram ao Globo de Ouro no domingo. Com toda certeza, Reese Whiterspoon estará entre as cinco finalistas que vão concorrer ao prêmio de melhor atriz. Reese já ganhou o Oscar, e por uma dessas coincidências que caracterizam a estatueta, quando não merecia, por um filme não muito bom – Johnny e June, de James Mangold. Pode até ser que, dessa vez, merecendo, ela não ganhe. Não há de ser a primeira nem a última vez que os melhores, mesmo obtendo o reconhecimento da indicação, não chegam lá.

Wild – selvagem. No Brasil, o filme de Jean-Marc Vallée ganhou o título de Livre. Não é a mesma coisa. Vallée é o diretor de Clube de Compras Dallas, que tanta sensação fez no ano passado, cobrindo de prêmios o ator Matthew McConaughey. Mas Reese, que também produz Wild/Livre, não chamou Vallée por causa de Clube de Compras. Seu compromisso com o diretor começou muito antes, logo depois que ela leu o livro de Cheryl Strayed. Naquela época, Reese andava muito impressionada com outro filme do canadense, C.R.A.Z.Y., que por sinal virou um dos grandes sucessos da Mostra de São Paulo.

C.R.A.Z.Y. era sobre uma família muito louca, mas você sabe que, de perto, ninguém é normal. O título era formado pelas iniciais dos cinco filhos – cinco irmãos que deveriam ser unidos como os dedos de uma mão, como dizia a mãe de Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti, mas que a vida, e as escolhas, de alguma forma separavam. Um dos garotos era gay enrustido, e a história era contada de seu ângulo, até ele sair do armário. Reese (Whiterspoon) impressionara-se com a história de Cheryl, sobre como essa mulher quase destruiu sua vida e como deu a volta por cima participando de uma empresa louca – percorrendo, como andarilha, a chamada Pacific Crest Trail. São 4.200 km numa extensa área que cobre quase toda a costa Oeste dos EUA, da fronteira mexicana até o Canadá. O que a atraía era justamente a ideia da superação, mas não narrada de forma convencional, o velho tema da segunda chance, tão caro ao cinema de Hollywood.

Para se assegurar de que essa história não seria banalizada, Reese e sua sócia Bruna Papandrea contrataram Vallée para a direção e o escritor Nick Hornby para o roteiro. Eles começaram a trabalhar e como a filmagem seria toda, ou quase toda, em externas, Vallée chamou seu amigo, o diretor de fotografia Yves Bélanger. No intervalo, ocorreu Clube de Compras Dallas, que o diretor e seu fotógrafo realizaram rapidamente, num sistema de guerrilha, entregando, como Vallée chegou a dizer, o filme aos atores. Por mais difícil, e elaborado, que tenha sido o planejamento de Livre, não se pode dizer que Vallée, de novo, não tenha trabalhado na guerrilha – nem tenha entregue seu filme aos atores. Às atrizes.

Não apenas Reese, mas Laura Dern, que faz sua mãe. São ambas excepcionais. Reese, a legalmente loira, durante muito tempo foi uma persona, uma figura simpática e cativante, mas não necessariamente uma atriz. Ela tem agora o papel de sua vida. Vai ao limite. Muito ligada à mãe, Bobbi, Cheryl perde sua bússola, quando ela morre prematuramente. Destrói seu casamento indo para a cama com todo homem que encontra, vicia-se em drogas pesadas. Sem nenhuma experiência, ela resolve participar da trilha. São poucas, raras mulheres. Uma delas é a própria Cheryl (de verdade), com quem a Cheryl de mentira tem um diálogo esclarecedor. O que as colocou na estrada? Não existem respostas precisas, mas a busca, a necessidade de um recomeço forneceu o impulso.

A natureza selvagem, os medos de Cheryl – homens que agora lhe parecem ameaçadores, mas antes ela se entregava a eles em sessões de sexo mais selvagens que o meio ambiente que desbrava. O filme abre-se com um momento de desespero da protagonista na estrada. Viaja no tempo. Passado e presente misturam-se. A mãe que apanhava do marido. A mãe que resolveu recomeçar. A morte que interrompeu sua trajetória. Se o começo (da vida da garota) é o tema de A Família Bélier, filme francês de Eric Lartigau em cartaz, o recomeço de Cheryl é o tema de Vallée e Hornby. Eles criam símbolos. O coiote, com quem ela cruza mais de uma vez, o menino com a avó, a misteriosa lhama. Há algo de sagrado nessas intervenções. O mais belo é quando Cheryl descobre que não precisa se arrepender. Ela precisava daquelas perdas, daquelas traições, daqueles drogas, daqueles homens. Nada de moralismo. A purificação não vem da mesma forma para todo mundo. É uma grande lição de vida, embalada em cinema visceral. Como se filma na natureza? Vallée e Bélanger conseguiram.

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