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Recordista na rede, o ‘Porta dos Fundos’ reformula-se ao invadir as salas

Filme 'Contrato Vitalício' está em cartaz brinca com a ideia dos integrantes trabalharem juntos para sempre

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2016 | 04h00

A partir desta quinta, 30, serão 700 salas de todo o País exibindo Porta dos Fundos – Contrato Vitalício. Para todo o lado que você se virar encontrará as caras de Fábio Porchat, Gregório Duvivier & cia. E se o cinema não estiver sintonizado no Porta, é muito provável que esteja imerso na batalha de Independence Day – O Ressurgimento. Em cartaz em 970 salas, o longa de Roland Emmerich faturou 752 mil espectadores no primeiro fim de semana. Ops! Se ajudar, tem extraterrestre em Contrato Vitalício, mas é bom não apressar as descobertas do espectador. Tem até beijo na boca de Fábio com outro homem. Transgredir sempre foi a palavra de ordem no Porta.

Fábio e seu amigo diretor – Ian SBF – gostam de brincar que o filme do Porta dos Fundos tem um lado autobiográfico. “Somos amigos de infância e a gente sempre se prometia trabalhar junto. Chegamos a falar, de brincadeirinha, num contrato vitalício. O filme já vinha sendo bolado há tempos, mas a gente só falava. Quando começamos para valer, o tema do contrato voltou e se impôs”, conta Fábio. Na internet e até na TV – Multishow –, o Porta impôs um estilo de humor viral, feito de esquetes curtos e fortes cacetadas. Vale tudo, incluindo política. “Para a estreia no cinema resolvemos concentrar no mundo do entretenimento, nas celebridades”, diz Fábio. “Acho legal, o País tá muito dividido para se arriscar com um filme sobre política”, avalia Duvivier. Já como cronista, ele bate forte. 

A grande surpresa dos tietes do Porta será conferir uma mudança que não é de tom, mas de estrutura. Pois Contrato Vitalício é um filme que pretende contar uma história. Logo de cara, Fábio Porchat e Gregório Duvivier formam uma dupla que é premiada no Festival de Cannes. Tomam um porre para comemorar, Fábio propõe (e assina) o contrato do título. Em cinco minutos, pouco mais, Duvivier vai ao banheiro. Diz ‘Já volto!’ e some por dez anos. Volta com uma história de abdução e cobra o tal contrato. Inicia-se a produção de um filme ‘autobiográfico’, que narra o que teria ocorrido com Duvivier no centro da Terra. Visto por esse viés, o filme talvez não seja muito diferente de Entre Abelhas, o longa sério – cabeça – de Fábio e Ian. Fábio, na ausência do amigo, consolida-se como ‘astro’. Leva o que parece uma vida feliz. Mas aí a chegada de Duvivier o lança no olho do furacão. O personagem, em si, não é engraçado – engraçado é, ou deveria ser, o entorno, todas as pessoas e situações que agem sobre ele e transformam sua vida num inferno.

É ou deveria ser engraçado? Porque há um lado híbrido (dramático?) que permeia Contrato Vitalício, meio Entre Abelhas. “Você acha?”, pergunta o diretor. E Ian promete ‘pensar’ sobre o assunto. Fábio vai descobrir que sua felicidade é relativa e o diretor do filme dentro do filme... Leia a entrevista de Duvivier. Para o público que consagrou o Porta com 3 bilhões de acessos – vamos colocar todos os zeros, 3.000.000.000 –, o filme exige uma, digamos, adequação. Ao timing do humor, à história, aos personagens. A tudo. A rodagem do filme dentro do filme é um tormento para o personagem de Fábio. Há uma preparadora de elenco que trata um dos protagonistas – o oponente de Fábio na trama –, pior que cachorro. Seu método é violento, ela admite, e dá-lhe pancada no ator. É Fátima Toledo, a lendária preparadora de Cidade de Deus e de boa parte do cinema brasileiro desde Pixote (na fase da ‘Retomada’, nem se fala)? “Não é uma crítica à Fátima, é uma homenagem”, diz Fábio.

O filme reflete, como um espelho deformado, o estado do mundo na era das celebridades? Tem a blogueira que leva sua minicâmera ao banheiro, o repórter interativo que acompanha Fábio o tempo todo, o assessor que cuida de suas contas e só pensa em faturar, etc. No mundo capitalista, global, o assessor exaspera-se com o desejo de Fábio, dentro do filme de se testar como ator. “Shakespeare nem sonhar! Quem quer saber dessa m...” Esse é leve, o filme tem palavrões cabeludos. “Nada que não tenha nas comédias americanas, o problema é que eles não ficam traduzindo os ‘motherfucker’ que os caras dizem a toda hora”, comenta Fábio.

Contrato Vitalício é o primeiro filme do grupo – o primeiro, eles esperam, de uma série. “O Porta é uma empresa produtora de conteúdo. Estamos aqui nessa baita expectativa e pensando num monte de produtos.

Nossa ideia é um filme por ano, todos os anos. Não importa que seja um filme só de um, ou de dois, de vez em quando de todos. A ideia é dar continuidade”, diz Fábio. Ian SBF nem espera o resultado. Em julho, roda, todos os fins de semana, um baixo orçamento sobre o fim do mundo – 98%. “Vai ser um filme de muitos atores, 30, mais com a cara do Entre Abelhas que do Porta.” E o Fábio, cronista do Estado? “Estou cheio de ideias”, promete. “Vamos que vamos.” E sobre o Contrato? “Já fizemos nossa parte, agora é com o público.”

‘Coppola foi a inspiração para o meu diretor', Gregório Duvivier

Cronista e roteirista, Gregório Duvivier tem externado sua opinião e se envolvido em muitas polêmicas. Por uma vez ele está adorando ser só ator em Porta Dos Fundos – Contrato Vitalício, que estreia em centenas de salas do País.

Como está sendo essa experiência de ser só ator?

Não foi moleza, não. Sempre é preciso se preparar, mas eu gostei de me concentrar nisso, sem me preocupar com o resto. Adoro escrever, mas acho que gosto mais ainda de interpretar.

Você se inspirou em alguém para seu diretor dentro do filme?

Todo diretor é um megalomaníaco, criando um mundo, comandando uma equipe, tanto faz que seja um blockbuster ou um filme de baixo orçamento. Gosto de brincar com o Matheus Souza (diretor de ‘Apenas o Fim’), dizendo que ele é nosso megalô do B.O., mas me inspirei, a barba, os óculos, no (Francis Ford) Coppola. Gosto muito daquele documentário sobre Apocalypse Now, que mostra como ele enlouqueceu no set. Terminou servindo como uma inspiração para mim.

Você trabalha muito com a política em suas crônicas, mas o filme é mais sobre a cultura das celebridades. Como você está vendo o Brasil? 

Cara, eu acho que o Brasil está muito dividido pela política e acho legal que o filme não entre nessa radicalização. Já quando escrevo, sou eu. É a minha opinião. Se tiver de dividir, que divida. E o que eu acho é que esse governo (de Michel Temer) não tem legitimidade. Ele foi eleito como vice, não para impor um programa econômico que não foi avalizado nas urnas.

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