Record lança críticas de cinema de Pauline Kael

Na ótica de Eliot Fremont-Smith, jornalista do The New York Times, Pauline Kael, autora do livro Criando Kane, é a "nossa mais interessante e vigorosa crítica de cinema e uma das mais valiosas comentaristas sociais e culturais que possuímos". De fato, a crítica norte-americana Pauline Kael realizou um trabalho singular ao longo de sua carreira de jornalista, especialmente se for levado em consideração o meio, dominado pelos lugares-comuns, mitos e consensos. Ela é capaz de elogiar produções como Os Embalos de Sábado à Noite ("o clima, a marcação e o transe do ritmo são tão puramente divertidos e Travolta uma presença tão original que o espectador passa por cima da crueza do roteiro"), e colocar reticências em clássicos, como O Encouraçado Potemkin ("parece surpreendentemente um cinejornal, e os ingênuos em termos políticos muitas vezes o tomaram por um documentário"). Nesta senda, o seu texto passou a ser uma referência para milhões de leitores do planeta: o estilo é marcado pelo profundo e amplo conhecimento da linguagem cinematográfica, pelo exame minucioso do trabalho de direção, somados ao humor, sinceridade e reflexão pessoal, como pode ser observado neste trecho do ensaio Fantasias do Público do Cinema de Arte: "É deprimente o fato de os americanos tenderam a confundir moral com arte (em detrimento das duas coisas) e, entre os educados, moral tender a significar consciência social" (p. 25). Filha de imigrantes judeus, criada numa fazenda na Califórnia, Pauline Kael cursou filosofia em Berkley. Na faculdade começou a se envolver profissionalmente com as películas: administrou um cinema de arte, trabalhou numa estação pública de rádio e escreveu para revistas de São Francisco. Seu primeiro livro foi publicado em 1965: Perdi no Cinema, contendo críticas e ensaios. Trabalhou numa revista familiar chamada McCall, da qual foi demitida quando escreveu uma critica ácida a A Noviça Rebelde: "A quem poderia ofender esta opereta? Apenas àqueles entre nós que, apesar de poderem reagir assim, detestam ser manipulados desse modo e sabem como são baratas e prontas as reações que nos fazem sentir." Pauline Kael viveu ainda um problema similar no semanário liberal New Republic, do qual saiu após a recusa deste periódico em publicar os seus comentários entusiasmados do filme Uma Rajada de Balas (Bonnie and Clyde), produção que, segundo ela, "leva ao mundo quase assustadoramente público do cinema coisas sobre as quais as pessoas vêm sentindo, falando e escrevendo. E uma vez que uma coisa é dita ou feita nas telas do mundo, uma vez que entrou na arte de massa, nunca mais pertencerá a uma minoria, nunca mais será propriedade privada de um grupo culto, ou conhecedor" (p. 109). Mas foi escrevendo em The New Yorker, a partir de 1967, que ela transformou a crítica de cinema em uma atividade emocionante e fundamental. O gosto pela polêmica une os 11 ensaios que compõem a obra. Nesta edição brasileira, publicada pela Record, foram incluídos os artigos célebres, como Uma rajada de balas, mencionado acima, e O homem da cidade dos sonhos. Neste, Pauline afirma ser Cary Grant o ator que "todos pensam nele com carinho, porque personifica o que parece ter sido uma época feliz" (p. 328). Porém, o controvertido Criando Kane, que dá nome ao livro, é, sem dúvida, o ensaio que desperta os maiores interesses dos leitores. Nele, a autora procurou destacar a importância do trabalho do roteirista no cinema, simultaneamente criticando o endeusamento do diretor como o único responsável pela concepção da "obra de arte". O crítico Philip French detectou com precisão o significado e a importância do ensaio em questão: "Foi escrito numa época em que os roteiristas não recebiam a atenção que lhes era devida, e em que os diretores eram elevados a alguma coisa parecida à santidade..." (p. 15). Porém, a tese levantada por Pauline Kael acabou ajudando aos críticos de Orson Welles: trabalhos recentes, de grande aceitação nos meios acadêmicos norte-americanos, como, por exemplo, o livro O Gênio do Sistema, de Thomas Schatz, perpetuam a imagem de que Orson Welles, na verdade, não passou de um cineasta com algum talento, mas incapaz de terminar uma produção. A rigor, para esse autor, os grandes diretores, tidos como gênios da sétima arte, não passaram de funcionários privilegiados de Hollywood. A criatividade desses cineastas foi condicionada à qualidade e à quantidade do financiamento dos grandes estúdios e às regras estipuladas pelos produtores, os verdadeiros responsáveis pelo funcionamento e pelo êxito da indústria cinematográfica norte-americana nas décadas de 30 e 40. A leitura atenta de Criando Kane deixa claro, entre outros aspectos, que em nenhum momento Pauline desqualifica o talento de Orson Welles. Porém, chama atenção para alguns aspectos que contribuíram decisivamente para fazer de Cidadão Kane um filme singular. A começar pelo fato de ser "um dos poucos filmes feitos com liberdade dentro de um grande estúdio nos Estados Unidos, não apenas livre de interferência, mas dos métodos rotineiros de diretores experientes" (p. 164). Além disso, como sustenta a autora, uma análise dos filmes posteriores de Welles demonstra que os mesmos não foram concebidos para enfrentar temas modernos que nos desafiam, "como até a simples idéia de Kane nos excitava". Desta forma, devem ser dados os méritos a Herman J. Mankiewicz, o roteirista de Cidadão Kane, que demonstrou a capacidade ímpar de escolher um tema explosivo e a capacidade de escrevê-lo: "Sem a base realista e a estrutura de bela engenharia proporcionada por Mankiewicz, Welles jamais voltou a poder liberar aquela relação encantadora e perversa com a platéia que levou Kane, nem como ator nem como diretor. Trouxe muitas qualidades ao cinema, mas não trouxe mais personagens originais. Em seus filmes pode criar uma atmosfera, mas não uma base"(p. 225). Escrito em 1971, para acompanhar a publicação do roteiro de Cidadão Kane, o ensaio mereceu uma longa e irada resposta de Orson Welles. Em 1991, Pauline Kael resolveu aposentar-se. O fato foi notícia em todo mundo. A jornalista justificou a sua atitude sustentando que não suportava mais o empobrecimento estético e mental da arte cinematográfica. Como afirmou um jornalista do Los Angeles Times, "os cinéfilos não precisam concordar sempre com a crítica de Pauline Kael; aliás, quanto mais acalorado o debate maior é a sua certeza de estar fazendo seu trabalho." Criando Kane e Outros Ensaios, de Pauline Kael. Record, 364 págs. R$ 35,00.

Agencia Estado,

24 de setembro de 2000 | 16h31

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